Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Ficha de Trabalho: Caminho 36
Caminho 36: “Perdoai-nos, Senhor…
como nós perdoamos”: o grande sinal do discernimento.
Pistas de leitura.
O capítulo e o comentário a esta petição do Pai-nosso, tem duas partes bem definidas: a primeira, apaixonada, cheia de exclamações a Deus (atenção a estas); a segunda, em que apare-cem esses solilóquios, centrada nos efeitos do bom espírito (explorar o elenco dos mesmos).
A razão do tom apaixonado da primeira, deve-se à relação desta petição do Pai-nosso com o tema da “honra”: costume social e inclinação psicológica que alimenta e impõe o orgulho de esta-do, ofícios (36,4-6), linhagem e casta (36,10), em vez das atitudes contrárias e evangélicas: perdão e humildade. Portanto, para além do tom apaixonado da Santa em relação a este tema, prestemos atenção às soluções, ao teor dos pensamentos alternativos que propõe.
Para reflectir, rever a vida, interceder, agradecer, contemplar…
1. Quase de entrada, uma nota que chama a atenção: “ [Destas pequenezes] tenho tão pouco que oferecer, que a troco de nada me haveis de perdoar, Senhor” (36, 2)1 . – Sentes-te assim, ou antes o contrário? Se o segundo, como o vives? Todo o capítulo ajudará a aprofundar nisto, mas é bom situar-se, examinar-se honestamente desde o princípio.
2. E não é só o facto de que tivesse pouco que oferecer, senão que, levada pela ideia estabelecida de honra, “de quantas coisas sentia agravo, das quais agora tenho vergonha! […] Proveito da alma e isto a que o mundo chama honra, nunca se podem juntar” (36,3). Evidentemente, aquela ideia de honra pertence ao século XVI espanhol; mas, hoje, não é difícil encontrar atitudes semelhantes: personalidade, prestígio, reputação, dignidade, estima, realização pessoal, eu, direitos da pessoa, cuidar da própria imagem…palavras e valores, defesa da personagem que cada um julga desempenhar na vida2 . Portanto, reflectir, examinar, orar… (cf. capítulos 12-15).
3. O problema da “honra” não era (e é) só social: atentos, na Igreja, “os letrados” ao exemplo tere-siano (36,4) ou, melhor ainda, à invectiva tão oportuna de S. João da Cruz (2S 7,12)!
4. Atentas também “entre nós, a que foi prioresa há-de ficar inabilitada para outro ofício mais baixo; um olhar a que é mais antiga…” (36, 4-6). O que diz às suas monjas serve para qualquer grupo ou comunidade eclesial; portanto, rever com atenção…
5. As soluções que Teresa propõe dão-se em vários níveis e costumam aparecer reforçadas em forma de oração3 : A) Psicologicamente: minimizar estes “agravozinhos” (CE 63,3): “Em Vosso nome [Senhor] lhes peço que se lembrem disto e não façam caso de umas coisinhas a que chamam “agravos” (CV 36,3). B) Racionalmente (por senso comum), dar a volta a esta farsa de valores: “Oh, valha-me Deus, irmãs! Se entendêssemos que coisa é honra, e em que está perder a honra! […] Dai-nos, meu Deus, a entender que não nos entendemos” (36,3.6). C) Cristologicamente: “Oh, Senhor, Senhor, não sois Vós o nosso Modelo e Mestre? Sim, certamente. Pois, em que esteve a Vossa honra, honrador nosso? … (36,5). Visto isto, exercitas estas soluções ou algumas delas? Agradece, suplica…
6. – Que pedir? - “Dai-nos, meu Deus, a entender que não nos entendemos, e que estamos com as mãos vazias…” (36,6) ou, pelo contrário, “Senhor, não queirais que vá diante de Vós com tão vazias as mãos, pois conforme as obras se há-de dar o prémio” (V 21,5).
7. – Tens, como o Senhor, o perdão na máxima estima, ou o pospões a penitências, rezas, jejuns ou hipotéticos amores de Deus4 , vividos à margem do amor ao irmão (cf. 36,7; Mt 6,14-15; 18,23ss)
8. Os efeitos do bom espírito nos que têm contemplação perfeita são:
1- Perdoar as injúrias, especialmente as graves (36,8.13).
2- Mais ainda: preferir a desonra à honra, padecer por Deus (36,8-9; cf. cap. 18).
3- Parar com a razão e, rapidamente, os lógicos primeiros movimentos que vão contra o anterior (36,9).
4- Dar a conhecer os seus pecados, linhagem e casta, se for necessário… (36,10).
De modo que há aqui muito em que pensar, com que se examinar, orar…
9. Nos iniciados na contemplação (mesmo não perfeitos), se houver bom espírito, não pode faltar a determinação para sofrer injúrias, embora com pena (36,11) e mesmo que ao princípio não fique com a fortaleza em relação aos anteriormente ditos (36,12). De novo, rever, suplicar, agradecer…
10. Bonita concretização da importância de perdoar, na carta que dirigiu a Isabel de S. Jerónimo e a Maria de S. José, a 3 de Maio de 1579.
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1Só no livro da “Vida” pudemos ver mais de uma ofensa e perseguição padecidas pela Santa e objectiva-mente sérias. Mas, nestas linhas, fica claro que o vive subjectivamente doutra maneira: efeitos do bom espírito, que descreve a segunda metade deste capítulo.
2Op. cit. nota 1, pág. 263.
3Cf. T. ÁLVAREZ, Paso a paso… pp. 258-259.
4“Quem não ama o seu próximo, a Deus aborrece” (S. João da Cruz: Ditos de luz e amor).
Video
Ficheiro
2011-05-02
