Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXXI
S. Teresa vai descrever a oração de quietude. Trata desta oração em mais dois lugares: no Livro da Vida, caps 14-15 (2ª forma de regar o horto) e nas IV Moradas.
Vai falar sobretudo a partir da sua experiência pessoal e também de outras pessoas que ela conhece: “Quero todavia, filhas, declarar – tal como o tenho ouvido dizer, ou o Senhor tem querido dar-mo a entender e porventura para que vo-lo diga – esta oração de quietude” (C 31, 1).
Nesta oração, o Senhor satisfaz aquele pedido que se tinha feito no Pai Nosso: “Venha a nós o Vosso reino”.
Esta é oração sobrenatural, isto é, é o Senhor quem tem a iniciativa. Inicia-se com a oração de quietude a experiência de Deus, da Sua presença e da Sua acção. Nós não a podemos alcançar por nós mesmas, só nos podemos dispor: “É já coisa sobrenatural e que não podemos procurar por nós mesmos, por mais diligências que façamos” (C 31, 2).
A pessoa entende que acontece algo nesta oração que não pode alcançar por sua diligência: “porque é um pôr-se a alma em paz, ou pô-la o Senhor, para melhor dizer, com a Sua presença, como fez ao justo Simeão, porque todas as potências se sossegam. Entende a alma, de um modo muito diverso do entender com os sentidos exteriores, que já está ali junto, mesmo ao pé de Deus, que, com mais um poucochinho, chegará a estar feita uma mesma coisa com Ele por união” (C 31, 2).
A união não será mais que uma intensificação elevadíssima da oração de quietude.
Este conhecimento ou consciência de estar com Deus, de sentir-se mesmo junto de Deus, não vem através dos sentidos; mas vem de dentro, daquilo que a pessoa experimenta. É um conhecimento de amor. O amor de Deus atrai a pessoa, que se vai sentir presa por este amor; sente-se atraída para o Senhor.
Esta consciência da pessoa sentir-se atraída pelo Senhor trata-se de um conhecimento que a inteligência recebe do amor. É uma experiência íntima.
O essencial para a pessoa não é compreender (isso é com os teólogos), mas ter este conhecimento experimental do amor.
Como se comportam as três potências
O mais importante é o que se passa nas três potências: vontade, inteligência e memória.
Nesta oração, esta atracção do Senhor exerce-se sobre a vontade. É uma comunicação que se dá directamente à vontade. Por isso diz a Santa que a vontade se sente presa. A vontade, e com ela a afectividade inteira do orante, ficam subjugadas, “cativas”, dirá a Santa. As outras duas potências (memória e entendimento) ficam livres e os seus movimentos incomodam, por vezes, a pessoa. A vontade sente-se tão feliz neste abraço com o Senhor que não quereria, em verdade, tornar a ser livre. Daí aquela sensação de “paz que se difunde por todo o ser”, aquele “amortecimento exterior e interior”, aquele “deleite e satisfaça”, não obstante o obstáculo levantado pelas outras duas potências que continuam livres.
Ao ser atraída pelo Senhor, a vontade não pode desprender-se d’Ele, mas a inteligência pode distrair-se; e, se a alma a segue, também se distrairá, perturbando o repouso em que a vontade se deleita. E, enquanto a vontade se deleita no Senhor, acontece às vezes que a inteligência, advertindo-o, quisera intervir com o seu trabalho espontâneo, natural, formulando conceitos sobre aquilo que a vontade sente, visto que a sua tendência natural é entender, compreender, auxiliada pela memória. Mas como se trata de uma experiência íntima, produzida por Deus, de natureza inexprimível, a inteligência (entendimento) não pode formular quaisquer conceitos. Se a pessoa se deixa levar por este movimento natural do entendimento e da memória, se teima em formular conceitos, acaba por se distrair da atenção amorosa que absorve a vontade. Por isso, quando a imaginação molestar com distracções, andando o entendimento muito revolto, o que a pessoa tem a fazer, é não fazer caso.
No entanto, quando o Senhor quer atrair mais fortemente a alma a Si, então as repercussões serão de modo intensas na inteligência que até ela ficará tranquila. Quanto mais forte for a atracção na vontade, tanto maior é o “sentido de Deus” na inteligência; inversamente, se a atracção é mais fraca, também a ressonância intelectual é menos forte, e por isso a inteligência, ficando livre, pode distrair-se.
É fácil então compreender que, na oração de quietude, as distracções são possíveis. Para as evitar vai-nos dar S. Teresa valiosos conselhos.
Conselhos
- Há pessoas que quando experimentam esta oração, não quereriam nem respirar nem mover-se para prolongar a doçura que sentem. S. Teresa faz notar que como é oração dada por Deus não se pode conseguir nem prolongar com recursos humanos.
- A pessoa que vive esta oração deve empenhar-se em levar uma vida recolhida, de solidão.
- Quando a pessoa, nesta oração, sente que a inteligência desejaria compreender, reflectir sobre o que se passa, a deixe andar e não se preocupe com ela, porque como já dissemos, se a alma seguir o movimento da inteligência e procurar também compreender, acabará por se distrair. A pessoa deve apenas aplicar-se à atenção amorosa a Deus. Quando muito, se isso ajudar para manter esta atenção amorosa em Deus, com grande suavidade, dizer “uma palavra de tempo a tempo, como quem dá um sopro na vela [isto é, infundir amor (sopro) à vontade (vela)]” (C 31, 7). Não é tempo de raciocinar, mas tempo de estar em repouso. Se a pessoa não se recusa a seguir a inteligência, acabará por perder o que o Senhor lhe está a dar. O trabalho que aqui é pedido à pessoa é o de esforçar-se por estar tranquila. O dever da pessoa é o de permanecer recolhida sem formular conceitos. É o de saber receber.
- A pessoa que é favorecida com esta oração deve esforçar-se por viver numa grande fidelidade e generosidade, com um grande espírito de disponibilidade e serviço do próximo, num grande desprendimento de todas as coisas e de si própria. Caso contrário “Se Ele vê que, metendo-lhe como em casa o reino do Céu, ela se torna para a terra, não só não lhe mostrará os segredos que há no Seu reino, mas serão poucas as vezes em que lhe fará este favor e por breve tempo” (C 31, 11).
- Quando a pessoa está nesta oração não é ocasião para persistir em pronunciar preces vocais. Quando o Senhor atrai a pessoa a Si, devem deixar-se as preces vocais. Aquelas que constituem o nosso dever (como o Ofício) há que se esforçar sempre por dizê-las e rezá-las.
Ao longo do dia
A oração, se é verdadeira, reverte na vida, tem que alcançar toda a vida do orante. Pois se a oração é trato de amizade, e se amizade é verdadeira, não se é amigo aos bocados… Esta forma de oração de quietude que descrevemos, é a que se verifica no tempo destinado à oração, mas há uma segunda forma que perdura e continua mesmo durante o dia, no meio das ocupações quotidianas.
Enquanto se presta atenção ao serviço externo do Senhor no cumprimento das obrigações habituais, a vontade conserva-se unida a Ele e o afecto fica concentrado em Deus. A pessoa experimenta que lhe “falta o melhor”, porque a vontade, continua unida a Deus” (C 31, 4). Mas isto mesmo acaba por servir de força unificadora, de modo que “vida activa e contemplativa” andam juntas. Amor e acção andam aqui juntos: “De todo em todo se serve então ao Senhor, porque a vontade se fica em seu ofício sem saber como age e em sua contemplação, e as outras duas potências servem no que é ofício de Marta; assim ela e Maria andam juntas” (C 31, 5).
Isto é o que S. Teresa explica da oração sobrenatural. A oração de quietude é só o princípio da contemplação. As outras formas de contemplação, não serão senão uma intensificação profunda desta e todos somos chamados a ter este efectivo “sentido de Deus” que orienta a nossa alma para o Senhor.
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Ficheiro
2011-09-22
