Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXI
Chegámos ao coração do livro. Trata aqui da chamada polémica da oração.
Em primeiro lugar, exorta a que é necessária uma resolução forte e decidida de não parar enquanto não chegar à fonte. É a determinada determinação. Esta forte decisão devemos não só cultivá-la ao início do caminho de oração, mas sempre até ao fim, “aconteça o que acontecer, venha o que vier, murmure quem queira murmurar, esforce-se tanto quanto for preciso…”.
Na segunda parte vai insistir sobre os medos, ou melhor, advertir e encorajar as Irmãs para que não tenham medo do caminho da oração.
Sabemos por razões históricas que foram retirados muitos livros sobre oração, como reacção ao protestantismo. No entanto S. Teresa diz às suas Irmãs que, mesmo lhes tirando todos os livros, sempre terão o Pai Nosso que é preferível a todos os livros (C 21, 3). Ao mesmo tempo tinha-se conhecimento dos casos de pessoas – sobretudo mulheres – que tinham sido vítimas de ilusões na oração.
E, a partir daqui, vai respondendo à várias objecções dos perigos que apontavam, no seu tempo, a este caminho da oração. No fundo, o problema que surge aqui, é uma tensão entre activos e contemplativos. S. Teresa vive no seu tempo a reacção conciliar tridentina, isto é, a clara reivindicação das obras frente à mística da “só a fé”. Por um lado estão os luteranos, por outro os contemplativos. Um dos teólogos de então, M. Cano, escrevia: “Dizer que as virtudes aumentam com o exercício da oração mais do que com os seus próprios actos é um grande engano…”
S. Teresa que tinha começado a sua vida mística, contemplativa, aos seus 40 anos, vai encontrar neste tempo, em que vive uma vida mística excepcional, uma onda de antifeminismo (casos de visionárias) e a expansão do luteranismo.
Da parte da Inquisição vai sofrer várias proibições: tiram-se-lhe os livros, as comunhões, a oração e enchem-na de medos. Tudo isto o podemos ver no Livro da Vida.
Quando agora escreve o Caminho já tudo isso passou, mas é ainda recente.
O que ela quer evitar é que esta onda de medos caia sobre as suas Irmãs. S. Teresa condena claramente esta situação e diz que esses que tiram os livros e atacam a oração e os contemplativos, “fogem do bem para livrar-se do mal. Nunca tão má invenção vi. Bem parece do demónio” (C 21, 8).
Tomada de posições
- É preciso, pois, começar o caminho da oração sem medo e começar com uma grande e muito determinada determinação. Esta determinada determinação deve existir, mas sem arrogância nem auto-suficiência.
- Fora com os medos. “Não façais nenhum caso dos medos que vos puserem” (C 21, 5). Não quer que as Irmãs deixem encolher a alma e o ânimo pelos possíveis perigos que possam surgir pois, perigos, há-os em toda a parte. Toda a grande conquista envolve riscos e perigos e as pessoas do mundo não se expõem tantas vezes a eles para obter um simples lucro material? Então não valerá a pena correr riscos para obter um bem infinitamente maior, como é o da contemplação?
- S. Teresa refuta também estes perigos que se põem no caminho da oração, dizendo que é uma tentação do demónio. Ainda que possa haver pessoas que possam cair e deixar-se enganar, por causa das suas más inclinações, quantas pessoas há que, pela oração, se elevam a grande perfeição. É preciso estar atentos a este enganos: por medo Mal, afastar-se do Bem!
- A oração é um caminho real, é caminho para o céu, caminho do tesouro e da água viva. “Acreditai-me vós e ninguém vos engane em mostrar-vos outro caminho senão o da oração” (C 21, 6). Por isso, quem não vai pela via da oração, acabará morrendo de sede. Esses que não vão pelo caminho da oração, esses sim, estão em grande perigo! E os perigos só os verão quando caírem neles, sem encontrarem ninguém que lhes dê a mão. Uma pessoa que vai pelo caminho da oração sempre estará capaz de receber uma iluminação do Espírito Santo, receberá ajuda para a sua vida, ao passo que toda a pessoa negligente na oração perde esta ajuda tão preciosa e poderosa.
S. Teresa exorta as suas Irmãs a seguir sem medo este caminho, pois que ainda que lhes tirassem todos os livros, o “Pai Nosso” sempre o terão e ninguém lho poderá tirar.
- É bom unir-se a pessoas que sejam fortes amigos de Deus e caminhem sem medo, pois estes pelas suas obras e ensinamentos contribuirão para fazer acreditar que o caminho da oração é bom e um grande bem: “(…) Achareis sempre alguns que vos ajudem, porque isto tem o verdadeiro servo de Deus a quem Sua Majestade esclareceu acerca do verdadeiro caminho: com estes temores, cresce-lhe mais o desejo de não parar”. (…) “Deus suscita alguém que lhes abra os olhos e diga que vejam que lhes pôs uma névoa para não verem o caminho. Que grandeza a de Deus, que mais pode por vezes um só homem ou dois que digam a verdade do que muitos juntos! Tornam pouco a pouco a descobrir o caminho, dá-lhes Deus ânimo. Se dizem que há perigo na oração, procura dar a entender quanto é boa a oração, quando não é por palavras, com obras; se dizem que não é bem comungar amiúde, fazem-no então com mais frequência. E assim, quando haja um ou dois que siga sem temor o melhor, logo o Senhor torna, pouco a pouco, a ganhar o perdido. E assim, irmãs, deixai-vos destes medos” (C 21, 9-10).
Por isso ela ensina como reagir a estas tentações, dizendo, em síntese: “E assim, irmãs, deixai-vos destes medos; nunca façais caso em coisas semelhantes da opinião do público. (…) Procurai ter a consciência limpa, humildade, desprezo de todas as coisas do mundo e crer firmemente o que ensina a Santa Madre Igreja, e ficai certas que ides por bom caminho” (C 21, 10).
Video
Ficheiro
2011-09-22
