Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XII
Neste capítulo dá-nos S. Teresa duas determinações fortes: que o verdadeiro amador,
- Tem em pouco a vida
- Dá-se-lhe pouco da honra
Teresa, ao afirmar isto, tem presentes duas coisas:
- Tem presente o Evangelho: “Quem não dá a vida, perde-a” e “É Deus que, com a sua sabedoria infinita, nos leva a deixar tudo por Ele”.
- Fala do vivido por ela: Teresa já não tem medo à morte e ela que era tão dada à honra, vê-se livre dos pontos de honra.
Poderíamos dizer que ela aborda aqui o tema da vida e o da honra. Fala por própria convicção, a partir do que viveu:
- “A Deus o menos que Lhe podemos oferecer é a vontade e a vida, pois que de tudo o que tem fim, não há que fazer caso”, pois a vida é curta e algumas curtíssimas.
- Que o culto da honra é pestilência na comunidade.
Conclui-se então que não haverá “amador autêntico” nem verdadeiro orante” sem o que Jesus propõe no Evangelho: “Dar a vida para a ganhar”.
O tema da honra
S. Teresa chama-lhe a “negra honra”. Porque insiste tanto, ao longo do Caminho, neste ponto? Teresa vivia numa sociedade que vivia da honra, do estatuto, mesmo no estado religioso. Teresa não é mera espectadora deste panorama. Ela própria, por ser filha de fidalgos, sempre lutou pela sua honra. Ao falar deste tema, detém-se a falar de si própria: “Não falo convosco, mas comigo, no tempo em que me prezei de ter honra sem entender o que era: ia na peugada de toda a gente. Oh! de quantas coisas sentia agravo, das quais agora tenho vergonha” (C 36, 3).
Mas, pela graça de Deus descobriu a mentira que se escondia por detrás dos “pontos de honra”: “Dói-se do tempo em que olhou a pontos de honra e do engano que trazia em crer que era honra o que o mundo chama honra. Vê que é grandíssima mentira e que todos andamos nela. Entende que a verdadeira honra não é mentirosa, senão verdadeira, dando valor ao que, de facto, o tem e tendo o que não é nada, por bagatela, pois é nada, e menos que nada, tudo o que se acaba e não contenta a Deus” (V 20, 26).
Libertada de todas estas amarras, poderá dizer a Deus: “Aqui está a minha vida, aqui está minha honra e minha vontade; tudo Vos dei; Vossa sou, disponde de mim conforme Vos agradar” (V 21, 5).
E, a partir desse momento, não se cansa de repetir às suas filhas: “A nossa honra, irmãs, há-de ser servir a Deus. Quem pensar que disto vos há-de estorvar, fique-se com a sua honra em sua casa” (C E, 20, 1).
Por isso, a honra era, para ela, pestilência; não há pior tóxico para matar: “É uma cadeia que não há lima que a quebre, se não é Deus com oração” (V 31, 20). E “se não tiram esta lagarta, se bem que não dane a toda a árvore, porque algumas outras virtudes ficarão, serão todas carcomidas. Não é árvore frondosa, não medra, nem mesmo deixa medrar as que estão ao pé dela” (V 31, 21); “O ponto de honra, é como o canto do órgão que, por um ponto ou compasso que se erre, destoa toda a música. É coisa que em todas as partes faz muito dano à alma, mas neste caminho de oração é pestilência” (V 31, 21).
E em que consistem estes pontos de honra?
Diz a Santa Madre: “Nos movimentos interiores tenha-se muito cuidado, em especial no que toca a primazias” (C 12, 4). O que vêm a ser estes movimentos interiores? Pensamentos que nos levam a preferir-nos aos outros, porque, no fundo, alimentamos a íntima convicção de que valemos mais, que temos mais capacidade, logo vem o desejo de nos vermos reconhecidas, de pôr em evidência o nosso valor… S. João da Cruz dá acerca disto, excelentes conselhos na sua terceira Cautela contra o demónio. Ou seja, desejar ser colocada em último lugar. Isto é o oposto às preeminências. Gostar que os outros sejam colocados à nossa frente: esta é a delicada caridade fraterna! Por isso, enquanto não procurarmos, com todas as forças (é uma guerra contínua contra nós mesmas), atalhar este espontâneo pendor para as preeminências, não chegaremos nunca a aproveitar o verdadeiro fruto da oração: a plena intimidade com Deus. Enquanto não combatermos o desejo de pôr em evidência o nosso valor, não chegaremos nunca ao desprendimento total que nos levará à total união com Deus. Se falta o desprendimento, ainda que haja muitos anos de meditação, não se alcançará a união com Deus.
Mortificar os desejos de ser mais, de preeminências, lutar generosamente e com energia contra eles, é um excelente exercício de humildade.
Como nos amamos muito e o nosso amor-próprio espera que os outros nos tenham em consideração, há que reagir contra isto interior e exteriormente. Interiormente, ver quanto não correspondemos às graças de Deus, que o lugar que merecemos é realmente o último; considerar quanto o Senhor se humilhou por nosso amor. Exteriormente, procurar esforçarmo-nos por vencer a nossa vontade própria, praticando aquilo que nos repugna ou custa e assim passarão as tentações de querer ser alguma coisa, dos “pontos de honra”.
S. Teresa diz: “Direis que se trata de sentimentos naturais e que não se deve fazer caso deles”; sim, trata-se, sem dúvida de sentimentos naturais, mesmo demasiado naturais, que estão em completa oposição com a vida sobrenatural, e por isso é preciso fazer muito caso deles e dar-lhes combate.
Em conclusão, o que S. Teresa deseja é que trabalhemos com toda a energia na destruição do nosso amor-próprio, da nossa vontade própria, o mesmo é dizer, que devemos perder a preocupação de nós mesmas, não nos ocuparmos das nossas satisfações. Como ela diz: “Aprendamos a contradizer em tudo a nossa vontade própria, porque, embora pareça que não se chega tão depressa, se procederdes, como já disse, com solicitude e oração, haveis de pouco a pouco, e sem saber como, encontra-vos no cume” (C 12, 1-3). Para isso é necessário estar dispostas a empenhar a nossa vontade em abraçar tudo o que de penoso se apresenta na nossa vida e que não depende de nós. É a forma de combater o nosso grande amor-próprio e evitar que se intrometam no nosso espírito e no nosso pensamento as preeminências, primazias, ou seja, os “negros pontos de honra”.
Esta lição teresiana não está de modo algum ultrapassada, envelhecida. Olhemos para nós e vejamos quão enredadas andamos, e tão empenhadas em defender a própria máscara, julgando salvar e promover a “personagenzinha” que pensamos ser e que nos expõe à mentira e à cadeia escravizante de que nos fala S. Teresa.
Ela incluiu este tema na virtude da humildade; por isso convida a pôr os olhos em Cristo: “As grandezas que Ele nos fez em se abaixar a Si para nos deixar exemplo de humildade” (C 12, 6).
Video
Ficheiro
2011-09-22
