Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo X e XI
Soltar as amarras interiores
Para S. Teresa desapego é sinónimo de libertação e serve para chegar ao “senhorio” de si mesmo. Como diz ela: “Esta santa liberdade de espírito é ficar neste sossego e senhorio” (C 11, 5).
Muitas vezes pensamos que a liberdade nos é tirada a partir de fora (violência, opressão, proibições), mas S. Teresa põe o problema de outro modo: é preciso libertar-se das amarras exteriores, de coisas e pessoas, e sobretudo das que nos são mais queridas (cap. 8 e 9), mas entendamos bem: somos nós os que nos deixamos amarrar…
Teresa vai apresentar uma estratégia de libertação interior a partir deste capítulo 10. Apresenta a sugestiva parábola do ladrão interior que se apodera dos tesouros interiores que temos em casa e constituem a pessoa.
Que significa este ladrão? Este ladrão, somos nós mesmas, ou seja, a nossa pessoa com as suas baixas tendências, inclinações más; é tudo aquilo a que S. Teresa chama vontade própria e que contraria a liberdade do espírito.
O que é este ladrão da vontade própria? É querer que todas as coisas sucedam como se quer, como se pensa, como se prefere, segundo o nosso gosto pessoal, em vez de desejar que tudo aconteça de acordo com a vontade de Deus. A nossa vontade deve tender para se perder toda em Deus e não se poderá perder em Deus enquanto deseja que as coisas corram da maneira que mais nos agrada. Enquanto nos dominar a vontade própria, estaremos carregadas de “terra e chumbo”, de preocupações e não teremos liberdade interior. Importa dizer aqui que não se trata de desejar coisas menos boas: poderemos querer coisas boas, mas segundo a nossa vontade, segundo a ideia que temos delas. Um exemplo: se vemos uma pessoa que nos faz qualquer coisa boa, mas não como nós queremos, não ficamos contentes, tentamos impor-nos, desejando que tudo se acomode à nossa maneira de ser. Uma pessoa que tenha demasiada vontade própria impõe-se a todos para fazer valer o seu modo de ver pessoal. Mas isto só acontece porque a pessoa procura a satisfação de ver correr as coisas como ela as concebeu.
Por isso, a regra da nossa vida e a fonte da nossa alegria não deverá ser o nosso modo de ver, ainda que seja bom, mas o pensar - e alimentar este pensamento – de que tudo caminha segundo a vontade de Deus. Uma pessoa que se conforma à vontade do Senhor está sempre serena, pois vê a causa primeira acima das causas segundas. Por isso, em vez de desanimarmos quando vemos que as coisas não se realizam como desejámos, devemos antes amar a abnegação, isto é, conformar-nos com o querer de Deus.
Temos tantas aspirações boas e belas em nós a respeito da Igreja e do mundo, e até mesmo a respeito da nossa vida pessoal! Se depois virmos cair por terra as nossas aspirações, não nos perturbemos: o Senhor tem inúmeros meios para atingir o seu fim, tanto nas coisas grandes como nas mais pequenas e individuais. Podemos elaborar os nossos planos, mas não lhes fiquemos amarradas. Deixemos o campo livre ao Senhor.
É isto que S. Teresa entende por vontade própria, o ladrão interior; isto é, o desejo acentuado de que as coisas corram segundo a nossa visão pessoal. Isto poderia igualmente aplicar-se à aquisição das virtudes. Propomo-nos, por exemplo, a humildade, e queríamos alcançá-la num mês. Sem dúvida que também o Senhor nos quer humildes, mas pode igualmente querer que nos exercitemos nesta virtude sem vermos os resultados. O que Ele deseja é ver-nos activas, e ficará sempre contente com o nosso esforço… Mais tarde ou mais cedo a coisa terá o seu êxito, mas talvez muito fora dos nossos planos e aspirações.
Que meios nos vai apontar S. Teresa para este desprendimento próprio?
1- “O pensamento de que tudo é vaidade e de que tudo deve acabar em breve” (C 10, 2). Pensar que tudo passa. Por vezes comportamo-nos e desanimamos como se devêssemos ficar para sempre na terra. Damos excessiva importância aos nossos planos, segundo as nossas perspectivas humanas. Se, ao contrário, pensássemos que tudo passa e que certas aspirações não nos servem para permanecer eternamente junto de Deus, estaríamos serenas e confiantes. De outro modo, seremos apanhadas pelo desânimo.
2- O segundo meio decorre do primeiro: quando nos desalentamos ao verificar que as coisas não sucedem segundo as nossas previsões indica que estávamos apegadas a elas. Não permitamos preocupações ao nosso pensamento. Confiemos tudo ao Senhor, sobretudo quando se trata de coisas que não dependem de nós: “Procuremos com todo o cuidado não nos apegarmos a coisa alguma, por mais pequena que seja; e mal nos apercebamos de qualquer apego, desviemos logo o pensamento, elevando-o a Deus, e Ele nos ajudará” (C 10, 2).
Quando nos damos conta de que estamos muito preocupadas, devemos sempre dizer ao Senhor que queremos fazer a Sua vontade e não a nossa, que queremos que se realize o Seu plano e não o nosso.
3- O terceiro meio que a Santa Madre nos sugere para praticar o desprendimento de nós mesmas é a humildade, que facilita e aperfeiçoa a abnegação (não desejar fazer a própria vontade). Diz a Santa: “Encontrando estas virtudes (humildade e mortificação) encontrareis o maná e ficarão cheias de suavidade para o vosso paladar todas as coisas: por mais amargas que os do mundo possam achá-las, elas terão sempre para vós um suavíssimo sabor” (C 10, 4).
4- O quarto meio que Teresa nos oferece nesta tarefa de educação interior para a liberdade do espírito, é a tarefa de educar o corpo: “Este corpo tem uma falta, que quanto mais o regalam, mais necessidades descobre” (C 11, 2). A liberdade interior não a recebe o homem do corpo nem dos sentidos, mas do espírito. Não do animal, mas do anjo que levamos dentro de nós. Daí o conselho da Santa: “O que primeiro temos de procurar é tirar de nós mesmas o amor a este corpo, porque somos algumas tão regaladas por natureza…e tão amigas da nossa saúde, que é para louvar a Deus a guerra que isto faz… Determinai-vos, irmãs, que vindes a morrer por Cristo e não a regalar-vos por Cristo” (C 10, 5). Esta educação do corpo há-de fazer-se, educando o espírito a não render-se às pressões do corpo. Por isso ela aconselhava logo no primeiro meio: “Grande remédio é para isto (para educar o corpo) trazer continuamente o pensamento na vaidade que tudo é e quão depressa se acaba”. Ou seja, alimentar altos pensamentos, como também já dissemos.
5- O quinto meio que S. Teresa nos sugere para não deixar coarctar a nossa liberdade interior é não nos queixarmos dos pequeninos achaques de todos os dias, o que ela chama os “males leves”: “Parece coisa imperfeita, minhas irmãs, este queixarmo-nos sempre de males leves; se podeis sofrê-lo, não o façais” (C 11, 1). “Pobres e regaladas, não leva caminho” (C 11, 3).
No entanto, S. Teresa não fica por aqui, mas procura apontar mais alto. Ela quer advertir as suas filhas para o verdadeiro risco de involução espiritual, que consiste em criar lentamente um centro de atenção no próprio corpo, com o álibi dos achaques quotidianos. É isto que leva a estas expressões fortes como: “Vencer estes miseráveis corpos…”. Porque, “Se não nos determinarmos a tragar de uma vez a morte e a falta de saúde, nunca faremos nada” (C 11, 4). S. Teresa toca aqui uma fibra sumamente delicada: o medo da morte.
É aqui que Teresa quer que cheguemos, como também ela chegou: procurar não temer a morte: “Procurai não a temer e entregai-vos de todo a Deus, venha o que vier. Que importa que morramos? Por quantas vezes zombou de nós o corpo, não zombaríamos dele também alguma? E crede que esta determinação importa mais do que podemos entender; porque muitas vezes que o vamos fazendo pouco a pouco, com o favor do Senhor, ficaremos senhoras dele” (C 11, 5).
Por isso dirá no capítulo seguinte: “De como há-de ter em pouco a vida o verdadeiro amador de Deus”. Como em S. Paulo também ela quer encaminhar o leitor para essa suprema liberdade de espírito: “Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8). Como é tão belo e cristão este diálogo de S. Teresa com a morte: “Oh morte, morte, não sei quem te teme, pois está em ti a vida!”.
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Ficheiro
2011-09-22
