Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXVI
Neste capítulo vai S. Teresa ensinar como recolher o pensamento na oração vocal ou mental. O que importa é interiorizar a oração, torná-la mais simples e contemplativa.
Esta catequese da Santa sobre a oração de recolhimento vai estender-se por quatro capítulos, do 26 ao 29, estruturados num díptico:
- Capítulos 26-27: O principal para recolher o pensamento é centrar o olhar em Cristo. Recolher-se é acolher-se a Ele, à sua presença, à sua companhia. O recolhimento, aliás como a própria oração, tem que ser decididamente cristológico.
- Capítulos 28-29: Insistirá mais no aspecto psicológico. O recolhimento é quando a alma recolhe todas as potências e entra dentro de si, isto é, redescobre o próprio castelo interior.
Vamos agora delinear os passos para a oração de recolhimento:
1- Educar-se para estar na presença d’Ele
Diz a Santa, que não estejamos sem tão bom amigo ao nosso lado (C 26, 1). Já dissemos noutros capítulos que para S. Teresa a oração é coisa de duas pessoas, amizade de dois amigos, é relação entre duas pessoas, diálogo. Por isso diz ela:”Antes de tudo faz-se o sinal da cruz, depois o exame de consciência e em seguida reza-se o Confiteor”. “Depois procurai, logo, filhas, assim que estejais sós, arranjar companhia”. Esta companhia não é pessoas, mas Ele. Trata-se de actuar a fé na Sua presença. Mas uma fé dinâmica, isto é, que envolva e trespasse a minha vida, que penetre o tecido psicológico da minha vida, os meus pensamentos e sentimentos. Que esta presença, seja além do mais, uma presença amiga. E esta presença, não só cultivá-la durante a oração, mas também durante o dia.
2- Educar o olhar
A partir do olhar exterior, educar para o olhar interior. Nos números, 3, 4,5, ela não cessa de repetir o verbo olhar: “olhai-O”, pôr os olhos n’Ele, voltar os olhos para Ele até que “vos olhará Ele com uns tão formosos e piedosos…, só porque voltastes a cabeça para O olhar”.
Mas não se trata (ou pelo menos não só) dos olhos da cara, mas trata-se de voltar para Ele os olhos da alma, como diz no número 3. O que S. Teresa aqui ensina é começar pelo olhar sensível, exterior, para o despertar e convocar para o Senhor, o olhar interior: atenção que despertará o espírito a educar os sentidos, agudizando a ponta penetrante da fé e do amor.
A educação dos olhos da alma requererá exercício, treino em modulações práticas facilitadas pelo Evangelho, pelos passos da Sua Paixão, pelas Suas palavras e sentimentos e ainda pelos altos e baixos do próprio espírito. Mas tudo isto apontando sempre a essa suave, pausada e profunda atenção interior que nos permite instalarmo-nos na Sua presença e entrar em comunhão com os Seus sentimentos. Ao mesmo tempo as capas mais profundas do meu interior vão sendo tomadas pela presença e acção do Senhor até poder dizer, em verdade como S. Teresa: “Juntos andemos, Senhor” (C 26, 6).
3- Educar para a escuta e para a palavra
S. Teresa compreendeu muito bem que não há amizade sem comunicação. Ela sabe que há dificuldade em vencer as dificuldades do nosso espírito para sabermos dizer coisas a Deus. Mas ela garante-nos: Não vos preocupeis, Ele vos dará o que dizer”(C 26, 9).
O que importa não é dizer ao Senhor orações compostas, mas deixar transbordar o nosso coração e falar-Lhe com toda a simplicidade e Ele nos dará palavras. Por isso a intenção da Santa é educar o orante para saber usar a palavra com Deus e saber também escutá-Lo. Ela apresenta-nos aqui páginas belíssimas que nos mostram como ela procedia: “Se estais alegres, vede-O ressuscitado… (…) Se aflitas ou no meio de trabalhos, podeis contemplá-Lo na altura em que se retira para o Horto”, etc. Ao lembrarmos um mistério e nele imaginar Jesus, lançando sobre Ele um olhar, acabaremos por saber falar-Lhe com palavras saídas do coração, que são sempre as que Ele mais aprecia.
Se assim permanecermos na oração e ao longo do dia, estamos dentro da substância da oração.
Para S. Teresa orar não é discorrer, mas olhar para Ele, voltando para Ele os olhos, advertir a Sua presença, a Sua Pessoa dentro de nós ou junto de nós. Será isto que despertará em nós palavras para Lhe dizermos.
4- Acostumai-vos, acostumai-vos
Interiorizar a oração não é uma técnica, nem coisa que se faz num dia. É preciso educar a mente e dobrar o espírito. Educar a fé e o amor. Educar o sentido de Deus. Passar da superficialidade e aterrar no poço da humildade e da plena disponibilidade para Ele, dando-Lhe sempre o tempo da oração e estando sempre disponível para Ele na vida, ao longo de todo o dia. Saber esperar, perseverar, sem desistir nem desanimar; e se o não conseguirmos num ano que seja em mais, pois como ela diz: ninguém corre atrás de nós.
No entanto ao recolhimento não se pode chegar senão percorrendo o caminho do trabalho, da luta e da espera.
5- As imagens para falar do recolhimento
Usa a bela imagem da mulher casada e apaixonada que se desfaz em atenções para o esposo. O recolhimento é então a procura dos sentimentos profundos do outro, para entrar em sintonia plena com eles.
Usa também a imagem da alma em extravio, fora de si e presa da exterioridade, angustiosamente necessitada de voltar à própria casa para dar curso à vida. Isto para explicar que o processo de interiorização é lento e difícil. Esforço que é preciso fazer para “tornar a viver na própria casa”.
E, finalmente, a imagem do Mestre amigo, feliz de acolher e comunicar: “pensais que é pouco um tal amigo ao lado?” (C 26, 1)
6- As dificuldades
Não é difícil este exercício do recolhimento? Sim, S. Teresa sabe que não é fácil, pois somos muito dissipados e as nossas potências e sentidos muito veleidosos e dispersos, mas vai dar-nos algumas pistas:
- “Como o quiserdes, O encontrareis”: dentro de nós, no interior ou então ao lado, conforme ajudar mais. O Senhor condescende e disponibiliza-Se a dobrar-Se à nossa situação. Como estivermos assim Ele vem ao nosso encontro e Ele está sempre a olhar para nós e à nossa espera. “Na forma que o necessiteis e Lho peçais, O encontrareis”.
- Se O procurarmos Ele não nos deixará assim tão desamparados e desolados.
- Não se nos dar nada das dificuldades, nem da oposição alheia. O que importa é segui-Lo sempre a Ele.
- Fazer este esforço para perseverar nesta oração de recolhimento, custe o que custar.
- Tomar um livro (leitura meditada) ou uma imagem que ajude a recolher.
Video
Ficheiro
2011-09-22
