Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XIII
É um capítulo de páginas densas. Teresa procura fugir das “razões do mundo” e ir à procura da “verdadeira razão”. É pela “verdadeira razão” que Teresa pretende diferenciar e definir o estilo de vida que ela sonhou para as suas Irmãs.
Poderíamos dizer que procurar a “verdadeira razão” é praticar a renúncia aos nossos pequenos direitos. Diz ela logo no início deste capítulo: “Prossegue na mesma matéria da mortificação e como se há-de fugir dos pontos de honra e das razões do mundo para chegar à verdadeira razão. Muitas vezes vo-lo digo, irmãs, e agora quero-o deixar aqui escrito, para que não vos esqueçais de que, nesta casa, e até mesmo toda a pessoa que quiser ser perfeita, fuja a mil léguas de: «tive razão», «fizeram-mo sem razão», «não teve razão quem isto fez comigo»... (C 13, Título e n.1).
S. Teresa aponta como uma imperfeição grave formular semelhantes juízos e comunicá-los a outras Irmãs na Comunidade. Nem devemos dizer tais coisas, nem sequer também pensá-las. Estas razões, estes reflexos que afloram quando nos sentimos um pouco ofendidas ou feridas, aparecem designadas de “más razões”. Não que sejam más em si mesmas, mas só na medida em que nos detemos nelas e vamos atrás delas.
Ao fazer este comentário, Teresa tem em mente o panorama da convivência comunitária: procuramos não perder pontos diante das outras; procuramos reivindicar os próprios direitos, não ceder mas nossas razões”. E diz S. Teresa que a raiz destas razões e sem razões está só nisto: “a grande mentira em que vivemos todos”, empenhados em acumular pedestais para fazer elevar o próprio eu. Daí a sua reacção: fora com essa folharada de razões! Onde está a verdadeira razão? Necessidade premente de “andar em verdade” e descoberta paradoxal da verdade da cruz: “Parece que haveria razão para que o nosso bom Jesus sofresse tantas injúrias e Lhas fizessem, e tantas injustiças?” (C 13, 1). Por isso diz ela terminantemente: “A que não quiser carregar a cruz, senão a que lhe derem muito assente em razão, não sei para que está no convento” (C 13, 1).
Motivos para não se deter em más razões
Um dos motivos porque não nos devemos deter em más razões é a de que não é possível, em nenhum modo de convivência humana, que as pessoas sejam tratadas com perfeita justiça. Há sempre uma necessidade de ceder uma parte dos próprios direitos. Os direitos existem, temo-los realmente, mas os outros também os têm. Não é possível que tenhamos totalmente presentes os direitos do outros. Isso não é possível; só se tivéssemos uma inteligência superior. Além disso, cada uma de nós tem um mundo interior que não é conhecido das outras. Elas só o vislumbram por escassas manifestações exteriores e, por isso, não conhecerão muitos dos nossos direitos, as nossas necessidades ou razões do nosso procedimento. Por isso, como não podemos conhecer tudo, nem ter presentes todas as coisas, acabamos, pela nossa maneira de agir, que sejam um pouco lesados os direitos das outras e se sintam ofendidas. Também nós, portanto, daremos sem o querermos, pequenos desgostos às Irmãs que vivem connosco, faltando-nos toda a delicadeza exigida pelas suas necessidades ou pelas circunstâncias em que se encontram. Seria, ridículo que não nos déssemos conta das nossas limitações quanto ao conhecimento dos direitos das outras Irmãs. E assim se não conseguimos ser bem sucedidas em relação às outras, também não nos deveríamos admirar quando as outras não têm em consideração os nossos direitos. Esta é a realidade em que vivemos e não se pode mudar. É preciso então sobrevoar estas pequenas coisas. Não se trata de não ter direitos, mas de não os exigir, nem fazer valer.
Outras vezes dar-nos-emos conta que mesmo agindo com boa intenção, as outras Irmãs como não vêem o que ditou o meu agir, não conhecem a causa de onde procede, lerão em sentido totalmente contrário e até negativo, uma boa acção nossa, feita com a melhor intenção. Também aqui não nos devemos deter, nem menos dizer: “Eu tinha razão, foram injustas comigo”. Não. Há que combater logo estas ideias. Quem se entrincheira para defender todos os seus direitos, acaba por ofender as outras e acaba mesmo por perdê-los todos. Que solução, então? S. Teresa vai dá-la já de seguida:
Ou somos esposas de tão grande Rei, ou não
Aparece então o inesperado. A “verdadeira razão” para adoptar uma postura nova ante razões e sem razões, e para poder fundar uma nova tabela de valores e uma nova convivência comunitária está nisto: “Somos esposas” do Rei crucificado.
O ancorar-se nesta suprema razão cristológica é o passo decisivo para viver de outra forma na comunidade. Trata-se da radical relação entre a cruz e o amor. Se somos esposas de Jesus, como podemos viver sem partilhar o seu estilo de viver, de calar e fazer nossas, as suas razões? Se o esposo é um crucificado, será possível esquivar-se à cruz? Esta é a palavra-chave que Teresa põe neste capítulo: a mortificação. Não tanto a mortificação que consiste em penitências e jejuns, mas algo muito mais profundo: escolher a cruz ou o eu.
Claro que podemos sempre falar com a Madre e haverá situações em que será necessário e de dever fazê-lo, mas não nos esqueçamos que, devemos estar muito atentas e vigilantes nisto, porque muitas vezes, o que andamos à procura – mesmo sob a capa de bem - é buscar razões, ter razão, para não ver decair o nosso eu e não querer abraçar a cruz, unindo-se, de verdade, a Cristo crucificado! Haverá situações que a melhor e mais perfeita atitude e solução - e se não mesmo a única – será o abraçar a Cruz que se lhe dá, mesmo humanamente, não lhe cair lá muito em razão…
S. Teresa, umas linhas mais à frente vai fazer do estilo de vida da sua comunidade, estilo de ermitãs. E que significa para ela ser ermitã? Ser ermitã é “desapegar-se de todo o criado” (C 13, 6).
Não é o desenraizar-se do habitat urbano ou fugir de um lugar físico para outro, mas a purificação dos afectos e sentimentos possessivos que a Santa condensou nesta palavra desapego: “desapegar-se de tudo para darmo-nos ao Todo”. Ter campo e ermidas para rezar é só o marco exterior da vida eremita. O que interessa é ter eremita o coração.
Como consequência de tudo o já dito, aparece a grande e sábia bem-aventurança de S. Teresa:
A bem-aventurança do eremita
Entendido assim o estilo eremita, S. Teresa vai propor a sua bem-aventurança, formulando-a assim: “Aquela a quem lhe parecer que entre todas é tida em menos, considere-se a mais feliz” (C 13, 3). Teresa aponta aqui dois modelos a seguir:
Jesus - que e a “verdadeira sabedoria” como ela Lhe chama, aludindo ao dito evangélico: “Quando fores convidado para um banquete, vai sentar-te no último lugar” ou ainda “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” e “O maior entre vós faça-se escravo”.
Maria - Como canta no Seu Magnificat, o Senhor derruba os poderosos do seu trono e eleva os humildes. Diz a Santa: “Pareçamo-nos, filhas minhas, nalguma coisa com a grande humildade da Virgem Sacratíssima, cujo hábito trazemos, pois é confusão chamarmo-nos freiras suas; que, por muito que nos pareça que nos humilhamos, ficamos bem longe de ser filhas de tal Mãe e esposas de tal Esposo” (C 13, 3).
Algumas retractações
Sabemos que o livro do Caminho foi corrigido duas e mesmos três vezes, nalgumas passagens. Um capítulo que foi alvo também de tratamento especial foi este capítulo 13. S. Teresa é muito livre e espontânea a escrever e, por vezes, ao voltar ao texto, retoca-o, suaviza-o, baixa um pouco o tom. O capítulo 13 é um deles. A Santa Madre está a cinzelar um estilo de vida evangélica para o grupo, um estilo bem definido, radical. Teresa sabe que há muito tipo de pessoas que se abeira dos conventos e que vem para se remediar. Por isso, sabendo ela disto, se mostra tão exigente com as candidatas: “(…) umas condições de quererem ser estimadas e queridas, e olhar as faltas alheias e nunca conhecer as suas, e outras coisas semelhantes…” (1ª redacção). Como leremos já em seguida, diz ela que deixá-las passar, é “deixar que o ladrão entre em casa e lhes roube o tesouro”. Teresa escreve dois longos parágrafos para clamar contra este disparate de as aceitar (as candidatas) e exigir uma longa provação: não um ano, mas quatro, ou até dez… até discernir. Na segunda redacção, ela ameniza o tom e resigna-se a suavizar o que escreveu.
No entanto, deixo aqui, pelo interesse que tem, e como mostra bem o pensamento da Santa Madre, o texto da 1ª redacção muito mais extenso e muito mais forte: «Oh! que grandíssima caridade faria e que grande serviço a Deus a monja que visse não poder levar as perfeições e costumes desta casa, conhecer-se e sair deixando as outras em paz...! E mesmo em todos os mosteiros (pelo menos se acreditam em mim) não a terão nem darão a profissão até que seja provada em muitos anos a ver se se corrige. – Não achamos faltas na penitência e jejuns porque, ainda que o sejam, não são coisas que fazem tanto dano. Mas umas condições de quererem ser estimadas e queridas, e olhar as faltas alheias e nunca conhecer as suas, e outras coisas semelhantes que verdadeiramente nascem da pouca humildade; se Deus não favorece com dar-lhe grande espírito, até depois de muitos anos a ver emendada, Deus vos livre que ela fique na vossa companhia. Sabei que nem ela sossegará nem deixará sossegar todas as outras. Como não recebeis dote, Deus faz-vos mercê para isto que é o que mais lamento nos mosteiros: que muitas vezes, por não restituir o dinheiro, deixam que o ladrão lhes roube o tesouro ou pela honra dos seus parentes. Nesta casa já perdestes a honra do mundo, porque os pobres não são honrados e não queirais à vossa custa que o sejam os outros. A nossa honra, irmãs, tem que ser servir a Deus. Quem pensar que isto vos há-de estorvar, fique na sua casa com a sua honra; foi para isto que os nossos padres ordenaram a provação de um ano e na nossa Ordem não se dê em quatro, pois para isso existe a liberdade. Aqui quereria eu que nem se desse em dez. À monja humilde pouco lhe interessa ser professa; já sabe que, sendo boa, não a mandarão embora; se não, para que quer prejudicar este colégio de Cristo? E não chamo o não ser boa coisa de vaidade porque, com o favor de Deus, julgo estará longe desta casa; chamo não ser boa o não ser mortificada, mas o apego às coisas do mundo e de si mesma nestas coisas que disse. E a que não vir em si muito disto acredite ela mesma e não professe se não quiser ter aqui um inferno e, praza a Deus, outro no além, porque há muitos motivos nela para isso; e, porventura, nem as da casa o compreenderão, nem ela mesma, como eu o tenho compreendido».
Por isso temos aqui duas leituras possíveis do capítulo: a da primeira redacção mais espontânea, sem freios, pois escrita no momento da inspiração; e a segunda redacção, com os retoques e cortes por ela introduzidos.
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Ficheiro
2011-09-22
