Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo VI
Como enunciámos na última vez, há duas maneiras de amor: um que chama “espiritual” e o outro “espiritual e, junto com ele, a nossa sensibilidade”.
Características, muito em resumo, do segundo amor:
a) “Pouco a pouco tira força à vontade para que de todo se empregue em amar a Deus” e não vai muito ordenado a ajudar-se a amar mais a Deus. Amor sem horizonte teologal.
b) Provoca danos na comunidade: é com ele que se iniciam partidos, particularidades, parcialidades. Fecha, não abre. Perde-se a perspectiva universal, comunitária.
c) Escraviza: “Não seja escrava de ninguém a vossa vontade senão de quem a comprou com o seu Sangue”. “Ver-se-ão presas”. “Não deixar-se assenhorear por aquela afeição” É um amor que bloqueia o processo de amadurecimento, que não se expande em direcção a Deus e aos outros.
d) Amor provocado, pelo menos prevalentemente, pelas “sensualidade”, pelo “exterior”, pelas “graças da natureza”. Fazer pouco caso do exterior. Este amor é superficial, por isso, “utilitarista” do outro, deformado e deformante.
e) Tudo isto vai aplicar também S. Teresa às relações com o confessor; “se não vêm que a sua linguagem é afeiçoada a falar de Deus, não o poderão amar, porque não é seu semelhante”.
Do primeiro amor vai dizer a sua raiz, as suas características e meios para alcançá-lo e desenvolve isto nos cap. 6 e 7.
No capítulo 6 dirá como é esse amor puro e como é quem o tem.
No capítulo 7 falará das suas qualidades: sua eficácia apostólica e suas características fisionómicas.
Este capítulo 6 é intencionalmente pedagógico e ao mesmo tempo autobiográfico e apresenta duas chaves de leitura possíveis:
- Chave de história pessoal: A experiência pessoal de S. Teresa. Aparece como uma auto-radiografia do amor de S. Teresa: convicções, experiências passadas e presentes desejos. Teresa evoca a sua experiência forte e a passagem de uma amor a outro amor e, como a pessoa, desde que compreende “que coisa é o mundo e que há outro mundo, etc”, ama com um amor “muito diferente”. Para começar bem a vida espiritual é preciso começar pelo amor.
- Chave doutrinal: S. Teresa procura definir o amor, introduzir nele as leitoras, e fazer a apresentação do “amante perfeito”. Dialoga com as suas Irmãs vindas do mundo e com a experiência do amor profano. Poder-se-ia resumir assim a trama deste diálogo:
- Depois de enunciar o tema, Teresa capta da boca das Irmãs um precipitado “já sabemos” ao qual ela responde muito fortemente:
- Oxalá o soubésseis “da maneira que faz ao caso, isto é, impresso nas entranhas, o mesmo é dizer, por experiência semelhante a ela.
Este amor nasce de uma visão teologal do homem, de uma visão e profundidade, “passando” da exterioridade, perfurando-a, para chegar “dentro”: Diz ela: estas pessoas “não se contentam com amar coisa tão ruim como estes corpos…, bem que lhes agrade á vista…; mas para deter-se nisto, não; digo deter-se, de maneira que por estas coisas lhes tenham amor”. Vai dizer com uma força tremenda mais adiante: “não há coia custosa que uma alma destas não faça de boa vontade por aquela a quem quer bem, porque deseja continuar a amá-la, e sabe muito bem que se que, se ela não tem bens espirituais e ama muito a Deus, que é impossível, por mais que a obrigue e mate por amá-la, e lhe faça todas as boas obras que puder, e possua todas as graças da natureza juntas; não terá força a vontade, nem a poderá fazer firme” (C 6, 8)
- Na segunda pergunta: Direis que quem ama com esse amor, torna-se apático para com os outros, insensível.
- Resposta forte e algo desconcertante: “Dá-se-lhes pouco” de certos amores superficiais, insignificantes, sem substância”, pois passaram a outro plano afectivo, até implicar o próprio Deus na amizade (n. 6)
- Nova objecção: no fundo, “parecer-vos-á que esses tais não amam ninguém – nem sabem – senão a Deus”. É a terrível objecção de sempre: um amor absoluto ao divino não esvazia de sentido todo o amor humano?
- Teresa responde com veemência: “Amam sim e muito mais e com mais verdadeiro amor”! Teresa recorda aqui os amigos que agora tem e de como os ama.
- Nova objecção: “Parecer-vos-á que esses tais não amam pelas coisas que vêem e então a que se afeiçoam”?
Resposta: Mas o que vêem é o real, o que é digno de amor. “Essas coisas que vêem são estáveis”. Durarão para sempre. Fundam um amor não caduco. Uma visão superficial da pessoa leva a um amor inconsistente, superficial, “fantasma”, sem substância. O amor tem a sua raiz naquilo que vê. “O que vêem amam. Mas o que vêem? Passam do exterior para o interior, nas coisas estáveis, que perduram. Daí nasce o amo estável e consistente.
E S. Teresa só admite neste amor puro que sejamos objecto e fim do amor do outro quando se trata daqueles que podem aproveitar no nosso caminho para Deus, no amadurecimento da fé, “que nos podem fazer bem” com “doutrina e oração”. Em relação aos outros é uma grande cegueira esse “querer que nos amem”. (C 6, 5).
Este amor puro a que Teresa nos quer conduzir é amor desinteressado, pois tudo o que deseja é ver rica aquela alma (a pessoa querida) de bens do céu, isto é, cresça na sua dimensão cristã. E isto chega ao ponto de desejar tomar sobre si o sofrimento do amigo e que ele ficasse com todos os ganhos: “Abraçar todos os trabalhos, e que os outros, sem trabalhar [sem sofrer], se aproveitassem deles”.
Assim o amor torna-se redentor. Aproveita muito aos outros, “ganham muito os que têm a sua amizade”. É um amor que ajuda a crescer. E, por isso mesmo, doloroso: o irmão é uma “mina de ouro” se se trabalha com amor, “se cava”. A estas pessoas “não lhes dói o trabalho: nenhuma coisa se lhe põe diante que de boa vontade não a fizessem pelo bem daquela alma”.
A dor vem também motivada pela situação moral da pessoa amada. O amor descobre até arguerinhos. Nada se lhe encobre. Seria duplicidade comportar-se de outro modo. Amorosamente intransigentes.
Em resumo: agora Teresa pode colocar na balança a dupla ordem das motivações geradoras de amor: no amor que leva a sensualidade atrás, pesam as graças da natureza, os tesouros do mundo, deleites, honras e riquezas. Neste amor todo espiritual, entram em jogo os valores de fundo, a verdade, o bem, o que perdura e não passa, a própria pessoa do amigo. Daqui surge a verdadeira face do “amante perfeito”: “esta maneira de amor queria eu que todas tivéssemos”. “Aquele que vai imitando o capitão do amor, Jesus nosso bem” (C 6, 9).
Video
Ficheiro
2011-09-22
