Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo VIII e IX
Nestes dois capítulos S. Teresa começa a tratar da segunda grande virtude do orante: o desprendimento e, para ela é de grande importância, como diz logo no início: “Ahora vengamos al desasimiento que hemos de tener, porque en esto está el todo, si va con perfección. Aquí digo está el todo, porque abrazándonos con solo el Criador y no se nos dando nada por todo lo criado, Su Majestad infunde de manera las virtudes, que trabajando nosotros poco a poco lo que es en nosotros, no tendremos mucho más que pelear, que el Señor toma la mano contra los demonios y contra todo el mundo en nuestra defensa”. (C 8,1)
Poderíamos ter como pano de fundo deste capítulo e dos seguintes três palavras evangélicas:
- “Se não deixardes tudo não podereis ser meus discípulos.” (Lc 14, 26-33)
- “Aquele que ama o seu pai ou a sua mãe mais que do que a mim, não é digno de mim”. (Mt 10, 37)
- “Quem deixou casa ou pai ou mãe ou irmãos e irmãs… por mim, receberá cem vezes mais em casas e irmãos e irmãs e mãe…” (Mc 10, 29)
Tratamos então do desapego. Desapegar-se é desamarrar-se. No entanto, estamos conscientes de que com negações, renúncias e rupturas ninguém se alimenta e cresce. Não é a negação, mas a afirmação, não a renúncia, mas a posse: não a ruptura, mas a opção, o que faz e realiza, amadurece, centra e “recolhe” a pessoa.
O desapego e liberdade de todas as coisas e de tudo, é exigência e preço de um grande amor pelo qual se apostou. Teresa está como que obcecada por contagiar os seus leitores para serem todos de Deus e só d’Ele. É esta obsessão que a torna insaciável por desatar todos os nós de escravidão.
“Apegadas só a Ele”
Teresa procura que as suas monjas “se dêem de todo ao Criador”; “que vivam com os olhos no seu Esposo”; que optem radicalmente por Ele, pela Sua Pessoa. Contentar-se de só contentar a Ele e não temer nada senão “só descontentar a Deus”. De tal forma se abracem com Jesus que ao encontrarem tudo n’Ele, tudo esqueçam. Portanto, opção totalitária por Ele, para encontrar tudo n’Ele; a partir desta opção, pode-se então esquecer, passar tudo, deixar tudo por Ele. Teresa quer que as Irmãs sejam pessoas de um único Amor, pois são esposas de Cristo e, por isso, ao darem-se assim de todo, o melhor que Lhe podem dar é a vida, pois muito pagou Ele por nós! Esta é a dimensão teologal da ascética teresiana. Agora, o próximo e semelhante das suas monjas, é aquele que afirma Deus na sua vida.
O desapego apresenta-se sob duas formas:
- Diante das coisas: como possuí-las sem se possuída por elas, sem cair numa dependência escravizante, como a do avarento, mais possuído que possuidor.
- Diante das pessoas: como amar sem cair no cárcere do amor, sem criar uma nova dependência que encadeie a liberdade. Aplica-se tanto aos parentes como à relação com outras pessoas: que não seja escrava de ninguém a nossa vontade, nem que outros se tornem escravos de nós. Aflora aqui o tema do amor puro: amar sem afã possessivo, até ter o pleno poder de dar-se… Portanto, liberdade nas relações interpessoais. É impossível não recordar aqui o nosso Santo, nos seus nadas-para-o-todo e as suas Cautelas. Também em S. Teresa vamos encontrar estes dois pólos: “Para dar-se de todo ao Todo”, é preciso que “não se nos dê nada de todo o criado”.
Livres para nos darmos
O seguimento de Jesus exige deixar algo, exige desprendimento. A Jesus, seguimo-Lo com o amor, mais do que com os passos.
Não fala aqui em penitências titânicas, mas vai em direcção ao interior: profunda necessidade de liberdade interior e absoluta necessidade de nos darmos a nós mesmos sem reticências nem reservas.
O homem que vive à superfície costuma saciar-se com a liberdade exterior, liberdade em bruto: que nada nem ninguém lhe ate as mãos nem os pés; que não o impeçam a liberdade de acção e movimentos. Mas Teresa fala aqui de outra necessidade de liberdade: uma liberdade profunda da pessoa, retida por amarras psicológicas invisíveis e morais que a impedem de voar para Deus. Mas só chegamos à consciência destas amarras quando chega a necessidade de nos darmos, isto é, quando nos perguntamos: “Que faço da minha vida? E da minha pessoa? Entrego-a? Posso dar-me todo… sem fazer partilhas?
Entre dar o que se tem (fazer partilhas) e dar o que se é (o todo da pessoa), há uma tremenda linha divisória. Teresa depois de muito lutar, atravessou-a e é daqui que nasce este seu preceito: “desapegar-se de todo o criado para se dar de todo ao Todo”.
No Cap. 9 em que o título diz: “trata do grande bem que há em fugir dos parentes os que deixaram o mundo, e de que quantos mais verdadeiros amigos encontram”, está apenas a invocar o preceito evangélico “deixar pai, mãe, irmãos…
Depois da sua experiência na Encarnação e sabendo que algumas das suas monjas de S. José vieram de lá, Teresa procura esconjurar aquele escolho da intromissão dos familiares na vida das suas Irmãs.
Teresa além disso sabe muito bem que para chegar à maturidade do espírito é preciso cortar o cordão umbilical que liga a pessoa ao tronco familiar de origem. Isto é tão necessário tanto à jovem que se casa e deixa o lar paterno como a que se consagra a Deus. Sem este corte não haverá entrega total “ao verdadeiro amigo e esposo vosso”.
Apesar de com o tempo S. Teresa ter limado algumas arestas deste seu capítulo (sabemos que escrevia como reacção aos costumes da Encarnação), no entanto, permaneceu sempre muito firme na sua dupla convicção de fundo: o preceito evangélico do desapego total para o seguimento de Cristo (“desapego de todo o criado”), e a intuição psicológica da necessidade cortar dependências humanas profundas, para chegar à liberdade do adulto e à purificação do amor, para fazer o dom de si mesmo a Deus.
Video
Ficheiro
2011-09-22
