Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XX
São dois temas que vai tratar S. Teresa neste capítulo:
- O caminho para a fonte da água viva (contemplação)
- A linguagem do grupo orante
O caminho para a fonte da água viva
Parece que S. Teresa se está a contradizer, pois antes dizia que nem todas as pessoas hão-de ser contemplativas e agora diz que todas podem e são chamadas a beber da fonte. O que ela quer dizer é que há muitos caminhos para chegar à fonte, à contemplação. Há muitos modos de chegar à água viva: por fontes caudalosas, por arroios e arroiozinhos, e até mesmo por “charquinhos de água para crianças”. Por isso anima a não desistir nunca. Há-de beber-se desta fonte, nem que seja no Céu. Ensina a determinada determinação, sobretudo no capítulo 21: “Ir sempre com esta determinação de antes morrer que deixar de chegar ao fim do caminho” (C 20, 2).
Porque é que há tantas formas diferentes de chegar a beber nesta fonte? Nos capítulos anteriores vimos como a atmosfera onde nasce a contemplação é a atmosfera do sofrimento. E, como é natural, nem todos mostram a mesma generosidade neste ponto. Muitos assustam-se: em face do convite de subirem ao Calvário, muitos não se aguentam. O Senhor não força ninguém. Convida. Vê a nossa boa vontade, e quando nos encontra bem preparados, pede mais, mas também ajuda mais. Ele espera a nossa generosidade e quando somos pouco generosos, não temos, por nossa culpa, acesso à contemplação. Este caminho está aberto a todos. S. Teresa compreendeu isto, pois ela que nem sempre tinha sido fiel, depois de se voltar toda para Deus, recebeu este dom. Mas como já dissemos o Senhor não força ninguém.
No entanto, ainda que se responda com toda a generosidade, nem todos beberão da mesma forma e na mesma abundância.
Esta experiência de beber da fonte da água viva aparece sob várias formas, dando o Senhor a beber esta água conforme seja melhor para cada pessoa. Não interessa tanto se a nossa alma recebe a luz de Deus no meio de um êxtase ou no meio das suas ocupações quotidianas, como sucedeu no caso de S. Teresinha. O que importa é que vamos recebendo as luzes de Deus para conhecer a Sua vontade na nossa vida e responder com generosidade.
Podemos então compreender como este dom, embora sob formas diferentes, acaba por nos ser dado a todos.
Por isso, tantas vezes S. Teresa nos diz que não estamos aqui senão para lutar, para combater como fortes, mesmo que morramos na busca desta água viva que, com toda a certeza, encontraremos sempre, ainda que seja no fim do caminho desta vida.
O que ela nos pede é que não faltemos ao Senhor, mas respondamos ao seu apelo praticando generosamente as virtudes do desprendimento, da abnegação (contrariar a nossa vontade), da caridade fraterna e da humildade profunda, e aplicando-nos com fidelidade à oração.
A linguagem do grupo orante
Quem entra no caminho da contemplação, há-de ter uma linguagem própria, uma linguagem que consiste em “falar de Deus”. Esta linguagem há que aprendê-la e ter muito cuidado de não a desaprender no contacto com os de fora ou com quem não está interessado pela água da fonte.
Ela é contundente: “estão obrigadas a não falar senão de Deus”. “Este é o vosso trato e linguagem. Quem quiser tratar convosco, aprenda-o”. “Guardai-vos de aprender vós o seu: será um inferno. O vosso trato é de oração”.
Para S. Teresa o contemplativo há-de falar de Deus não de forma académica e de livro, mas ao vivo, isto é, a partir da vida, da sua experiência, a partir da mente e do coração. “Falar de Deus” é prelúdio normal do “falar a Deus”. Falar de Deus e falar a Deus há-de ser, portanto, a língua do orante. Por isso os amigos dos contemplativos hão-de ser pessoas que tratem do mesmo, estas são os amigos e as amizades que Deus quer e estima.
Por isso a linguagem do mundo, dos que não querem beber da fonte da água viva é denominada por ela de algaravia: linguagem de não-cristãos, não inteligível e até com elementos tóxicos para o espírito. Por isso para ela não aprender a algaravia, isto é, a linguagem do mundo, é não assumir os conteúdos das práticas do mundo. O que se há-de fazer é que os do mundo aprendam a linguagem do grupo orante, é interessá-los pelas riquezas que se ganham em aprender a oração (C 20, 6), de modo que percam o medo de começar o grande bem que é a oração.
Poderíamos dizer que a oração é proselitista, isto é, possui força expansiva, a oração é como o próprio bem que é difusivo e eleva, pois como dia a Santa Madre: “O bem nunca faz mal” (C 20, 3).
Para S. Teresa este é o apostolado do grupo, isto é, é o apostolado da oração que não se encerra em si mesmo, mas tem uma linguagem comunicante e sabe que todos estão chamados a beber desta fonte.
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Ficheiro
2011-09-22
