Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XVI
Este capítulo é uma espécie de fecho da parte fundamental do “Caminho de Perfeição”. Resume aquilo que já se disse a propósito das virtudes, e serve também de ligação com os capítulos seguintes, os quais traçam o caminho para a contemplação.
Como veremos, neste capítulo aparecem três pontos que iremos desenvolver:
- Necessidade de virtudes para chegar à contemplação
- Excepções que o Senhor Se compraz em fazer
- O seu propósito de falar de contemplação.
É assim que este capítulo faz a transição para a parte seguinte do Caminho, a partir do cap. XVII.
S. Teresa começa este capítulo de uma forma estranha, falando de “entabular o jogo”, “mover as peças”, “Quem não sabe dar xeque, não saberá dar mate”. Aqui, joga-se a “dar xeque-mate a este Rei divino”.
Teresa passa da guerra sobre o tabuleiro de xadrez ao combate ascético do Carmelo, mais ou menos assim:
- O tabuleiro e o jogo são a vida
- Os jogadores, são ela e Deus.
- As peças e os movimentos, são as virtudes dela e a táctica secreta d’Ele
Aqui interessam sobretudo duas peças: do lado de Teresa, a dama; do lado do outro jogador, o rei. Na realidade, a dama é ela própria. O rei é Ele.
No entanto, na versão explícita da escritora, a dama (hoje dizemos “a rainha” do tabuleiro) é a humildade. E o rei de outra cor é o amor, como se verá mais à frente.
Mais que o cortejo das imagens, importa o objectivo do jogo: vencer, isto é, dar xeque-mate a Deus. Aparece isto como algo muito atrevido, à primeira vista. Mas o que sucede é que Deus só se deixa render quando a pessoa se rende a Ele. Isto é “humildade”. Dá-se-Lhe xeque-mate com a humildade. Foi assim que o fez a Virgem da Anunciação ou a Esposa do Cântico, que conseguiu cativar o amado com o mais frágil de si mesma, com um cabelo da sua cabeça: “A dama é a que mais guerra Lhe pode fazer neste jogo e todas as outras peças ajudam. Não há dama que assim O force a render-se como a humildade. Esta trouxe-o do Céu no seio da Virgem; e também por ela O traremos preso por um fio de cabelo às nossa almas.E crede: quem maior a tiver, mais O possuirá, e quem menos, menos” (C 16, 2).
Teresa convida a praticar bem a humildade, de que já falara nos capítulos anteriores e porque a exige assim, de uma forma tão intensa? Se se tratassse de chegar apenas a fazer meditação, certamente não seria necessário tudo isto como base, porque a própria meditação nos deve ajudar a praticar a virtude e leva-nos a adquiri-la; mas como se trata de levar à contemplação as coisas mudam. Aqui vemos que o objectivo de S. Teresa é preparar a pessoa para a contemplação.
Diz a Santa Madre: “Digo que, se pedísseis meditação ainda pudera falar-vos dela e aconselhar a todos que a tivessem, ainda mesmo que não tenham virtudes; porque é princípio para alcançar todas as virtudes e coisa em que o começá-la nos vai a vida, a todos nós os cristãos, e nenhum, por perdido que esteja, se Deus o desperta para tão grande bem, havia de a deixar, como já escrevi noutro lugar, e outros muitos o têm feito, pois sabem o que escrevem; eu, por certo, não sei. Deus bem o sabe.
Mas contemplação é outra coisa, filhas, que este é o engano que todos temos, pois, em chegando alguém a pensar uns momentos cada dia em seus pecados (a isso está obrigado, se é cristão mais que de nome), dizem que é muito contemplativo; e logo o querem com tão grandes virtudes, como está obrigado a tê-las o muito contemplativo, e até ele assim o quer, mas está errado. Nos princípios não soube entabular o jogo; pensou que bastava conhecer as peças para dar mate, e é impossível, pois este Rei não se dá, senão a quem se dá de todo a Ele” (C 16, 3).
Depois de explicar esta jogada da humildade, terá de explicar uma ainda mais difícil, a do amor: como é que o rei se rende por amor à dama da humildade. Mas aqui surge a surpresa: antes de passar a este segundo tema, Teresa destrói o escrito e arranca do seu caderno todas essas páginas. (Estas páginas serão incorporadas mais tarde nas edições posteriores do Caminho e constituem os primeiros 4 números do cap. XVI). É aqui que irá falar das excepções que o Senhor Se compraz em fazer.
Porque destruiu estas páginas?
Pensa-se que por dois motivos:
- Que o censor do caderno, teólogo sisudo, não achasse correcto falar de jogos num livro espiritual. O jogo de xadrez era considerado nesta época absolutamente inconciliável com a vocação religiosa.
- Mas o motivo mais verosímil parece ser outro, mais profundo: logo desde a primeira exposição da imagem guerreira do jogo, Teresa tinha insistido na função da dama. Deus não se rende senão a quem se aproxima d’Ele com humildade profunda, isto é, não Se dá, senão a quem, juntamente com a humildade, pratica outras “virtudes grandes”, amor, desapego de todo o criado, mortificação. Insistia em que Deus não Se entrega, nem dá contemplação perfeita, nem a experiência do Seu amor, a quem vive “em mau estado”, a quem anda submergido nas coisas da terra: Ele não Se vai manchar dando-se a quem anda no charco dos vícios.
Mas eis que todo este esquema doutrinal vem abaixo.
Realmente o homem não deve incorrer no absurdo de pretender a experiência de Deus (a contemplação perfeita) e, por sua vez, viver à vontade nas antípodas da humildade e das virtudes. Mas, não seria também igualmente absurdo condicionar Deus no Seu amor e nos Seus dons? Não é verdade que Ele “ama a todos e não faz acepção de pessoas”? (V 27, 11). E que os Seus dons são absolutamente gratuitos? Por acaso Jesus no Evangelho negou-Se aos maus, às ovelhas perdidas, a Mateus, a Maria, a Paulo…?
Na verdade S. Teresa viu com clareza que a relação entre a nossa humildade e o amor d’Ele ia por outro caminho. Não era tão simples como o xeque-mate da dama no jogo de xadrez.
O novo ajuste doutrinal
O avanço do pensamento da autora vai consistir nisto: não modifica a sua posição sobre a importância da humildade e das virtudes na vida de oração, mas vai dilatar o espaço e as possibilidades do amor, sobretudo do amor de Deus.
Vejamos este avanço passo a passo.
No rascunho do livro (cap. 24 do códice do Escorial) tinha ela escrito categoricamente: é coisa que “não leva caminho, deleitar-se com a alma suja a limpeza dos céus, e o regalo dos anjos regalar-se com coisa que não seja sua”. Acrescentando a seguir, não sem certa dureza: “Pois já sabemos que, em pecando alguém mortalmente é do demónio: com ele se pode regalar…; que não faltarão ao meu Senhor filhos Seus com quem folgue”. Daí a sua afirmação rotunda: que Deus ponha algum destes em contemplação, “não o posso crer”.
Ao rever o manuscrito, a Santa retoca-o, pois não poriam estas suas afirmações limites humanos ao Amor, à Misericórdia e Magnificência de Deus? Ela terá dialogado com teólogos sobre este tema e ela própria terá chegado à conclusão de que também as “ovelhas perdidas” eram de Deus (não do demónio), e que o Amor do Senhor tem saídas e decisões humanamente inimagináveis e imprevisíveis. O caso de Paulo e Madalena fizeram-na reflectir.
Neste tema tão interessante ponha-se a questão da postura de Deus face à miséria do homem: será Deus tacanho com quem lhe voltou as costas? S. Teresa tinha vivido todo este problema na sua própria carne. Vejamos este aspecto…
Vivido e sofrido pela própria S. Teresa
A S. Teresa aconteceu-lhe como S. Paulo: em pleno caminho da vida, encontrou-se com Cristo Jesus e teve d’Ele uma experiência indizível, impossível de abarcar, transformadora do seu ser.
Aquele facto foi um presente de Deus, totalmente desproporcionado à preparação ascética e espiritual de Teresa. Transbordava para lá dos seus cálculos e expectativas, para lá da humildade, das virtudes, dos méritos. Ela própria se mostra atónita, admirada: “Que façais semelhantes graças a uma como eu…!”.
De tal forma foi assim que os seus conselheiros teólogos a fizeram pagar caro, pois não eram capazes de compreender, nem admitir que a uma como ela se lhe concedessem experiências cristológicas como a S. Paulo e a S. Jerónimo (V 38, 1).
Teresa terá que passar por medos e angústias de consciência, antes de se fazer luz sobre o seu caso e vivê-lo serenamente.
Finalmente chegará à conclusão de que os dons de Deus são de uma gratuidade sem condições, que o Seu amor é louco, que, em última instância, Ele é a liberdade pura. E quando o homem pergunta “porque reparte assim o Senhor os Seus dons…”, Teresa tem já uma resposta drástica: “Porque quer e como quer”. “E ainda que não haja na alma disposição, dispõe-na Ele para receber o bem que Sua Majestade lhe dá” (V 21, 9)
Anos mais tarde compreenderá ela que quando Deus outorga o seu amor a um pobre, surpreendido por Ele em “mau estado”, o próprio Deus lhe muda as voltas. Passa-o da noite para o dia. Porque, isto sim, Deus não concede a graça da “união”, a experiência do seu amor, senão redimindo a pessoa do abismo do pecado: Eis aqui uma maravilhosa passagem da Santa: “Sobre dar-me a entender o que é união: «Não penses filha, que a união é estar muito junto de Mim, porque também estão os que Me ofendem, embora não queiram. Nem são os regalos e gostos de oração, ainda que em subido grau; conquanto sejam Meus, são meios, muitas vezes, para ganhar as almas, mesmo que não estejam em graça». (…) Entendi que união era este espírito limpo e levantado de todas as coisas da terra, não ficando coisa dele que queira apartar-se da vontade de Deus; mas que de tal maneira seja um espírito e uma vontade conforme com a d’Ele e, num desapego de tudo, empregados em Deus, que não haja memória de amor a si mesmo, nem a nenhuma coisa criada. (…) E parece-me a mim que, se é união estar a nossa vontade e espírito tão feito uma só coisa com o de Deus, não é possível tê-la quem não esteja em estado de graça, pois me tinham dito que sim. Assim me parece a mim…” (Relação 29).
S. Teresa, pela sua experiência compreende que, para a contemplação são necessárias as virtudes grandes em alto grau, mas confessa que: “Quero, pois, dizer, que algumas vezes quererá Deus, a pessoas que estão em mau estado, fazer-lhes tão grande favor para tirá-las, por este meio, das mãos do demónio” (C 16, 2). Mas como ela diz, Deus pode pô-la “em contemplação algumas vezes, poucas, e dura pouco”. Ela reconhece esta forma de Deus actuar, ou seja, quem não está na graça de Deus pode ser favorecido, por exemplo, com uma visão, pode receber uma graça “gratis data”, mas não a contemplação, que é fruto do desenvolvimento da graça na alma. Esta graça (gratis data) seria, segundo o P. João de Jesus Maria, uma graça de conversão, por exemplo, como se pensa sobre o caso de S. Paulo. Este mau estado de que fala a Santa terá sobretudo a ver com um estado de tibieza ou pouco fervor. Teresa quer, com tudo isto, assinalar a fidelidade de Deus. Ao dar-Se assim, a uma alma em “mau estado”, isto é, sem a pessoa estar preparada, Deus quer provocar a pessoa e estimulá-la para que se disponha. É um meio para granjeá-la para Si (C 16, 4). S. Teresa diz que Deus faz isto “a muitos”, mas “poucos” respondem. Quando há resposta “nunca cessa de dar até chegar a muito alto grau” (C 16, 5), pois Deus ajuda os fortes, isto é, os animosos, e não faz acepção de pessoas (C 16, 8). Diz ela: “Tenho para mim que há muitos a quem Deus Nosso Senhor faz essa prova e poucos os que se dispõem para gozar desta mercê. Pois, quando O Senhor a faz e nós não faltamos, tenho por certo que nunca cessa de dar até chegar a muito alto grau. Quando não nos damos a Sua Majestade com a determinação com que Ele se dá a nós, muito faz em nos deixar em oração mental e de nos visitar, de quando em quando, como criados que trabalham em Sua vinha. Mas estoutros são filhos queridos, não os quereria afastar de ao pé de Si; nem os afasta, porque já eles não se querem afastar; senta-os à Sua mesa, dá-lhes do mesmo que come, até tirar o bocado da boca para lho dar” (C 16,9).
Poderíamos dizer que Deus Se adianta, não sofre a espera, persegue amorosamente. É de notar o matiz teresiano: fá-lo “a muitos” e fá-lo para “forçar” o homem a voltar-Se para Ele, para que se converta e possa receber mais. É Deus que tem sempre a iniciativa. Daqui deriva imediatamente a “disposição” e resposta que nos é pedida para chegar a gozar da intimidade de Deus: “dar-nos a sua Majestade com a determinação que Ele Se dá a nós”.
Teresa inculca a “presunção” e “santa ousadia” para chegar ao cume e a qualquer preço. À luz do que faz Deus por nós, aquilo que façamos não passará de uma “determinaçãozinha”, “tanto como nada”.
Além disso é uma resposta que podemos dar, porque Ele “nos faz poder” (C 16, 6). Deus capacita-nos para a doação generosa da nossa vontade, com a Sua doação prévia, ao dar-nos favores “extraordinários” como trata neste capítulo, ou a graça para a vida ordinária. Deus precede-nos sempre. Receber uma graça destas, pede-nos, então resposta generosa, fidelidade ao aor tão grande que o Senhor nos manifesta. Mas se não respondemos ao dom do Seu amor, atamos-Lhe as mãos, não O deixando dar como Ele tão ardentemente deseja!
Muitas vezes, o Senhor quer apenas o esforço, e não a vitória, que virá a seu tempo; entretanto, sem de modo algum nos preocuparmos com o tempo, devemos sempre esforçarmo-nos e deixar Deus agir quando quiser e como quiser. Isto é praticar a humildade.
Termina este capítulo dizendo que vai ensinar o que entende, então, por oração mental e contemplação: “quero voltar ao que dizia, que é declarar o que é oração mental e contemplação”.
Em resumo
Teresa neste capítulo quis inculcar-nos duas ou três coisas:
- Primeira: sem humildade profunda e virtudes práticas na vida, não tenhamos ilusões, não entabulamos o jogo da oração. E muito menos o da contemplação.
- Segunda: mas quando este misterioso xadrez da vida se joga com Deus, convençamo-nos que a Ele não Lhe damos xeque-mate, mesmo que tenhamos concertado todas as peças. É Ele quem Se dá por amor, pois o Seu amor é imprevisível, é loucamente generoso: “Nunca cessa de dar” (C 16, 9).
- Terceira: Teresa repete mais uma vez o seu refrão: “Não Se dá este Rei senão a quem de todo Se Lhe dá” (C 16, 4).
Video
Ficheiro
2011-09-22
