Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Ficha de Trabalho: Caminho 37
Caminho 37: Elogio do Pai-nosso1 .
Encontramo-nos perante um dos capítulos mais breves do livro. A Autora interrompe o comentário às petições do Pai-nosso para fazer um elogio espontâneo e sentido, da oração dominical (de “esta oração evangélica”, dirá ela).
Nada de encómios ou ponderações vazias. À medida que glosava a oração do Senhor, a alma de Teresa ia-se enchendo de um enxame de sentimentos. Agora, detém o comentário para deixar que a invadam. Fá-lo no seu estilo típico confidencial.
São sentimentos de admiração e profundo apreço, traduzidos no seu acostumado léxico de assombro: “Pasmo de ver… em tão poucas palavras… toda a contemplação e perfeição” (n.1).
Sentimentos de complacência pedagógica, desejosa de reconquistar prosélitos orantes, para os quais enaltece absolutamente a oração que Jesus nos ensinou.
Sentimentos de gratidão para com o Mestre que, enquanto nos ensina, ora connosco, até podermos surpreendê-l’O ao dizer também: “faça-se a vossa vontade”, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, “perdoai-nos… como nós perdoamos”. Agora, como ao longo do comentário, interessa-lhe aproximar-se e vislumbrar esses sentimentos que povoaram a alma de Jesus quando orou essas petições “por nós”. E, ao mesmo tempo, inculcar esses sentimentos no leitor [cf. Ficha 30-31, pergunta 4].
Deste modo, também o elogio do Pai-nosso encaixa na sua pedagogia da oração. O leitor do Caminho recorda certamente esses mesmos conceitos reiterados já em páginas anteriores. Recorda o episódio da pobre velhinha, amiga de Teresa, que tinha no Pai-nosso o seu manual de contemplação (30, 7). Recorda a recomendação: “Convém-vos não vos apartar de junto do Mestre que vo-lo ensinou” (24, 5). E esta: ter presente “o grande amor que o Senhor nos mostrou nas primeiras palavras do Pai-nosso” (27, título). Está convencida – e vai repeti-lo mais adiante – de que “esta oração evangélica… encerra em si todo o caminho espiritual”: “a grande consolação que está aqui encerrada”, em cada petição (42, 5).
Recitação em dois níveis
Um dos motivos de assombro da Santa é a variedade surpreendente de possibilidade e tonalidades de que é susceptível a oração de Jesus.
Provavelmente nem todos poderão, por exemplo, identificar-se com a oração de certos salmos ou de alguns grandes orantes – Francisco de Assis, Nicolau de Flue, Teresinha do Menino Jesus, Carlos de Foucauld – ou com determinadas orações, tão autênticas e fortes, que nos chegam de outras religiões. Mas não é fácil pensar o mesmo da oração do Pai-nosso. Oração acessível a todos. Teresa crê que Jesus a deixou intencionalmente aberta para que possa pousar-se nos lábios de qualquer orante. Inclusive nas situações mais extremas de dor, gozo, necessidade, escuridão, petição ou acção de graças…
Ela própria conhece e recorda, nas páginas do Caminho outras tantas maneira possíveis de apoiar a própria oração do Pai-nosso. Em geral, prefere a sua reza pausada e meditativa, inclusive contemplativa, à recitação multiplicadora de Pai-nossos. Pensa que conseguimos “muito mais com uma palavra do Pai-nosso, do que dizê-lo muitas vezes à pressa” (31,13). Quando o propõe como átrio de entrada no recolhimento contemplativo, insiste em que “se havíamos de dizer muitas vezes o “Pai-nosso”, bastará uma só para [o Pai] nos entender” (29, 6). Talvez se lembre, agora, aos seus cinquenta anos, do delicado simbolismo de um dos ritos da sua iniciação na vida carmelita, quando ela contava apenas 21 anos. Foi na cerimónia da sua tomada de hábito. O sacerdote que presidiu o acto ia benzendo e entregando-lhe, uma a uma, as peças da sua indumentária de carmelita: primeiro, a capa branca, logo, o cinto, por fim, o véu. Vestida já com o hábito do Carmelo, o celebrante pôs-lhe nas mãos a oração do Pai-nosso, símbolo da vida contemplativa da carmelita, acompanhando a entrega com uma oração: “Senhor Jesus Cristo, Tu, que ensinaste os teus discípulos a orar, acolhe e abençoa – Te rogamos – as orações desta tua serva; inicia-a com as tuas inspirações e assiste-a com a oração contínua, para que toda a sua oração comece sempre por Ti e em Ti sempre termine”.
Agora, no Carmelo de São José, a vida ordenada da carmelita está marcada por numerosas ocasiões em que se repete a oração do Senhor. Assim o prescreve a Regra do Carmelo. Teresa conhece a ama esta prática. Mas quer carregá-la de conteúdo: “Posto que tantas vezes… dizemos ao dia o Pai-nosso, regalemo-nos com ele” (CE 73, 5). E quando a sua sobrinha Teresinha, ainda aprendiz de carmelita, tem as primeiras dificuldades vocacionais, ocasionadas pela convivência ou pela vida espiritual, a Santa recomenda-lhe, como grande remédio, concentrar-se na recitação de um Pai-nosso (carta de 7-VIII-1580, a Teresinha).
Mas o que agora mais lhe interessa destacar é que existem duas maneiras profundamente diferentes de rezar a oração do Senhor: uma, como os contemplativos e as “pessoas muito dadas a Deus”, “que já não querem coisas da terra”. A outra é a dos que repetimos as petições do Pai-nosso no meio do emaranhado das pressas da vida quotidiana. Para aqueles, cada uma das petições é como uma ocasião ou uma palavra que eleva ao plano da “grande bondade de Deus” para nela mergulharem. Também os contemplativos dizem – como qualquer principiante – “que se faça a Sua vontade” e “que nos perdoe, que perdoamos”, mas de maneira tão diferente!
Mesmo isto, sem distinções de classe, nem sequer de qualidade2 . A Santa reitera a eficácia transformadora da oração dominical para todos. Todos, o contemplativo e o principiante, “de tal maneira podemos dizer uma vez esta oração que, vendo [o Pai] que em nós não há duplicidade, mas que cumpriremos o que dizemos, nos deixe ricas. É muito amigo de que sejamos verdadeiros com Ele; tratando-O com sinceridade e clareza, não dizendo uma coisa e fazendo outra, sempre dá mais do que Lhe pedimos” (n. 4).
Oramos com Mestre
O elogio da oração do Pai-nosso serve, ao mesmo tempo, de aproximação às duas últimas petições. Dois riscos em que facilmente pode cair o orante são: carecer de mestre e perder a consciência do risco no caminho. Para ela, que tanto sofreu nos primeiros trechos do seu caminho de oração por não ter mestre que a orientasse e discernisse, o “Pai-nosso” é garantia segura de estar sob a tutela do Mestre absoluto , o que propôs essa oração. E que Mestre: “Ó Sabedoria eterna, Ó bom Ensinador!” (n.5).
E, como não podia deixar de ser, na oração do Pai-nosso, como no ensinamento das parábolas da vigilância, o Mestre previne o orante contra a miragem do “caminho sem perigos”, sem males nem assaltos, nem inimigos… A própria Teresa tem uma extrema sensibilidade, face a esses componentes negativos da vida: que no caminho da oração não há “seguros de vida”. Não existem seguranças definitivas. A própria oração não é uma injecção imunizante. A vida é risco em toda a sua extensão.
Por isso, o Mestre, depois de petições como “faça-se a Vossa vontade”, “dá-nos o pão e o perdão de cada dia”, porá na boca do orante as duas petições finais. Não só para manter no discípulo a insubstituível consciência de risco (o “vigiar e orar”), como para convencê-lo de que “necessita” de que Deus o livre do mal, que não o deixe cair na tentação.
Será esse o clamor das duas últimas invocações do Pai-nosso.
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1Reproduzimos na íntegra o capítulo 37 de: T. ÁLVAREZ, Paso a paso. Leyendo a Teresa con su Camino de Perfección, Monte Carmelo, pp. 264-268. Além do muito que ajudará a cada leitor a reflectir, rever, orar…, tomamos a liberdade de destacar, com esse mesmo fim, alguns pontos em particular, mediante sublinhados e notas ao pé de página.
2Será que não as haverá na sua alusão àqueles “ que ainda vivem nela [a terra] e é bem que vivam conforme o seu estado…” (37,2)? Cf. Ficha 10-11, pergunta 7; Ficha 12-15, pergunta 1.
Video
Ficheiro
2011-05-03
