Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXIV
Neste capítulo S. Teresa vai dizer como andam juntas a oração vocal e mental e como a fronteira é muito ténue entre as duas. Não há oração vocal sem conteúdo mental e as orações básicas do cristão – o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo – são um excelente degrau na escala da oração e na sua aprendizagem.
Com a sua experiência, S. Teresa foi compreendendo que não basta pronunciar palavras para dizer que se faz oração. Ela assim o expressava ao Senhor: “Nunca permitais, Senhor, que se tenha por bom que, quem for a falar convosco, o faça só com a boca” (C 22, 1).
Mas, na realidade, o problema não é assim tão simples:
- Por um lado, no tempo de Teresa os letrados diziam que, mesmo não percebendo as Irmãs o que rezavam no Ofício divino, esta oração bastava; bastava o rezo coral. Ela prefere não intrometer-se nisto, como diz: “Se basta ou não, nisso não me intrometo: os letrados o dirão” (C 24, 2).
- Por outro lado S. Teresa aponta outro factor muito importante: Há pessoas que “não podem” recolher-se, nem podem “atar o entendimento” para o concentrar naquilo que oram. São, no fundo, pessoas que não podem orar sem rezar. Não têm capacidade para essa oração pura, que se formula na palavra interior, do entendimento ou do coração.
S. Teresa conheceu estes casos flagrantes: “ Eu conheço uma pessoa bem idosa, de vida muito boa, penitente e muito serva de Deus, e emprega muitas horas, há muitos anos, em oração vocal, e na mental não há remédio; quando mais pode, pouco a pouco, vai-se detendo nas orações vocais. E outras muitas pessoas há deste género e, se têm humildade, não creio que no fim fiquem pior servidas, senão muito a par das que têm muitos gostos” (C 17, 3) e outro: “Conheço uma pessoa que nunca pode ter senão oração vocal e junto com esta tinha tudo; e, se assim não rezava, ficava-lhe o entendimento tão perdido, que não o podia sofrer. Mas, tal como esta, tivéssemos todas a nossa oração mental! Em certos «Pai nossos» que ela rezava em honra das vezes com que o Senhor derramou sangue – e em mais um pouco que rezava – se ficava algumas horas. Veio uma vez ter comigo muito contristada, que não sabia ter oração mental, nem podia contemplar, mas só rezava vocalmente. Perguntei-lhe o que rezava e vi que, junto com o «Pai Nosso», tinha pura contemplação, e o Senhor a levantava até juntá-la consigo em união; e bem se percebia em suas obras receber tão grandes mercês, porque preenchia muito bem a vida” (C 30, 7).
Por estes dois exemplos vemos que não se tratariam de casos esporádicos. Poderíamos sintetizar assim as situações concretas apresentadas por ela:
- Pessoas com real dificuldade psicológica para fazer pura oração mental
- Pessoas com medo da oração (fala das que sucumbiram aos medos difundidos pelos teólogos do seu tempo)
- Situações de esgotamento mental ou de absoluta impotência momentânea para a oração interior (ns. 4 e 5)
- Deus leva cada pessoa pelo seu caminho e, por isso, há muitos caminhos, podendo encontrar-se numa comunidade contemplativa pessoas submergidas nesta impotência interior ou não.
A todos estes vai S. Teresa sugerir-lhes um caminho possível ou algumas soluções para o problema.
Como orar vocalmente
1 - Antes de tudo, um preceito fundamental e importantíssimo: Nunca contentar-se com a oração só de palavras, ou seja, o rezar maquinalmente, por costume, ou preencher o tempo da oração com formulários oracionais; isto não é oração. A oração há-de ser com consideração, advertindo a quem se fala e o que pede, e quem é quem pede, etc.
2 - Um segundo preceito: além da atenção aos conteúdos da oração, importa avivar a atenção ao Outro, o destinatário da própria oração. Alternância da “razão” e do “amor”, isto é, compreendo a Quem falo e o que Lhe digo (razão), consequentemente, me nascerá o amor, a partir do que vou entendendo.
- Não se afastar do grande Mestre da oração do Pai-nosso, Jesus. É um Mestre que nunca está longe, mas está, ao contrário, “muito junto” do orante. Toda a oração vocal se há-de apoiar neste pano de fundo de atenção a Cristo.
O que S. Teresa deseja não é tanto activar a atenção às palavras (que também interessa), mas abrir e manter esse pano de fundo de atenção à Pessoa com quem oramos. Deixar que entre Jesus e o orante flua e reflua essa comunhão se sentimentos, afectos e intenções que tem a sua fonte no próprio Jesus, misteriosamente presente junto de nós.
Volta de novo aquela ideia fundamental de que já falámos noutros capítulos: o “quem com Quem”: ter o pensamento em quem endereçamos as palavras.
3 – Terceiro preceito: “a sós”: “Já sabeis que Sua Majestade nos ensina que seja a sós; e assim fazia Ele sempre que orava, não por necessidade, mas para nosso ensinamento” (C 24, 4). Este a sós refere-se, não tanto ao rezar em silêncio exterior (também é importante), mas à exclusão de pensamentos e ocupações profanas (silêncio interior). O essencial da oração vocal é que consiga pôr-nos diante d’Ele, relacionarmo-nos com Ele. Diz a Santa: “Se é que esta [oração vocal] há-de ser bem rezada, é entendendo com quem falamos” (C 24, 6).
4 – Quarto preceito: todas estas coisas há que trabalhá-las. Também a oração vocal implica uma séria tarefa de auto-educação, perseverança, empenho e disciplina interior. “Porque também há pessoas mal sofridas e amigas de se não incomodar que, como não têm o costume, é-lhes difícil recolher o pensamento e isto a princípio; para não se cansarem um pouco, dizem que mais não podem nem sabem, senão rezar vocalmente” (C 24, 6), e então não se impõem o esforço de recolher o próprio espírito para rezar. A estas vão dirigidos os preceitos que acabámos de expor.
As excepções
S. Teresa admite que há, por vezes, situações e tempos de absoluta atrofia interior. É tal o embotamento do espírito que a mente é incapaz de seguir ou acolher qualquer esforço ou palavras rezadas com os lábios. São os dias cinzentos: mau-humor, tristeza, depressão; desassossego e desabrimento; não poder “estar no que se diz” por mais que se faça; pensamentos sem assento, “sem siso”, desbaratados, cheios de um frenesi interior; e, sobretudo, de impotência: impotência para pensar, desejar, orar… Tudo isto acompanhado “da pena que dá o não poder…”.
Para esta situação tem a Santa Madre uma palavra de compreensão e humanismo: “Na pena que isto dá a quem está assim, verá que não é sua a culpa. Não se aflija, que é pior, nem se canse em querer dar juízo a quem, por então, não o tem, que é o seu entendimento, mas reze como puder; e até nem reze, mas, como enferma, procure dar alívio à sua alma; e ocupe-se em outra obra de virtude” (C 24, 5).
No entanto convém advertir que estas impotências de que ela aqui fala, não são os típicos ataques de falta de vontade e frouxidão que assediam o principiante; a este continua a dar o preceito da determinada determinação: não deixar a oração aconteça o que acontecer. Estas impotências de que aqui fala a Santa dizem respeito às grandes provas purificadoras da noite passiva e que, como sabemos, não são as do principiante. S. Teresa descreve-as em V 30, 11. 15. 16. 18.
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Ficheiro
2011-09-22
