Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XIV
S. Teresa prossegue neste capítulo o tema das vocações ao Carmelo: que na vida religiosa ou no Carmelo entre apenas gente vocacionada. Se, por acaso, passaram o umbral pessoas sem vocação, que se vão embora. Que não se admita gente levada pela desventura da vida.
No capítulo anterior, Teresa convidava a estas tais a ir embora; neste é ainda mais dura: “despeçam-nas”. É peremptória: que isto se faça sem deter-se em “afeição e paixão”, “piedades falsas” e pontos néscios” (1ª redacção).
Quando Teresa escreve estas páginas tem já grande experiência de vida religiosa (trinta longos anos). Possui uma visão panorâmica da vida religiosa feminina de então. Agora vai focar um aspecto delicado: o tipo de pessoas que entrava nos mosteiros femininos, quase sempre sobrelotados e com escassas possibilidades selectivas das vocações; estas entravam, por inércia e negligência da vida religiosa e também, em parte, por pressão e imposição da sociedade.
Ávila estava despovoada de homens jovens, pois muitos tinham-se posto a caminho do mar, em direcção às Índias, África e Itália. Por isso se imagina quantas jovens acabavam por ficar sem casar e, assim, se enchiam os mosteiros…
Outro problema era o do dote. Como os mosteiros eram pobres, logo depois da Profissão, o dote era rapidamente consumido e a situação da monja ficava irreversível. Num primeiro momento, Teresa desejou acabar com os dotes, mas ela vai ainda mais longe e di-lo com todas as letras: “Entenda por uma vez o mundo que tendes liberdade para as despedir” (C 14, 2).
Contudo, esta liberdade e autonomia da vida religiosa face ao mundo não teria sentido sem o complemento positivo do discernimento vocacional por parte da interessada e da comunidade. É para isso que se encaminha o resto do capítulo.
O discernimento e o bom entendimento
Logo a partir do título do capítulo S. Teresa define o que caracteriza o grupo: “o espírito de quem entra” e “as coisas já ditas”. Na prática, confrontar o espírito de cada pessoa com o espírito da comunidade. “Para isso – e vai dizê-lo em seguida – é mister sérias informações para as receber e muita provação para as deixar professar” (C 14, 2).
Além do espírito de quem bate à porta da vida religiosa e a intenção que a move (que não seja só para remediar-se), Teresa fixa a atenção numa qualidade chave para o discernimento da candidata: que tenha “um bom entendimento”: “que seja pessoa de bom entendimento, que se não, de forma nenhuma se admita”.
O que é ter um bom entendimento? Não é, de modo nenhum, elevado quociente intelectual, ou grande capacidade filosófica, matemática ou económica. É uma outra forma de entendimento: “entendimento para muito bem”:
- capacidade para apegar-se ao bem com fortaleza
- que aproveita para bom conselho e outras coisas mais
- que nunca é molesto para os outros
- que é apto para “tratar com Deus”
- que requer capacidade para adaptar-se ao regime de alimentação espiritual (Bíblia, liturgia, oração, formação espiritual)
Ao contrário, aquelas que não têm bom entendimento, S. Teresa não sabe para que possam servir numa comunidade contemplativa como a sua. Pois ela diz que este mal – o não ter bom entendimento – é um “mal incurável”.
Que fim tem todo esse elogio do bom entendimento, no tema nevrálgico do discernimento de vocações?
1- Sem o bom entendimento, como discernir bem?
2- O bom entendimento é indispensável para corrigir as motivações do vocacionado. Se alguém se aproximou da vida religiosa com motivações que em si são boas, mas não são as essenciais, o bom entendimento permitirá descobrir o ideal, e aderir a ele com fortaleza. A própria S. Teresa, contando o seu percurso vocacional, recorda que as suas motivações iniciais não estavam no cume da cordilheira. As motivações autênticas, descobriu-as depois, graças ao seu bom entendimento, e assim se salvou.
Neste capítulo, o importante, é a clara tomada de posição de S. Teresa no aspecto do discernimento das vocações, face aos factos e “tempos desventurados” que se viviam na vida religiosa de então. Continua muito actual nos dias de hoje.
Video
Ficheiro
2011-09-22
