Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XVIII
S. Teresa, neste capítulo, detém-se a falar dos trabalhos dos contemplativos, pois muitas vezes, quem vê de fora, pensa “por um pouquinho que os vêem regalados, que não há mais que aquilo”.
Mas enganam-se. S. Teresa conhece uns e outros: activos e contemplativos. Neste capítulo vai certificar-nos de que a contemplação não é só bem-aventurança, mas leva consigo uma forte carga de trabalhos e será esta a tese do capítulo: “que são incomportáveis os trabalhos que Deus dá aos contemplativos”; “Ao que tenho visto e entendido dos que vão por ele [os contemplativos], que não levam cruz mais leve e vos admiraríeis das vias e modos pelas quais Deus lhas dá. Eu sei de uns e de outros, e sei claramente que são intoleráveis os trabalhos que Deus dá aos contemplativos; e são de tal sorte que, se não lhes desse aquele manjar de gostos, não se poderiam sofrer” (C 18, 1).
Por isso, a primeira coisa que Deus faz aos contemplativos é dar-lhes ânimo, dar-lhes fortaleza, porque logo depois lhes vai dar cruz. E isto porque simplesmente “regalo e oração” não são compatíveis: “Crer que admite à Sua estreita amizade gente regalada e sem trabalhos é disparate” (C 18, 1).
Que isto fique bem claro. Isto faz parte do evangelho de S. Teresa sobre a oração. Isto tanto vale para o principiante como para quem chegou à última morada do castelo interior, isto é, a montanha da contemplação é Tabor e Calvário; bem-aventurança e cruz. Ou seja, a pessoa que quer chegar à contemplação deve aprender a defrontar o sofrimento, a amar o sofrimento e isto não é fácil: aceitar aquele sofrimento que se renova sempre, do qual não nos podemos libertar, que está sempre a pesar sobre nós; quando se tropeça em coisas que nos desgostam, quando se choca com pessoas que nos contradizem, que nos ferem, que nos aborrecem, é difícil estarmos sempre serenas, alegres, na disposição de acolher de boa vontade todas estas circunstâncias que nos fazem sofrer, pensando que tudo é querido por Deus para nosso bem… Isto não é fácil.
Uma pessoa que entra na intimidade de Deus, ou seja, na contemplação, deve saber que Jesus a atrai, para a unir a si, para o caminho da cruz: a esposa de Jesus não pode deixar de seguir o destino do Esposo; participando da Sua vida, participa da Sua Paixão. Não é possível chegar à intimidade com Deus sem aceitar e amar muito a sua cruz: se queremos tornar-nos contemplativas, saberemos que temos de sofrer.
Mas não é necessário inventar sofrimentos. Basta abraçar os de todos os dias: os que vêm da prática dos nossos deveres, das dificuldades da vida, da diversidade de caracteres, etc.
Se, com os olhos da fé, soubéssemos compreender e ver como aquela palavra desabrida, aquela incompreensão, aquela dificuldade, são outros tantos convites do Senhor a participar na sua obra de salvação do mundo, a ajudar um sacerdote, a encorajar um missionário que sente toda a miséria do seu ministério ineficaz, a auxiliar uma pessoa que está a lutar para não cair em pecado, a operar uma conversão!
Tudo isto são interesses do Senhor e o orante deve estar continuamente ocupado neles. Um contemplativo, portanto, não pode estar sem sofrer, deve aprender a enfrentar a dor: os sofrimentos quotidianos podem ser, às vezes, muito pesados, mas são estes que o Senhor nos pede. O sofrimento deve ser o ambiente da vida, a atmosfera do orante, daquele que quer ser contemplativo.
E não há lugar para sentir prazer no sofrimento, porque a vida espiritual não está na sensação, mas na vontade com que decidimos aceitar o sofrimento que a vida nos traz. Se um sofrimento nos custa, é precioso diante de Deus, pois é quando custa, quando se sente o peso do sofrimento, que a pessoa se dá verdadeiramente: são os momentos em que nos podemos dar mais ao Senhor, pois mais temos para Lhe oferecer.
Saber sofrer não é sofrer com prazer, mas com serenidade, com voluntária aceitação, com inteira doação de si, com um abandono total.
Assim se explica a coexistência das duas coisas na vida do contemplativo. Para que o orante possa então levar os trabalhos, Deus dá-lhe não já água, mas “vinho, para que embriagados, não entendam o que passam e o possam sofrer” (C 18, 2).
O objectivo destas páginas do Caminho é formar o orante para:
- a luta da vida
- o remanso gozoso da contemplação
O estado de ânimo do orante há-de ter algo de espada, de militância ascética, de fortaleza evangélica, como já vimos; mas há-de ter também um segundo aspecto, feito de enamoramento, unção mística, abertura ao mistério. Duas coisas: ascese e mística. Determinada determinação e graça da água viva.
Para inculcar este carácter que há-de ter o contemplativo, Teresa recorre às imagens de luta e guerra, por um lado, e imagens de idílio e mistério, por outro: “Aqui viemos para lutar”, dirá. “Encerradas, lutemos”; e, por outro lado: “esta casa é um céu” (C 13, 7), é um “paraíso de Deus” (V 35, 12).
Com tudo isto, S. Teresa quer mostrar que a contemplação não é só idílio e mistério, mas luta e trabalho na vida.
Como iremos ver já a seguir, o Rei Divino dá os ofícios ao seu exército conforme as capacidades de cada um: uns para alferes, outros para soldados, outros para capitães, etc.
Nós…, alferes ao divino
A peça que agora interessa a Teresa é o alferes. O alferes é o responsável da bandeira. “Na batalha, o alferes não luta… mas trabalha mais que todos; … como leva a bandeira, não se pode defender… Ainda que o façam em pedaços, não a há-de largar das mãos” (C 18, 5). Pois bem, nas batalhas do espírito, o alferes é o contemplativo. Ele leva “levantada a bandeira da humildade”: “há-de sofrer quantos golpes lhe derem, sem dar nenhum”; “o seu ofício é padecer como Cristo, levar alçada a cruz, não a largar das mãos por mais perigos em que se veja” (C 18, 5). A Santa adverte-o como um capitão: “Veja o que faz, porque, se larga a bandeira, perder-se-á a batalha” (C 18, 5)!
Identificada assim a carmelita com o alferes, a imagem converte-se num tratado de militância espiritual. O contemplativo não é nem pode ser um evadido do campo da vida, um instalado no oásis do conforto. Está encarregado de levantar um sinal em plena maré da vida, no meio de todos os que lutam por vivê-la e ganhá-la. “Veja o que faz… Todos os olhos (estão cravados) nele” (C 18, 6). O contemplativo deve ser alguém generoso para a Igreja, para o serviço do Senhor, disposto a dar tudo, pois de tanto que recebe do Senhor, tem uma grande responsabilidade na Igreja. Mesmo quando se sentir chegar ao fundo do sofrimento e se sentir que não pode mais… não importa, desde que ofereça tudo ao Senhor. É aqui que se dá a exigência a e a purificação do amor, isto é, o nosso amor tem que ser provado.
E… as finanças de Deus
A outra imagem tira-a Teresa do mundo financeiro. Teresa recorda que Deus é muito bom pagador. E diz que não se devem confundir os “juros perpétuos” com os “censos remíveis” que se tiram e põem.
Para S. Teresa os “juros perpétuos” são as virtudes do orante:
- alegria no serviço
- humildade
- mortificação
- obediência
- disponibilidade
- submissão ao plano de Deus
Para S. Teresa os “censos remíveis” é aquilo que é de valor caduco ou duvidoso: balões e jogos de luzes que acompanham a oração do contemplativo:
- gostos
- arroubamentos
- visões
- graças semelhantes
Por isso, a pedra de toque da vida e da oração são, portanto, as virtudes do quotidiano, as que autenticam o evangelho da vida.
A “mochila” de todo o orante
O orante não é um traficante da amizade de Deus. Não é impositivo, nem se substitui ao Amigo, confia n’Ele, deixa-Lhe toda a iniciativa: “deixemos fazer o Senhor”. “Ele conhece-nos melhor que nós mesmas”.
- Quem entrou pelo caminho da oração deve educar-se para a disponibilidade, até ao abandono total.
- Aquele que se abandona deixa-se a si próprio, mas não se rende, não afrouxa. A oração há-de inocular-lhe carácter de luta e perseverança.
- Outro traço fisionómico do orante: há-de adquirir capacidade para suportar os trabalhos da vida, inclusivamente para encaixar os golpes, porque tanto a oração como a vida cristã são marcadas pela cruz. O orante, com o tempo, se é verdadeiro orante, torna-se sempre mais consciente da luta que a vida comporta.
- Quanto mais o orante avança na oração, mais a sua implicação na luta será intensa e menos violenta. Sem armas de defesa, terá que assumir mais em cheio as responsabilidades e os quebrantos dos outros.
- O verdadeiro orante cultiva uma mentalidade contemplativa, isto é, um espírito de generosidade, aprendendo que o sofrimento faz parte da vida. Para isso, há que ir aprendendo também a não pôr diante de si os seus sofrimentos, mas a esquecê-los, com a certeza de que o Senhor cuidará dele. Aí pensará muito mais nos interesses de Jesus.
- O verdadeiro orante é alegre, humilde, goza com os êxitos dos outros, serve, é mortificado, não tem pretensões, é uma pessoa de esperança, é obediente.
Video
Ficheiro
2011-09-22
