Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XVII
Este capítulo do Caminho aparece como paradoxal… Esperava-se que, depois do capítulo anterior, se tivesse quase como certo entrada fácil na terra da contemplação. S. Teresa tinha acabado de dizer que era muito possível Deus conceder o dom da contemplação a um pobre de alma, a alguém que estivesse em “mau estado” como o caso da Madalena ou um S. Paulo… Como não vai então dar este dom às leitoras do Caminho, profissionais da vida contemplativa, que “não estão aqui para outra coisa que a oração”?
S. Teresa é muito clara: sim, é possível que Deus conceda o dom da contemplação a alguém em “mau estado”, mas que fique bem clara uma coisa: nem todos os que praticam a oração “são para chegar à contemplação” (tema do novo capítulo).
Assim trata no título do capítulo: “de como nem todas as almas são para a contemplação, e como algumas chegam tarde…”. Depois na exposição do tema ao longo do capítulo, diz: “é coisa que importa muito entender que Deus não leva a todos por um só caminho… Assim, nem porque nesta casa todas tratem de oração, hão-de ser todas contemplativas. É impossível” (C 17, 2). S. Teresa afirma isto rotundamente.
Ao deixar aqui as coisas tão claras, decide-se a enfrentar este problema que, nem para ela, é fácil de resolver. Vamos ver.
O problema da contemplação para todos
Os que se exercitam na oração chegam normalmente a ser contemplativos? Quando e como?
Para S. Teresa e, a partir da sua experiência, contemplação é experiência de Deus, de Cristo, dos Seus mistérios, da gozosa relação de graça que existe entre Ele e ela. Experiência gozosa, saborosa, dolorosa…
Como chegar a ser contemplativos? Como internarmo-nos nessa contemplação que é experiência de Deus e do Seu Mistério em Cristo? Porque é que Deus não Se dá de todo, sem dilações nem demoras, a quem se converte a Ele e a Ele se entrega? Um dia em que S. Teresa ponha este problema ao Senhor, Ele respondeu-lhe: “Serve-me tu a Mim, e não te metas nisso…”.
S. Teresa sabe que Deus não faz acepção de pessoas… Ela que resistiu tenazmente durante anos ao Senhor, vê-se cumulada de uma experiência de oração muito superior a outros que tinham muito mais anos de vida de oração do que ela…
S. Teresa põe aqui várias questões. Corresponde o Senhor ao amor do orante? É normal a quem é muito Seu servo no amor que se negue a experiência gozosa do Seu Amor, da Sua Pessoa, da Sua misteriosa presença? Ou atrasa-se-lhe essa experiência por trinta, e por quarenta e sete anos? Ou toda uma vida, como a sua amiga Maridíaz?
A solução do problema na dinâmica do amor
A chave da solução já tinha sido dada no Livro da Vida e que já citámos: “Tu, Teresa serve-Me a Mim e não te metas nisso”! Praticamente será isto que ela repetirá às suas leitoras do Caminho: “Se depois de muitos anos, quiser a cada uma para seu ofício” – a umas para a contemplação e a outras para o serviço e a cruz – pois os “juízos são Seus”, não há por que meter-se neles.
Teresa quer levar-nos a um puro respeito pelo mistério do amor. A chegada à experiência de Deus (contemplação) não é prémio dos nossos méritos, nem resultado de esforços humanos, nem efeito de técnicas e cálculos, nem promoção por anos e serviços. É puro dom. É puro amor. É dom absolutamente gratuito. Teresa não se atreve a dizer que seja melhor a via da contemplação, pois entra em alternativa a outra forma do Seu amor, a que vai vinculada à cruz e ao serviço.
A partir do que já disse, apresenta dois modelos evangélicos, duas amigas de Jesus, as irmãs de Betânia: uma contemplando-O, outra servindo-O. S. Teresa argumenta: se Ele nos quiser para que O sirvamos, Lhe preparemos o alojamento, “dar-Lhe de comer e servi-Lo, e comer à sua mesa…”, não nos introduz na espiral do seu amor como aquela que está a contemplar?
Ao mesmo tempo, S. Teresa sabe que além desta absoluta liberdade e gratuidade do amor, encontram-se também certos aspectos da nossa psicologia: “Há pensamentos tão ligeiros, que não podem estar numa coisa, mas sempre desassossegados” ou como ela diz: “não são para contemplação”. Mesmo apesar disto, Teresa sabe que há que deixar livre o Senhor, pois mesmo a estes pode suceder, pelo que ela constatou ao longo da sua vida e experiência, dar o dom da contemplação.
Apesar de hoje – e mesmo no tempo da Santa – haver técnicas para ajudar a concentração, para fazer sossegar o entendimento, servir-se de técnicas orientais, etc, S. Teresa adoptou uma posição radical, claramente cristã: nenhum esforço humano, nem ioga, nem esforço quietista vale para alcançar a contemplação cristã. A experiência de Deus é puro dom do Seu amor, sem quaisquer condicionalismos humanos até ao ponto extremo de oferecê-la a Paulo (cap. 16), e poder negá-la ao longo de toda a vida a certos extraordinários velhos amigos, para dá-la “por junto” na outra vida.
Diante deste mistério do amor d’Ele, Teresa repete ao orante que a nossa tarefa é dispormo-nos: na oração, no amor, na vida. E entre todas as disposições há uma de primeira ordem: a humildade; a dama do tabuleiro de xadrez que volta aqui a desempenhar um papel decisivo.
Humildade diante do Amor para chegar à contemplação
S. Teresa tinha reservado o primado à humildade no trio das virtudes fortes do Caminho: amor, desapego, humildade, “que embora a diga no fim é a principal e as abraça a todas” (C 4, 4).
Teresa não esqueceu aquilo que disse e agora retoma o tema, dizendo “que importa muito” o quanto a humildade “é necessária nesta casa”. Teresa diz que para todas as pessoas que se exercitam oração, é de suma importância o exercício da humildade.
E porquê?
Porque a humildade determina a postura de espírito que coloca o orante na verdade, isto é, na verdade de si mesmo e da sua vida, e na das relações com Deus. Humildade é andar em verdade” (M VI 10, 7) e “Deus é a própria verdade”, enquanto que o homem é mentiroso. Quanto custa ao orante despojar-se das máscaras e disfarces de mentira com que enroupou essa personagenzinha que pretende ser diante dos outros e de Deus!
Só a partir da verdade, conhecida e reconhecida, o homem pode adoptar a atitude de disponibilidade absoluta, em profunda abertura de receptividade ante Deus, decidido a dar e a dar-se, porque a contemplação vai consistir em receber, não em fazer; mais em escutar do que em discorrer e falar; em fazer a experiência do dom de Deus…
Nesta chave vai definir Teresa a função da humildade: “Olhem que a verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronto em se contentar com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós, achando-nos sempre indignos de nos chamarmos Seus servos” (C 17, 6).
S. Teresa quer assim as suas filhas: totalmente disponíveis, sem condicionamentos diante de Deus, sem se porem no Seu lugar, sem alegarem direitos face ao mistério do Seu amor ou no momento de Ele fazer os Seus dons, sem levar na carteira acções e títulos para apresentar-Lhe, porque… “isto é coisa que a dá Deus”.
O último paradoxo
O paradoxo de fundo de todo o capítulo, é que Teresa é uma contemplativa que dialoga com o seu pequeno grupo de leitoras contemplativas, mas a estas contemplativas fala-lhes do valor da não-contemplação: valor da acção, do serviço, do trabalho comum e vulgar. Mesmo dentro do grupo contemplativo de um Carmelo, S. Teresa recorda que “Deus não leva a todas por um caminho”.
E acrescenta ainda que pode o caminho do serviço fraterno ser mais alto que o da contemplação gozosa, pois “porventura, aquele a quem parecer que vai por um muito mais baixo, está mais alto aos olhos do Senhor”.
E para afirmar tudo isto vai servir-se dos modelos evangélicos de Marta e Maria, como já dissemos. E a quem se dirige S. Teresa, indo a favor dela, é a S. Marta, a laboriosa ama da casa de Betânia: “Santa era santa Marta, e não dizem que fosse contemplativa. Pois, que mais quereis do que chegar a ser como esta bem-aventurada, que mereceu ter a Cristo Nosso Senhor tantas vezes em sua casa e dar-Lhe de comer e servi-l’O e comer com Ele à sua mesa? Se se ficasse como a Madalena, embevecida, não teria havido quem desse de comer a este divino Hóspede” (C 17, 5).
Por isso dirá às suas leitoras: “Lembrem-se que é necessário haver quem Lhe guise a comida, e tenham-se por ditosas de O andar a servir como Marta. Olhem que a verdadeira humildade consiste, em grande parte, em estar muito pronto em se contentar com o que o Senhor quiser fazer de cada um de nós, achando-nos sempre indignos de nos chamarmos Seus servos. Pois, se contemplar e ter oração mental e vocal, e cuidar dos enfermos, e servir nas coisas de casa e trabalhar, – mesmo no mais humilde –, se tudo é servir o Hóspede que vem estar, comer e recrear-se connosco, que mais se nos dá que seja nisto ou naquilo?” (C 17, 6).
A prática da virtude conduz à santidade, que é muito mais importante que a contemplação. Esta não é senão um meio para atingir a santidade, ao passo que a santidade é o seu próprio termo. É verdade que o centro da vida espiritual é o amor, e que a contemplação pode ajudar muito a pessoa a alcançar o amor perfeito, mas fica sempre na ordem dos meios.
E como resumo de tudo o que disse, S. Teresa fará um balanço global dos dois caminhos, acção e contemplação: “Pois pensai que esta Congregação é a casa de Santa Marta e que há-de haver de tudo. As que forem levadas pela vida activa, não murmurem das que se embeberem na contemplação”(C 17, 5).
Esta é, sem dúvida, uma nova chave de leitura do capítulo inteiro. À Santa interessa-lhe pôr clareza na engrenagem de acção e oração na vida quotidiana de uma comunidade estritamente contemplativa, mas integrada necessariamente de Martas e Marias. Às Marias, muito contemplativas, falar-lhes-á da excelência do serviço: a grande sorte de hospedar e dar de comer ao Senhor. Às Martas, tentadas pelo ócio contemplativo de Maria, lhes dará um rosário de coisas importantes:
- “Não murmurem das que se embeberem na contemplação”
- Que o serviço fraterno tem valor incalculável: é “servir ao divino hóspede”. “Que mais quereis?”.
- Servindo… “não deixarão de ser muito perfeitas”.
- E quanto à graça da contemplação, ter-vos-á “guardado este regalo para vo-lo dar por junto no Céu” (C 17, 6).
- Mas deixa um alerta: que isto não seja pretexto para afrouxar na oração: “Disponha-se para ir por esse caminho (de contemplação), se Deus o quiser levar por ele”; “não esmoreça por isso, nem deixe a oração e de fazer o mesmo que todas…”
Nesta altura que S. Teresa escreve estas páginas, é prioresa de S. José, é a primeira na tábua dos ofícios, na cozinha e nos demais serviços humildes. Mais tarde compendiará esta experiência no livro das Fundações: “Entendei que se é na cozinha (o vosso ofício), entre as panelas anda o Senhor ajudando-vos no interior e exterior” (F 5, 8).
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Ficheiro
2011-09-22
