Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXXII
Este é um capítulo central do Caminho. A Santa Madre trata primeiro da oferta da vontade e depois fala do que se ganha com esta oferta, pois como ela diz: “Antes de vos dizer o que se ganha, quero declarar-vos o muito que ofereceis, não vades cair depois no engano, dizendo que não o entendestes. Não seja como a algumas religiosas que não fazemos senão prometer e, como não o cumprimos, há esta desculpa de dizer que não se entendeu o que se prometia” (C 32, 5).
A doação de Deus – o Seu “Reino” – é exigência de doação porque é capacitação para fazê-lo. Jesus dá-nos o Seu Reino. E, como consequência, quer que demos tudo ao Pai, a nossa pessoa. Jesus dá-nos o Seu Reino (oração de quietude) para que em nós se faça a Sua vontade. Deus quer que Lhe ofereçamos a nossa vontade, como Lha ofereceu Jesus no Gétsemani, para que faça a Sua vontade em nós.
A escalada das três petições foi levando a atenção de Teresa a partir da oração vocal (invocação “Pai”), ao recolhimento (interiorização dessa invocação) e ao ingresso na quietude contemplativa (“venha o vosso reino”).
Por fim esta escalada chega ao cume: fazer o dom de si, dizendo “faça-se a Tua vontade”, é abrir-se ao dom da contemplação perfeita, o mesmo é dizer, pleno dom d’Ele, em amizade consumada.
Por sua vez, iniciar a contemplação perfeita é chegar à “fonte da água viva” anunciada e desejada desde os capítulos anteriores (cap. 19). Chegar à fonte é entrar na misteriosa experiência da “união”.
Este capítulo responde a duas coisas:
- O “que oferecemos”, isto é, que é a vontade do Pai
- O que ganhamos nisto, o que conseguimos
Em que consiste a vontade do Pai?
Agora digamos “faça-se a Tua vontade…”
Jesus é a “definição” da vontade do Pai. Olhando para Jesus sabemos qual a vontade do Pai. A vontade de Deus não é algo abstracto, difícil de conhecer. Isto será desenvolvido no capítulo 33.
Dizer ao Pai “faça-se a Vossa vontade” é oferecer-Lhe a nossa. O paradigma perfeito desta petição do Pai Nosso é a oração de Jesus no horto. Dizer ao Pai que se faça a Sua vontade leva consigo a renúncia à própria: “Que se faça a Tua vontade e não a minha”.
Isto não é fácil. S. Teresa teve que ultrapassar também esta dificuldade e muitos medos, mas acabou por chegar o momento em que o fez. Para S. Teresa neste acto de entrega está tudo. È aqui muito necessária a determinada determinação.
Por isso, neste capítulo S. Teresa tira as consequências de vida para nós: darmo-nos. “Dêmos-Lhe a jóia de uma vez para sempre” (C 32, 8) sem condições, livres e desapegadas de tudo. Equivale a pôr na mão do Senhor carta-branca para que programe e realize a nossa vida. Havemos de dar ao Senhor a nossa vontade de todo, para que Ele faça a Sua vontade em tudo. Sem isto nunca haverá a água viva da fonte.
Neste capítulo sintetiza o alcance do conteúdo de todo o Livro do Caminho: “Todos os avisos que vos tenho dado neste livro vão dirigidos a este ponto de nos darmos de todo ao Criador, e pôr a nossa vontade na Sua e desapegar-nos das criaturas” (C 32, 9).
Deus dá, realiza a Sua vontade no homem segundo “o ânimo que vê em cada um e o amor que tem a Sua Majestade… porque a medida do poder levar grande cruz, ou pequena, é a do amor” (C 32, 7). Esta capacidade para nos darmos ao Senhor vem do facto de, por antecipação, nos dar o Seu Reino. Sem isso, não seremos capazes de Lhe dar, efectivamente, a nossa vontade.
O ganho
Dar-se… para receber o dom da contemplação perfeita
- Chega-se “com brevidade” ao fim do caminho, “a beber da fonte da água viva”.
- É disposição para receber mais: “Habilita-se a receber grandes mercês” (C 32, 12). Deus transborda sobre a pessoa quando encontra nela esta oblação de si mesma, como veremos já a seguir.
Nesta oblação de si própria, a pessoa não está sozinha. Quando o orante faz o dom de si na oferta da sua vontade, Jesus está no meio, oferece-a por nós (n. 1), faz de nosso embaixador (n. 3), supre e robustece as nossas cobardias e deficiências. Foi Ele quem previamente pediu o “Reino” para nós. Ele oferece quando nós oferecemos. Há que chegar a esta profunda comunhão de sentimentos com Jesus, senão, a nossa oração permanecerá muito pobre: «Seja feita a Vossa vontade; e como é feita no Céu, assim se faça na terra». Bem fizestes, nosso bom Mestre, em fazer esta última petição, para que possamos cumprir aquilo que dais em nosso nome; porque de certo, Senhor, se assim não fora, seria impossível, me parece. Mas fazendo o Vosso Pai aquilo que Lhe pedis, de nos dar aqui o Seu reino, eu sei que Vos deixaremos ficar por verdadeiro em dardes o que dais por nós; porque, feita a terra céu, será possível fazer-se em mim a Vossa vontade. Mas sem isto, e em terra tão ruim como a minha, e tão sem fruto, eu não sei, Senhor, como seria possível. É coisa bem grande o que ofereceis!” (C 32, 2).
A contemplação perfeita é simplesmente o estado resultante de se ter feito o dom de si próprio ao Pai; de tê-lo feito a partir da raiz da vontade, de tê-lo feito em Cristo, em comunhão com os Seus sentimentos, ratificando e personalizando a oferta antecipada que Ele faz da nossa vontade ao ensinar-nos a rezar. Em síntese, a contemplação perfeita é a graça que sobrevém ao facto de se ter dado de todo a Ele: “Porque tudo o mais estorva e impede de dizer: «Fiat voluntas tua»: cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade de todos os modos e maneiras que vós, Senhor meu, quiserdes. Se quereis com trabalhos, dai-me esforço e venham; se com perseguições e enfermidades e desonras e necessidade, aqui estou, não voltarei o rosto, Pai meu, nem é razão para voltar as costas. Pois Vosso Filho deu em nome de todos esta minha vontade, não é razão que falhe por minha parte; mas sim me façais Vós mercê de me dar o Vosso Reino para que eu possa fazê-lo, pois Ele mo pediu e disponde em mim como em coisa Vossa, conforme a Vossa vontade. Ó irmãs minhas, que força tem este dom!” (C 32, 10-11).
Até ao fim do capítulo, vai Teresa apontar os três aspectos fundamentais da contemplação perfeita:
1- A maior assimilação a Cristo
2- A união profunda com Deus
3- Desenvolvimento sem fim da contemplação mística
1- Quando o orante perdeu os seus medos e se dá com toda a determinação a Deus, dizendo ao Pai: “Faça-se a Tua vontade”, está bem consciente que vontade vai ser esta. Não será certamente a de uma minguada felicidade terrena. Diz a Santa Madre: “Quero-Vos agora avisar e recordar qual é a Sua vontade. Não tenhais medo que seja dar-vos riquezas, nem prazeres, nem honras, nem todas estas coisas de cá da terra. Não vos quer tão pouco, e tem em muito o que Lhe dais, e vo-lo quer pagar bem, pois ainda em vossa vida vos dá o Seu reino. Quereis ver como Ele procede com os que Lhe dizem isto deveras? – Perguntai-o a Seu glorioso Filho, que Lho disse aquando da oração do Horto.6 Como foi dito com determinação e com toda a vontade, vede como o Pai a cumpriu bem n’Ele, no que Lhe deu de trabalhos e dores e injúrias e perseguições; enfim, até que se Lhe acabou a vida, com a morte da cruz. Pois vedes aqui, filhas, o que deu Àquele a quem mais amava, por onde se entende qual é a Sua vontade. Assim, são estes os Seus dons neste mundo” (C 32, 6).
A vontade de Deus vem até nós continuamente, de manhã à noite, mas não sempre de modo que agrade à natureza. São raras as grandes provações, mas as pequenas alfinetadas trazidas pelas circunstâncias, pela saúde vacilante, pelas diferenças de carácter, pelos atritos nas relações fraternas, etc., essas são, pelo contrário, bastante frequentes. Para isto introduz-nos S. Teresa no regime do amor: “Dá conforme ao amor que nos tem: aos que mais ama, dá mais destes dons; àqueles que menos ama, dá menos, e conforme ao ânimo que vê em cada um e o amor que têm a Sua Majestade. A quem O amar muito, verá que pode padecer muito por Ele; ao que O amar pouco, pouco. Tenho para mim que a medida de se poder levar cruz grande ou pequena, é a do amor” (C 32, 7). É nas coisas pequeninas que já referimos, da vida quotidiana, que isto se cumpre.
2- Só na união se realiza o término da “santificação” do orante. Será santificação, não pelos seus próprios esforços, mas pela presença do Deus Santo nele. Dizer faça-se, “se vai com a determinação com que deve ir, não pode menos do que trazer o Todo-Poderoso a ser um com a nossa baixeza e transformar-nos em Si, e fazer uma união do Criador com a criatura” (C 32, 11). A oração de quietude conduz à união plena.
3- E, a partir de agora, abrem-se horizontes sem limites para a contemplação: “Porque, não contente de ter feito esta alma uma só coisa consigo por a ter já unido a Si mesmo, começa a ter as Suas delícias com ela, a descobrir-lhe segredos, a gostar que ela entenda quanto tem ganho e conheça alguma coisa daquilo que Ele tem para lhe dar. Faz-lhe ir perdendo estes sentidos exteriores, para que nada a ocupe. Isto é arroubamento; e começa a tratar de tanta amizade, que não só a torna a deixar a sua vontade, mas com ela lhe dá a Sua…” (C 32, 12).
Aqui o contemplativo entra no reino da graça, do amor e da gratuidade absoluta. Fica à pessoa a grande dívida de servir. Todas estas graças são para amar sem medida, levar a cruz como Cristo.
E deixa a Santa Madre o seu conselho final: “Dou-vos este aviso: não penseis chegar aqui por força e diligências vossas que é por demais; pois, se antes sentíeis devoção, ficareis frias; mas com simplicidade e humildade que é a que tudo vence, dizer: «fiat voluntas tua» (C 32, 13).
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Ficheiro
2011-09-22
