Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXXVI
S. Teresa orando as petições do Pai Nosso, emparelhou numa espécie de díptico, a terceira e a quarta: para aceitar e fazer a vontade de Deus (3ª), necessitamos o pão de cada dia da Eucaristia (4ª).
Agora reúne num novo díptico as petições quarta e quinta: a quem pediu e recebeu o Pão da Eucaristia, “todo lhe é fácil”, não só pedir perdão a Deus, mas garantir-Lhe que também nós perdoamos aos nossos irmãos.
Assim, a oração faz um percurso em três planos decisivos para a vida do cristão do orante: o mistério da vontade de Deus, o mistério da Eucaristia, e o problema do perdão.
Com este último – perdão – descemos ao mais realista e prosaico da vida. Prosaico, mas não secundário ou irrelevante. O facto de o perdão estar colocado ao nível do Pão da Eucaristia e da imersão na vontade de Deus, mostra a sua grande importância.
Nesta petição do Pai Nosso “perdoai… assim como nós perdoamos” dá-nos o Senhor uma lição magnífica de caridade fraterna. Este capítulo 36 trata de um assunto muito belo: o perdão dos nossos pecados, ou, para falar dum modo mais positivo, a misericórdia de Deus que deve reflectir-se também em nós: isto é, aquela benevolência infinita que, não obstante as nossas misérias, nos ama sempre, e que devemos imitar enchendo-nos de benevolência para com os outros, ainda que às vezes no-la retribuam com desgostos.
Neste capítulo S. Teresa vai desenvolver este tema do perdão em relação à honra, aos pontos de honra, à “negra honra” e o nosso apego a ela. Para S. Teresa este tema é de suma importância, pois ela sabe quanto este fenómeno da honra é uma das engrenagens mais bem montadas do nosso egoísmo, espécie de mecanismo-trinco que permite ao homem fechar-se em si mesmo e nos seus direitos, sem possibilidade de extravasar-se e transcendê-los. Vive como que uma psicose de se sentir ofendido, desvalorizado, menosprezado… Para S. Teresa esta honra é o que chamamos hoje personalidade, prestígio, reputação, dignidade, estima, realização pessoal, eu, direitos da pessoa, cuidar da própria imagem… Palavras e valores, parapeito da personagem que cada um pensa desempenhar na vida.
Neste capítulo vai dar S. Teresa uma lição que une três partes: oração, honra, perdão…
Oração e pontos de honra
O grande obstáculo, na óptica de S. Teresa, que ao nosso orgulho impede a passagem ao perdão incondicional é o ídolo da honra.
Pode haver, por vezes, na vida, situações de grandes calúnias, injúrias. Mas estas são coisas raras. As que S. Teresa aqui vai tratar são certas pequenas coisas que há na vida, que nos tocam mais de perto e são menos raras: trata-se em regra das leves injustiças e dos atropelos que se recebem na convivência: incompatibilidades de carácter, faltas de atenção, de delicadeza, de educação, etc. São ocasiões que vêm de fora, do ambiente em que nos encontramos, mas que não raro vêm também de dentro, do nosso amor-próprio, ou, como diz a Santa, dos “pontos de honra”, pois que temos grande amor à nossa pessoa. Como proceder?
- Não convém dar atenção a estas coisas: devemos absolutamente passar por cima delas, inverter este engano de valores e não diminuir em nada a nossa benevolência, a nossa bondade para com quem as produz. Devemos querer bem aos outros, não porque nos sejam úteis, agradáveis, simpáticos, etc., mas porque eles são de Deus. Como diz a Santa: “Não façam caso dumas coisitas a que chamam agravos; parece que fazemos como as crianças, casas de palhinhas, com estes pontos de honra!” (C 36, 3). Golpe certeiro! Será que não haverá aqui nas pessoas que assim se incomodam uma situação de imaturidade, de carácter adolescente, com uma hipersensibilidade cheia de susceptibilidades a ofensas, agravos, injúrias, etc?” Diz a Santa Madre: “Entender que coisa é a honra, e em que está em perder a honra” (C 36, 5). E ainda: “E assim é, ao pé da letra; porque proveito da alma e isto a que o mundo chama honra, nunca se podem juntar. Coisa de espantar é como o mundo anda ao revés. Bendito seja o Senhor que nos tirou dele!” (C 36, 3).
Há que fazer todo o esforço para minimizar estas injúrias e agravos.
S. Teresa, para resolver este problema, dá então a solução radical: aterrar no plano cristológico: “Ó Senhor, Senhor! Não sois Vós o nosso Modelo e Mestre? Sim, por certo. Pois, em que esteve a Vossa honra, honrador nosso? Não a perdestes, por certo, em ser humilhado até à morte. Não, Senhor, senão que a ganhastes para todos” (C 36, 5).
Também aqui, como em qualquer outro sector da ascese teresiana, Cristo constitui a suprema motivação.
Oração e perdão:
Critério de autenticidade
Diz S. Teresa: “Jesus teria podido apresentar outras coisas a Seu Pai, e dizer: «perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muita penitência, ou porque rezamos muito ou jejuamos, e deixámos tudo por Vós, e Vos amamos muito». Também não disse: «porque perderíamos por Vós a vida»; e – como digo – outras coisas que poderia dizer, mas disse somente: «porque perdoamos»” (C 36, 7). Jesus quer que estejamos prontas a perdoar as ofensas recebidas. E com isto pede-nos uma prova da nossa benevolência. É aqui que Ele nos espera. É nesta atitude que Ele quer encontrar-nos sempre, pois perdoar é um grande acto de caridade.
Há uma grande desproporção entre o perdão de Deus e o nosso: o muito que Deus nos perdoa e o muito que a nós nos custa perdoar: “Mas, quanto deve ser estimado pelo Senhor este amar-nos uns aos outros! Porventura o disse porque, como nos conhece por tão amigos desta negra honra e sabe que é a coisa mais difícil de alcançar de nós, viu ser a mais agradável a Seu Pai e assim Lha oferece da nossa parte” (C 36, 7).
Sempre apoiada no Pai Nosso, S. Teresa procede nestes últimos capítulos a um discernimento da contemplação atendendo à vida moral, aos “efeitos” que produz na pessoa. Sempre valorizou a contemplação pela sua força renovadora e discerniu a autenticidade da oração pela vida do orante. Estes últimos capítulos são um modelo de discernimento espiritual: a vida é sempre a instância definitiva da verdade da contemplação.
Perdoar é o principal objectivo pedagógico deste capítulo. O perdão é uma ponte estendida da oração à vida de cada dia, ou seja, uma ponte desde o mais profundo e visceral da pessoa (sentimentos e ressentimentos) ao mais comum e corrente da vida: comunidade e relações humanas a todos os níveis.
Por isso faz sentido a pergunta: a oração verdadeira é ou não um gerador de perdão incondicional e de amor? Que capacidade e que facilidade de perdão real produz a oração no orante?
Ao responder vamos ter em conta duas situações concretas:
- Os orantes perfeitos, ou seja, os que estão na verdadeira contemplação: estes, é impossível que titubeiem no momento de perdoar. Pois a verdadeira contemplação realiza uma cura radical do coração nas relações com os irmãos. Os que têm contemplação perfeita “apreciam e desejam” as contrariedades e dificuldades, os “trabalhos” (C 36, 9), “não se estimam a si mesmos em nada”, pesa-lhes que os “tenham em mais do que o são” (C 36,10).
- Os que estão a meio caminho, mas que já vivem o encontro real com Cristo: embora não cheguem à “bem-aventurança do perdoar”, é inquestionável a prática do perdão, ao menos com determinação: “Estar determinadas a sofrer injúrias e sofrê-las embora seja sentindo pesar, digo que muito depressa tem esta disposição quem já recebeu esta mercê do Senhor, de chegar à união” (C 36, 11).
Segundo S. Teresa, a oração autêntica é bálsamo e é pacificadora, produz por si mesma uma cura profunda dos sentimentos e ressentimentos que se anidam no coração.
Este é para S. Teresa o “grande sinal” ou como ela diz: “Efeitos que produz o bom Espírito”: espírito de perdão, fortaleza para encaixar os golpes, facilidade para tirá-los da memória e do coração, “moldar-se” até “ficar muito bem com quem a injuriou” (C 36, 12). Em termos categóricos: quem não constate esse “efeitos”:
- “Não se fie muito da sua oração” (C 36, 8)
- “Se não tem estes efeitos e sai muito forte neles da oração, creia que não era mercê de Deus (a sua oração), mas alguma ilusão…” (C 36, 11)
- Quem já está adiante na oração, “veja como vão crescendo estes efeitos”, e se não os vir “tema muito e não creia que esses regalos são de Deus”. Em síntese, não é autêntica a oração.
Teresa sabe que a oração aterra sempre na vida e, por isso, será a vida do orante a discernir a sua oração.
Video
Ficheiro
2011-09-22
