Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXXIV
Nos capítulos anteriores deu-nos S. Teresa uma importante lição sobre a oração de recolhimento. Agora a Eucaristia é um convite a entrar no interior de nós com o Senhor que entra dentro de nós para nos ajudar, animar e sustentar a fazer a Sua vontade. S. Teresa oferece-nos aqui a melhor ocasião para realizar, inclusivamente para sacramentalizar a interiorização do recolhimento.
As experiências eucarísticas de S. Teresa
S. Teresa evoca as suas próprias experiências eucarísticas, referindo que:
- Para ela (embora fale em terceira pessoa), este Pão foi muitas vezes mantimento e medicina para o corpo: “Pensais que não é mantimento ainda mesmo para estes corpos, este manjar santíssimo, e grande medicina até para males corporais? Eu sei que o é, e conheço uma pessoa de grandes enfermidades que, estando muitas vezes com fortes dores, como com a mão se lhe tiravam e ficava boa de todo” (C 34, 6).
- A fé viva com que vive o encontro com Jesus na Eucaristia. Ela estremece visceralmente, quase a nível biológico, diante da Majestade transcendente, velada no Sacramento. Ria-se para si daqueles que o desejam ver com os olhos do corpo, como os que O viram na Galileia, pois ela fazia a experiência de que Ele é o mesmo que está no Sacramento da Eucaristia e está tão próximo e acessível.
- Muitas das suas experiências eucarísticas vêm relatadas no Livro da Vida: V 38, 19-21; V 30, 14; V 39, 22, V 9, 2.
Estas vivências de S. Teresa foram geradoras de fortes convicções doutrinais: Referendaram a sua fé no mistério e conferiram tom e poder especial à sua teologia transmissora da mensagem eucarística.
A presença real:
O mistério do Senhor “disfarçado”
Na Eucaristia Jesus não está como estava na Galileia há vinte séculos, nem como está agora glorioso no Céu. Nem sensível e palpável, nem glorificado e revestido de majestade. Na Eucaristia está “disfarçado”. Por isso podemos dizer que mais próximo e acessível, pois como diz S. Teresa, não foi por muitos O verem com os olhos corporais no Seu tempo que acreditaram n’Ele e agora glorificado é impossível vê-Lo com os olhos corporais.
Assim diz ela que é melhor até para nós que esteja assim “disfarçado”, porque como escreve ela: “Debaixo das aparências daquele pão está mais acessível; porque, se o rei se disfarça, parece que nada se nos daria de conversar com ele sem tantas cerimónias e respeitos; parece estar obrigado a sofrê-lo, pois se disfarçou” (C 34, 9). E ainda: “Se não nos queremos fazer parvos e cegar o entendimento, não há que duvidar que isto não é representação da imaginação, como quando consideramos o Senhor na cruz, ou noutros passos da Paixão, que representamos em nós o que se passou. Isto passa-se agora e é inteira verdade, e não há para que O ir buscar a outra parte mais longe; mas, visto que sabemos que, enquanto o calor natural não consome os acidentes do pão, está connosco o bom Jesus, cheguemo-nos a Ele” (C 34, 8).
Presente e comunicante
Ainda que “disfarçado” Ele está na Eucaristia para entrar em comunhão directa e pessoal com cada um de nós. Ele está não só para nos comunicar as Suas grandezas, mas para que nos acheguemos a Ele, para Se comunicar de pessoa a pessoa. Apesar de estar sob o véu da fé, procura e espera a comunicação pessoal.
Jesus está sacramentado para Se revelar, aprofundando e prolongando a revelação iniciada no baptismo: “Porque, àqueles a quem vê que se hão-de aproveitar de Sua presença, Ele se descobre; e, ainda que O não vejam com os olhos corporais, tem muitos meios de se mostrar à alma por grandes sentimentos interiores e por diversas vias” (C 34, 10).
Nesta intercomunicação S. Teresa sublinha um aspecto importante: tanta mais intercomunicação haverá quanto maior a fé e o amor com que se recebe Jesus na Eucaristia.
Estes actos de fé e de amor são actos de vontade, por isso estão ao nosso alcance realizá-los:
- Quanto à fé, cremos porque queremos crer. Quando comungamos devemos recolher os nossos sentidos, concentrar toda a nossa atenção no acto de fé que realizamos: ver realmente que Jesus entra verdadeiramente em nós para ser a nossa companhia. Não é um acto imaginado como na meditação, mas uma presença real. Por isso não é o momento de rezar com imagens, como diz S. Teresa, mas ver Jesus realmente presente em nós e conversar com Ele. Temos o hóspede em nossa casa. Conversemos com Ele.
- Quanto ao amor, devemos cultivar juntamente com a fé, um amor ardente (não tem a ver com os sentidos), ou seja, um amor de desejo, de arrependimento, de união… Tal como o acto de fé, este é também um acto da nossa vontade: é o momento de dizer a Jesus que queremos fazer a Sua vontade e Ele, no momento da comunhão, tem uma graça especial para nos comunicar esta capacidade. Por isso devemos pedir disposições do nosso coração a Jesus para nos deixarmos conduzir pelas inspirações do Espírito Santo, para sermos generosas em servir as Irmãs, em estar dispostas a aceitar a Sua vontade e realizá-la, seja ela qual for e como se apresentar, etc.
Esta intercomunicação, este diálogo culmina no convite a “tratar” e a “negociar” com Jesus, pois Ele está totalmente disponível para nós, está “tratável”, como diz a Santa Madre. Que acontece nesta intercomunicação da Eucaristia?
1- Interioriza-se o trato
2- Existe todo o espaço para a intercessão: negociar com o Senhor
1- Diz a Santa Madre: “Mas acabando de receber o Senhor, pois tendes a própria pessoa diante de vós, procurai cerrar os olhos do corpo e abrir os da alma, e olhai para o vosso coração; eu vos digo, e outra vez o digo e muitas o quereria dizer, que, se tomais este costume todas as vezes que comungardes, e procurardes ter tal consciência que vos seja lícito gozar amiúde deste Bem, não vem tão disfarçado que, como já disse, de muitas maneiras não se dê a conhecer conforme ao desejo que temos de O ver; e tanto O podeis desejar, que de todo se vos descubra” (C 34, 12).
2- Negociar é interceder: “Ficai-vos com Ele de boa vontade; não percais tão boa ocasião de negociar, como é a hora depois de ter comungado. Se a obediência, irmãs, vos mandar outra coisa, procurai deixar a alma com o Senhor; porque, se logo levais o pensamento a outra coisa e não fazeis caso, nem tendes em conta Quem está dentro de vós, como se há-de dar a conhecer?” (C 34, 10).
Portanto, para S. Teresa comer o maná da Eucaristia, é entrar em profunda comunhão pessoal com Cristo, que através da Eucaristia aquilata a nossa fé n’Ele, revela-Se-nos mais e mais, e introduz-nos no diálogo amoroso da oração de recolhimento.
Video
Ficheiro
2011-09-22
