Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo IV
Depois de definir a empresa a que se propõe, congregando as suas Irmãs em S. José, S. Teresa pergunta: “Que tais havemos de ser?”
Responde rapidamente: orantes. Mas não fica por aqui. Acrescenta que para se tornarem orantes são necessárias algumas coisas: “antes que diga… da oração, direi algumas coisas que são necessárias, que, sem serem muito contemplativas, poderão estar muito adiante no serviço do Senhor; e é impossível, se não as têm, ser muito contemplativas, e quando pensarem que o são, estão muito enganadas” (C 4, 3).
Este texto é importantíssimo, próprio de uma grande orante e mestra de oração:
- Os leitores, parece que andam preocupados pelo “exercício” da oração, concretamente na sua forma mais perfeita, a contemplação.
- A S. Teresa preocupa-se com a vida de oração, ou seja, o orante. De facto, no título do capítulo escreveu: “três coisas importantes para a vida espiritual” e neste texto citado apresenta estas três coisas como “necessárias” para as que pretendem levar caminho de oração”.
- E porque S. Teresa anda preocupada pela vida, assegura que tendo estas três coisas, “estarão muito adiante no serviço do Senhor”, mesmo quando o seu “exercício” de oração não seja de muito “contemplativas”.
- E acrescenta ainda, que não se pode ser muito contemplativas sem a prática-vivência dessas “coisas tão necessárias”.
Estas três coisas são:
- “Amor de umas para com as outras” – um amor que eduque e sensibilize o orante, na relação com as pessoas. A oração é trato de amizade com Deus. Exige afinar o trato de amizade com os irmãos.
- “Desapego de todo o criado” - que o eduque e liberte na relação com as coisas, aos valores terrenos que tendem a retê-lo. A oração é liberdade. Liberdade para dar-se a si mesmo de todo ao Todo. Há que soltar as amarras que atam à terra e escravizam.
- “Verdadeira humildade” – que afine e purifique o orante na relação consigo próprio. Que o abra e mantenha disponível, até poder dizer a Deus de veras “faça-se a Tua vontade”. No fundo, a oração é acolher a verdade de Deus, e serve para dizer-lhe a nossa verdade. Humildade é andar em verdade diante d’Ele e dos homens.
Com estas linhas define o orante, o “homem novo”. O que pretende S. Teresa antepondo o estudo destas três coisas à apresentação da oração em si mesma? Fazer o orante comprometendo-o numa renovação interior para que possa “tratar de amizade” com Deus, para que possa ser bom amigo de Deus. È preciso renovar o ser interior do homem, refazê-lo até conformá-lo com o Amigo.
Por isso a escolha destas três coisas não é algo arbitrário ou casual, mas responde a uma visão em profundidade do “homem novo” que há que promover e desenvolver corrigindo os desvios do “homem velho”:
- de egocêntrico passa à caridade
- de possessivo passa ao desapego-liberdade
- de soberbo passa à humildade
A estas linhas acrescentará, mais tarde, a “determinada determinação” que acrisole o carácter guerreiro do contemplativo. A esta virtude poderia chamar-se também de fortaleza.
É sobre estes fundamentos que se vai construir o edifício da oração e, de facto, isto é tão importante para ela que dirá mais tarde no cap. 14: “O muito que importa não dar profissão a nenhuma em que o seu espírito vá contrário às coisas que ficam ditas”. O que quer dizer com isto? Que este é o “espírito” que deve informar a nossa vida.
Como vemos Teresa propõe a oração, a oração contínua, não no sentido da oração do famoso peregrino russo que procura fórmulas e técnicas para ocupar ininterruptamente os lábios, o pensamento, os latidos do coração, mas para modelar a vida da comunidade. O que ela quer é que as doze sejam uma comunidade orante e que cada uma viva o ideal contemplativo de solidão, silêncio, paz e experiência de Deus.
Por isso S. Teresa não começa por propor métodos de oração ou regras de meditação que regulem e eduquem o acto de orar, mas começa pela vida do orante, porque o requer assim a “grande empresa” do castelo e ainda porque “oração e vida regalada não se compadecem”.
O que ela quer para o fundamento da oração são virtudes evangélicas e que, como já dissemos, vão remodelar o orante.
O AMOR
A primeira das virtudes que ela vai apresentar é o Amor. Mas amor de verdade. S. Teresa inicia assim este tema: “Quanto à primeira que é amar-vos muito umas às outras, vai muito; porque não há coisa enfadonha que não se passe com facilidade naqueles que se amam” (C 4, 5).
Não nos podemos aproximar de Deus sem colocarmo-nos o problema do amor. S. Teresa depois do toque da graça que a libertaria afectivamente e, por isso, capaz de apresentar uma postura clara sobre este tema, enuncia uns princípios sobre o amor que são fundamentais:
- Antes de mais, é preciso amar. “Amarmo-nos muito umas às outras”. É o mandamento do Senhor. O Amor é insubstituível. Não viver em comunidade sem amor. Conviver e não amar-se, seria de “gente rude” (C 4, 10)
- Por tanto, “aqui todas hão-de ser amigas, todas se hão-de amar, todas se hão-de querer, todas se hão-de ajudar” (C 4, 7)
- O amor aplana o escabroso da vida: “não há coisa enfadonha que não se passe com facilidade entre os que se amam, e forte há-de ser coisa quando lhe causa enfado” (C 4, 5).
- Mas esta travessia do amor não se faz sem roçar com dois escolhos:
a) por um lado, “as demasias” do amor humano, que o corrompem e o tornam uma doença contagiosa, como uma “pestilência” que mata a vida e a paz da comunidade.
b) por outro lado, o amor camuflado de espiritual e intercalado na direcção espiritual e nos sacramentos
S. Teresa fala por experiência e por aquilo que ela viu noutras comunidades com os seus próprios olhos.
Depois de falar do Amor em geral, vai agora falar dos dois amores (“de duas maneiras do amor é o que trato” (C 4, 12). Há dois amores:
- um “todo espiritual”
- outro espiritual e sensível a mesmo tempo, porque dá lugar ao egoísmo e à sensibilidade (às motivações do sentido)
Os dois são bons e entram no “livro do bom amor” de Teresa. Nos capítulos seguintes desenvolverá cada um deles e suas características próprias.
Para educar o orante, há que apontar o amo puro, sem mistura de egoísmo. Mas até chegar a ele, o normal será o exercício do amor que vá decantando o egoísmo e outras escórias.
Em resumo, o importante é começar amando. Que nem na pessoa nem na comunidade haja vazio de amor, pois “em amar-vos muito umas às outras vai muito muito”…
Só assim, o trato de amizade com as Irmãs será uma aprendizagem desse outro “tratar de amizade com quem sabemos nos ama”. E isto é precisamente o que S. Teresa entende por oração.
Video
Ficheiro
2011-09-22
