Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXII
Neste capítulo vai S. Teresa começar a dizer o que é a oração mental. Assim diz o título: “Declara o que é oração mental”.
Para S. Teresa, o mais importante na oração são os amigos em relação, mais do que os rituais, os exercícios para se recolher, os métodos, etc. Por isso o mais importante ao começar a oração é tomar consciência do “quem com quem”, cair na conta de “com quem vai a falar e quem é o que fala” (C 22, 3). Não cessará de repetir isto ao longo do capítulo. Mais do que as palavras que se empregam, importa muito mais “entender e ver que falo com Deus” (C 22, 1).
Porque proceder assim? Porque isto levará a entrar na esfera d’Ele, da sua presença, da Sua pessoa, do Seu mistério. De si, já tem o orante consciência de sobra, talvez até chegar à hipertrofia do próprio eu. Aqui o que se trata é de despertar a consciência do Outro, de entrar na Sua órbita com o próprio eu, depois de ter sacudido todas as máscaras, pesos e ataduras de egoísmo, do orgulho, do solipsismo. Por isso diz a Santa: “Agradecer-Lhe…, o mau odor que sofre em consentir junto de si uma como eu… [para isso] é bom que procuremos conhecer a sua limpeza e quem é” (C 22, 4).
Desta forma, para S. Teresa, a oração produz o regresso ao elementar do acto religioso: o homem está diante de Deus, o homem está com Ele.
A partir desta consciência Teresa constrói a riqueza da sua resposta em três ou quatro conceitos fundamentais:
1 - Recupera a definição da oração proposta no Livro da Vida. Oração é tratar com Deus, é entrar na espiral da Sua amizade.
2 – Depois um outro conceito muito importante para ela é o “quem com Quem” que já referimos logo no início. Não há oração sem esse laço elementar das duas pessoas. É preciso chegar a ter, ainda que de uma forma ténue e frágil, consciência de estar na presença de Deus. Sem isto, tudo falha. Voltaremos a cair em nós mesmas, a girar à volta de nós mesmas, com os nossos pensamentos, com as nossas imagens e projecções, ou seja, com os nossos ídolos. A oração é estar com Ele! Aqui há claramente o acento sobre o carácter afectivo da oração. O conhecimento que se vai tendo d’Ele é guia e estímulo para o amor, gerando na pessoa a consciência de ser amada por Deus.
Por isso, interessa agora aqui introduzir o seu pensamento acerca de como se faz este entrar na esfera de Deus, de que forma se está com Ele e é aqui que ela vai falar da oração vocal e mental. O seu pensamento é o seguinte: a oração vocal não é a oração mental, mas também não se destaca dela nitidamente; antes, para ser bem feita, não pode andar separada da oração mental. Por isso diz: “Sabeis, filhas, que não está a diferença, para ser ou não ser oração mental, em ter a boca fechada” (C 22, 1). Não: pode-se perfeitamente falar, mesmo durante a oração mental, pode-se unir a oração mental à vocal, desde que durante a recitação da prece, mais do que ao sentido das palavras que se pronunciam, com a intenção geral de louvar o Senhor, a nossa mente se encontre inteiramente ocupada n’Ele. Diz ela: “Se, estando a falar, estou perfeitamente a entender e a ver que falo com Deus, pondo nisto mais advertência do que às palavras que digo, juntas estão aqui oração mental e vocal” (C 22, 1). E como consequência disto, pensando em Deus é normal que Lhe perguntemos: Como devo fazer para Lhe agradar? Como devo comportar-me diante d’Ele? Disto falará no cap. 24. Neste capítulo como já dissemos chama a nossa atenção para Aquele a quem falamos, este “quem com Quem”.
Diz ainda ela: “Quem poderá dizer que é mal, se começamos a rezar as Horas ou o rosário, que se comece por pensar com quem se vai falar e quem é aquele que fala, para ver como se deve tratar? Pois eu vos digo, irmãs; se o muito que há a fazer para entender estes dois pontos se fizesse bem, antes de começardes a oração vocal que ides rezar, ocupareis assaz tempo na mental” (C 22, 3).
Por isso, para S. Teresa, para haver oração é preciso “que vos aproximeis d’Ele e que, uma vez na Sua presença, penseis e compreendais com quem ides falar ou estais falando” (C 22, 7).
3 - Neste estar com Ele, há que entender que se está com Ele, há que pensar n’Ele, pensar com quem falamos, procurar conhecê-Lo, “conhecer a Sua limpeza e quem é Ele”, etc. O quem ela quer expressar a todo o custo é essa tomada de consciência do Outro, de entrar no halo da Sua presença. Isto é determinante. Desencadeia um processo sem fim, rompendo assim sempre mais o cerco com que somos assediadas pelo nosso eu.
Por isso ela explica que mesmo rezando vocalmente, só se reza bem, se estiver ligada à oração mental, pois como ela diz depois no cap. 25, 3: “Oração vocal é recitar o Pai-Nosso, a Avé-Maria ou qualquer outra prece, mas se não a ligardes à oração mental é música desafinada”.
Por isso a primeira coisa que é necessário fazer na oração é aproximar-nos do Senhor, tomar contacto com Ele, tomar consciência que estamos diante d’Ele.
- Quarto: Para S. Teresa este pensar, entender, olhar, entrar na Sua presença, é para aprender a tratar com Ele, é para ver como havemos de tratar com Ele, como Ele merece. E, neste trato, deixar-se modelar por Ele, transformar-se por Ele, como veremos no cap. 24. Sem esta transformação não haverá verdadeiro trato amizade com Deus. O estudo do coração do Senhor, do carácter do Esposo é tão importante e tão instrutivo!
A música de fundo
Quando trata de temas fortes como este, S. Teresa apresenta imagens que são como que a música de fundo destes temas.
Neste caso vai usar três imagens para dizer o que é orar:
1- a do trato social
2- a do caminho
3- a imagem íntima do amor esponsal
1 - Tratar de oração é tratar de amizade e tratar de amizade é tratar de amor entre os humanos. Serve-se da imagem dos tratamentos convencionais na vida social. Se damos conta Quem é Ele e quem somos nós, como não havemos de arranjar modo para tratar com Ele, se na nossa vida social procuramos o mesmo, sobretudo se temos de nos dirigir a alguém importante? Acaba por dizer que entre a rudeza do pastorinho que vai ao Rei humildemente e o sábio letrado que vai cheio da sua ciência, elegância, linguagem eloquente e “teulogia”, o Rei agrada-se, sem dúvida, muito mais do pastorinho!
2 - Em segundo lugar, apresenta a imagem do caminho: quantas vezes as nossas meditações, com os seus “elegantes raciocínios”, ou com o nosso “pensar muito” (Fund. 5, 2), se convertem em caminho longo e tortuoso que não leva ao destino. Enquanto o estar com Ele ou junto d’Ele, é caminho directo (C 22, 3).
3 - Por fim, a imagem do amor esponsal. Todos, pelo Baptismo fomos desposados com Cristo e aspiramos às bodas do encontro definitivo. A oração é para o entretanto: para conhecê-Lo, para aprender como contentá-Lo, fazer que a minha condição se torne conforme à Sua, alcançá-Lo em pessoa… “porque nos hão-de impedir que procuremos entender quem é este Homem, e quem é Seu Pai, e qual a terra para onde me vai levar e quais são os bens que me promete dar, qual a Sua condição, como melhor O poderei contentar, em que Lhe darei prazer, e estudar como hei-de tornar a minha condição conforme à Sua? (…) Pois, Esposo meu, em tudo hão-de fazer menos caso de Vós que dos homens? Se isto não lhes parece bem, que Vos deixem às Vossas esposas, que hão-de fazer vida convosco” (C 22, 7-8).
Como diz S. Teresa: “Isto, filhas, o entender estas verdades, é oração mental” (C 22, 8).
Video
Ficheiro
2011-09-22
