Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XV
O pano de fundo deste capítulo do Caminho é a experiência do Cristo calado da Paixão. O gesto e o rosto de Jesus em silêncio profundo, afloram constantemente na exposição (n. 1, 2, 4, 5, 6). E mesmo no final do capítulo, termina com uma pincelada final em que aparece um ladrão a tomar a palavra para defender Jesus, estando já Ele pregado na Cruz (C 15, 7).
É a partir desta experiência de Cristo calado e longamente contemplado por S. Teresa, que se deve ler o título do capítulo e todo o texto inteiro: “não desculpar-se, ainda que se vejam condenar sem culpa”. Assim o fez Ele.
A partir da sua experiência pessoal, Teresa pode formular no final do capítulo, a sua palavra de segurança total: “Isto o vi eu, e assim é”.
As duas experiências de fundo
Este capítulo tem por base duas experiências, como vamos ver:
Como já referimos, S. Teresa inicia o capítulo com estas palavras: “Trata do grande bem que há em não se desculpar, ainda que se vejam condenar sem culpa”. Este é um prato forte, demasiado forte para o leitor de hoje - esta lição de silêncio para o diálogo - quando se trata de culpas e desculpas.
1ª experiência: Teresa escreve esta página no final de 1566 ou princípios de 1567. Há mais ou menos um ano, tinha contado no Livro da Vida (cap. 36, 11-14), a sua experiência depois do facto consumado da fundação de S. José, em que é chamada diante do tribunal da sua antiga comunidade, da prioresa e do Provincial. Viveu, e assim o descreve na autobiografia, como se fosse o juízo de Jesus, durante a Sua Paixão. Viu que o que ela sofria era nada comparado com o juízo de Jesus.
Que diferença entre este estado de alma e aquele dos seus 21 anos, durante o seu noviciado, que vendo-se condenar sem culpa, o sofria com grande pena e imperfeição (V 5, 1)!
Teresa nesta experiência do tribunal da Encarnação, tem clara consciência que, ainda que a condenem sem culpa, bem vistas as coisas, nunca nos culpam sem culpas, pois “nunca estamos de todo sem culpa” (C 15, 4).
Teresa virá ainda a confidenciar-nos que lhe doem mais as verdades do que as falsidades: “Sempre me alegro mais que digam de mim o que não é, do que as verdades” (C 15, 3).
2ª experiência: é a que já referimos e constitui o pano de fundo de todo o capítulo: o Cristo calado da Paixão.
O coração da ascese teresiana
Esta prática de S. Teresa constitui um outro exercício de humildade que S. Teresa sugere para fomentar e favorecer o ambiente para a contemplação: o não desculpar-se. Isto exige regressar ao Evangelho para encontrar Cristo e aceitar o Seu programa, configurando-se com Ele.
Teresa quer entre as Irmãs a prática das “virtudes grandes” e estas não se identificam com penitências. Teresa prefere as virtudes interiores, que não tiram as forças do corpo…, mas que fortalecem as da alma” (C 15, 3).
Entres estas grandes virtudes encontra-se a aprendizagem do silêncio: a bem-aventurança dos perseguidos. Não tanto a perseguição violenta, mas a aceitação silenciosa quando os outros têm de nós baixo conceito e apreço: “desejar com verdade ser tido em pouco” (C 15, 2). É saber suportar os declarados fracassos no tribunal dos juízos humanos: “Que lucro pensamos tirar em contentar as criaturas? Que se nos dá de ser muito culpadas por todas elas, se diante do Senhor estamos sem culpa?” (C 15, 6)
Motivos para abraçar esta prática ensinada por S. Teresa:
- A humildade só se consegue por meio da humilhação. Por isso, S. Teresa considera um grande bem ser-se acusado (mesmo de coisas graves) e condenado injustamente.
- O não desculpar-se deriva do bom senso sobrenatural: às vezes acusam-nos de coisas não verdadeiras e assim nos vemos censuradas injustamente; mas tantas vezes cometemos erros sem que ninguém nos diga nada…
Convém tomar uma coisa pela outra, substituindo-a, e assim se faz uma espécie de compensação! Depois – e é também S. Teresa que o diz - vale mais vermo-nos acusadas de faltas que não cometemos, do que tê-las cometido realmente: “Ó Senhor meu! quando penso de quantas maneiras padecestes, e que de nenhuma o merecíeis, não sei o que diga de mim, nem onde tinha o siso quando não desejava padecer, nem onde estou quando me desculpo. Já Vós sabeis, meu Bem, que, se tenho algum bem, não é dado por outras mãos senão pelas Vossas. Pois, que se Vos dá, Senhor, em antes dar muito do que dar pouco? Se é por eu não o merecer, tão-pouco merecia as graças que me tendes feito. E será possível que haja eu de querer que alguém faça bom conceito de coisa tão má, tendo-se dito tanto mal de Vós, que sois o bem sobre todos os bens? Não, não se pode sofrer, Deus meu – nem quisera eu sofrêsseis Vós – que haja em Vossa serva coisa que não contente os Vossos olhos. Pois olhai, Senhor, que os meus estão cegos e se contentam com muito pouco. Dai-me Vós a luz e fazei que, com verdade, deseje que todos me aborreçam, pois tantas vezes Vos tenho deixado a Vós, que me amais com tanta fidelidade! Que é isto, meu Deus? Que lucro pensamos tirar em contentar as criaturas? Que se nos dá de ser muito culpadas por todas elas, se diante do Senhor estamos sem culpa? (C 15, 5-6).
Quem assim procede, verá vir em sua defesa o próprio Senhor como se lê no Evangelho a propósito de Marta e Maria.
Frutos espirituais desta prática da humildade:
- Um dos grandes frutos espirituais de assim proceder é alcançar a liberdade interior. Acolher em silêncio tudo isto, por amor à verdade. Só assim se chegará à verdadeira liberdade, colocando-se acima dos juízos humanos e não depender deles: “Porque se começa a ganhar liberdade e tanto se vos dará que digam mal ou bem de vós, antes parece ser negócio alheio. É como quando estão a falar duas pessoas e, como não é connosco, estamos descuidadas da resposta” (C 15, 7).
- Outro grande fruto espiritual é que, por esta liberdade interior, afastada a preocupação de que digam mal em vez de bem, é alcançar a solidão interior, muito mais importante que a solidão exterior. Só na solidão interior, a alma se encontra verdadeiramente só, diante de Deus, e preocupada em Lhe agradar somente a Ele. A pessoa que, não por desdém, mas pela virtude da caridade, aprende a suportar com gentileza que os outros não julguem bem as suas acções e continua serena e tranquila, adquire sempre mais solidão interior e cresce sempre mais na comunhão com o Senhor. Enquanto que aquela que atende ao que de si pensam e dizem os outros, facilmente cairá no desejo de fazer boa figura, fará tudo para não ser mal interpretada, para cativar a estima alheia, e é natural que se perturbe com as censuras e admoestações. Numa palavra, não tendo liberdade de espírito, também não terá solidão interior e assim, perderá o seu tempo em considerações descabidas. Quem sente a necessidade de só trabalhar para o Senhor, há-de esforçar-se por não se preocupar com juízos alheios. Sabe-se bem que isto não é fácil, como diz a própria Santa Madre, mas pode-se lá chegar: “Parecerá isto impossível aos que somos muito sensíveis e pouco mortificados. A princípio, é dificultoso; mas eu sei que se pode alcançar esta liberdade, negação e desprendimento de nós mesmos, com o favor do Senhor” (C 15, 7).
A pessoa deve aprender a suportar que os outros não a julguem bem, ao mesmo tempo que está convencida de ter procedido da melhor maneira; assim se ocupará com pureza em dar prazer ao Senhor. A verdadeira solidão, ensinada por S. Teresa, depende absolutamente desta liberdade de espírito e, por isso, insiste tanto nela S. Teresa.
Em suma, acolher tudo em silêncio “por Cristo”; é Ele o modelo desta prática da humildade: “Ó Senhor meu! quando penso de quantas maneiras padecestes, e que de nenhuma o merecíeis, não sei o que diga de mim, nem onde tinha o siso quando não desejava padecer, nem onde estou quando me desculpo”.
E assim termina S. Teresa a sua lição da humildade ao grupo das suas Irmãs.
Silêncio para o diálogo
“Calar” não é uma ordem absoluta. Seria até desumano. S. Teresa é uma mulher muito equilibrada e sensata, sem exageros. Ela recorda que há casos em que é necessário falar e desculpar-se, quando pudesse causar escândalo ou agravo, não dizer a verdade. Aqui o que deve regular o desculpar-se, é apenas a caridade para com o próximo, pois poderia haver casos em que o nosso silêncio se tornaria motivo de perturbação ou dano grave para o próximo. Neste caso há que falar, mas que se faça sempre com parcimónia e simplicidade.
Também aqui, como no caso de Jesus, o mistério do silêncio irmana-se com a dignidade da palavra.
Video
Ficheiro
2011-09-22
