Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XIX
S. Teresa começa, neste capítulo, dizendo a necessidade de se aplicar à oração mental, se se quer chegar à contemplação.
Aqui vai dar algumas orientações, pois sabe que as pessoas não se encontram todas nas mesmas condições, devendo-se levar cada uma pelo seu próprio caminho.
Começa pelo caso mais normal, que é o das pessoas que têm uma certa facilidade para raciocinar sobre uma ideia e seguir na meditação um método determinado. Já no tempo de S. Teresa havia livros bons para fazer a meditação, como ela própria o diz: “Tendes esses livros onde, pelos dias da semana, são repartidos os mistérios da vida do Senhor e da Sua Paixão, e meditações sobre o juízo e o inferno, o nosso nada e o muito que devemos a Deus, com excelente doutrina e ordem para o princípio e fim de oração” (C 19, 1).
S. Teresa conhece estes livros e aprova-os, admitindo assim que se deve seguir um método na meditação. Diz a Santa: “Todos os que puderem ir por ele, levarão descanso e segurança, porque, atado o entendimento, vai-se com descanso” (C 19, 1), isto é, uma vez que a inteligência se agarre a um assunto e o aprofunde, evita dispersar-se e a alma sente-se então impelida a tomar boas resoluções.
Dificuldades
No entanto, S. Teresa reconhece que há pessoas que não têm capacidade para isto, mas nem por isso as dispensa de fazerem oração mental: “Há almas e entendimentos tão desenfreados como cavalos sem freio, que não há quem os faça parar. Vão para aqui, vão para ali, sempre com desassossego: e é a sua mesma natureza ou Deus que o permite. Tenho-lhes muita lástima” (C 19, 2). Há, de facto, pessoas um pouco atormentadas pelas distracções de espírito e que sentem grande dificuldade em se fixarem num pensamento. Isto pode depender também de um defeito natural. Vão ter que seguir outro método e vai ensiná-las.
A dificuldade de se aplicar a um assunto pode provir:
- de um defeito natural
- de disposições transitórias que influem sobre o espírito, dissipando a atenção e pondo a mente a divagar
- do sono: uma vez que cria dificuldades em aplicar a atenção, abre a porta às distracções
- de a pessoa ser atraída à contemplação, com solicitude discreta e amorosa
Em todos estes casos a pessoa deve procurar vencer-se, mas não sempre do mesmo modo: “Assim, pois, irmãs, oração mental; quem isto não puder, vocal e leitura e colóquios com Deus, como depois direi. Não se deixem as horas de oração que todas têm” (C 18, 4).
Não se trata de pura oração vocal, mas oração vocal que deve ser acompanhada de reflexão.
Oferece-nos ainda outros recursos: a leitura meditada, e particularmente a conversação que devemos ter com o Senhor.
Há muitas pessoas que quando se vêem assim, querem é desistir…
Como ela diz não basta ter vencido os primeiros inimigos, mas é preciso não se deixar vencer pelos segundos (dificuldades e cansaço da oração).
Ela aconselha recorrer à leitura em certos estados de aridez, mas não sempre. Como saber quando ou não usar um livro?
Sempre que intervenha uma circunstância externa, uma circunstância natural, física ou psíquica, é a altura em que se deve recorrer a um livro. Nem sempre resulta, mas muitas vezes é eficaz. É um remédio a que muitas vezes podemos recorrer.
Apesar de todas estas dificuldades, S. Teresa diz que a todos – mesmo os que habitualmente sofram estas coisas – pode ser concedido o dom da contemplação.
O ideal contemplativo
S. Teresa vai iniciar o tema que prometeu tratar: a contemplação e chama à contemplação água viva. A contemplação não é um fim, mas um meio para chegar à união com Deus; a contemplação orienta a pessoa para Deus, concentra-a, recolhe-a.
Ela vai apresentar as características da contemplação (e esta no grau unitivo, pois nem toda a contemplação é unitiva), servindo-se das qualidades da água. Quais são estas qualidades?
A água refresca, purifica, sacia e dessedenta.
A água refresca
A água espiritual da contemplação actua de tal modo que deixamos de ter sede das coisas terrenas para só a termos das coisas celestes: “Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra” (Col 3, 3). A contemplação torna o desprendimento mais fácil. Uma vez que a contemplação infunde amor na pessoa, cresce nela o amor a Deus e ao próximo, desprendendo-se sempre mais dela própria e dos seus pequeninos interesses pessoais, sem valor. A contemplação é água que refresca, na medida em que liberta a pessoa das coisas da terra e, ao mesmo tempo esta água viva incendeia a pessoa - como faz a água ao alcatrão - de modo que a faz crescer no amor, em desejos, em fome e sede de verdade.
A água purifica
A contemplação purifica. Temos a experiência que, pela graça de Deus em nós, um defeito que, por exemplo não conseguíamos libertar-nos dele, vermo-nos livres dele de um momento para o outro. Aqui aparece uma clara diferença entre a contemplação e meditação. A contemplação é um poderoso meio para nos desprendermos e purificar-nos. Na contemplação Deus atrai-nos a Si e descentramo-nos mais de nós próprios.
A água sacia e dessedenta
A contemplação produz na pessoa uma grande sede do Senhor. E em vez de tirar a sede, aumenta-a, não a respeito das coisas da terra, mas das coisas de Deus. Há uma poderosa orientação da pessoa para Deus, todas as suas energias se orientam para Ele. Esta água da contemplação tira a sede das coisas da terra, dessedenta, portanto, mas aumenta a sede de Deus. A pessoa cresce no amor. Tem desejo do Céu, mas deve orientar sempre estes impulsos do desejo do Céu, a um completo abandono à vontade de Deus, pois aqui pode meter muito a mão a sensibilidade e desejos naturais da pessoa. Porque quando é Deus quem obra na alma “traz sempre consigo a luz, a discrição e a medida” (C 19, 13).
De tudo isto se conclui que a contemplação é um dom muito desejável, não tanto porque nos faz gozar de Deus, mas porque nos põe com extrema força no caminho do amor a Deus e ao próximo.
O tempo da oração propriamente dito deve ser preparado ao longo do dia: pela presença de Deus, pelas obras de caridade para com as nossas irmãs: paciência, delicadeza, disponibilidade, caridade, capacidade de perdão, aceitação serena dos contratempos e daquilo que não estava nos nossos planos (“o que não estava nos meus planos, estava nos planos de Deus”, dizia Edith Stein), etc. Esta é a forma de prepararmos bem a nossa oração e o Senhor, na sua misericórdia e bondade proverá a todas as nossas necessidades.
S. Teresa adverte que o caminho que conduz à água viva é um caminho difícil, mas S. Teresa exorta e anima a não perder a coragem, a fortaleza e o ânimo no meio das contradições e das dificuldades da vida, mas a caminhar com energia, sem nunca ceder ao cansaço, crescer nas virtudes que há-de ser o que ditará a verdade das graças contemplativas. As graças da oração são coisa incerta, mas as virtudes não. O que ela pede ao Senhor é que em tudo nos dê sempre luz para cumprir a Sua vontade.
S. Teresa diz ainda que todos são chamados, pois todos fomos convidados pelo Senhor a beber da água viva; Ele não pôs nenhum limite. Todos receberemos este dom, mas no tempo que o Senhor quiser e se não for nesta vida, recebê-lo-emos com toda a certeza no céu. Há muitas formas de nos unirmos a Ele, e não só a da contemplação, como já vimos, nos capítulos anteriores. O que temos é de ser fortes e lutar corajosamente na luta da vida, suceda o que suceder e não desistirmos por coisa pouca.
Por todas estas indicações da Santa vemos como estamos longe do cliché deformado e bastante difundido da contemplação cómoda e platónica, situada no extremo dos desejos e do realizar as obras do amor.
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Ficheiro
2011-09-22
