Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXXVIII
À medida que a pessoa cresce na contemplação e na união com Deus, decresce o pavor das provações e tentações, precisamente porque sabe cada vez melhor que é no sofrimento que o amor se desenvolve.
A petição “não nos deixeis cair em tentação” poderia traduzir-se assim: “Não permiti, Senhor, que eu venha a sucumbir à tentação”. A pessoa não pede para ser libertada das tentações, mas que não se deixe enganar por elas.
O demónio, que conhece as complicações e fraquezas da nossa natureza, serve-se delas para nos impedir de reconhecermos a tentação e, quando menos pensamos, já caímos nela.
Quando uma pessoa está entregue toda ao Senhor, com sinceridade, com verdade, com pureza de intenção, eliminou o amor-próprio, não se deixa enganar. Mas quando há amor-próprio, a nossa natureza terá muitas dificuldades para distinguir claramente as tentações.
Por isso o que devemos pedir ao Senhor é que nos liberte do engano, mas não da provação, porque ela é necessária ao nosso amadurecimento espiritual.
As tentações dos contemplativos
As palavras do Pai Nosso oferecem então a ocasião para falar deste outro efeito da contemplação: as “tentações” das que os contemplativos pedem a Deus ser livres e das que não.
Que entendem e que pedem os contemplativos quando rezam que o Pai não os deixe cair na tentação?
Diz S. Teresa: os contemplativos não pedem que Deus os livre das tentações, perseguições, “antes os desejam, e os pedem e os amam”. “É outro efeito muito certo e grande de ser espírito do Senhor e não ilusão, a contemplação e mercês que Sua Majestade lhes der” (C 38, 1).
O que ela quer falar é de uns inimigos subtis que nos “bebem o sangue e acabam com as virtudes” e que nos “escondem a luz e a verdade” (C 38, 2).
Eis aqui a exposição que ela faz por meio de exemplos:
- Acreditar que a delícia e o gosto sentidos provêm de Deus, quando na verdade é o demónio que os produz. Muitas vezes estes gostos e regalos brotam da nossa psicologia dobrada sobre si mesma ou então do “anjo da mentira”. S. Teresa não liga muito a esta tentação. Se a pessoa é humilde e sincera não pode trazer-lhe dano, porque, julgando que vêm de Deus, ficar-Lhe-á muito reconhecida e o inimigo, vendo que perde no negócio, acabará por deixá-la em paz. S. João da Cruz aconselhará algo mais radical, cortando o mal pela raiz: não dar importância às graças, gostos e delícias que se sentirem na oração; porque se vêm de Deus, o Espírito age na pessoa, independentemente da importância que lhes der e na vida do orante se verão os frutos; se vêm do mau espírito, a pessoa que lhes dá importância, deixa a porta escancarada à sua acção e a grandes males. Por isso nunca pretender tais graças, nem deter-se no seu sabor e saber-se sempre indigna delas.
O remédio que ela aponta é então:
- A humildade sincera
- A intenção recta (“Deus olha à nossa intenção” e basta-Lhe)
- A fidelidade do próprio Deus: esta garantia da fidelidade de Deus para os rectos de coração será a saída libertadora do erro. Tirará o orante dos truques da própria psicologia ou das ilusões do anjo da mentira.
- Outra tentação mais subtil, grave e comum é acreditar que se têm virtudes não as tendo, ou dito de outra forma: a solapada deformação da imagem que o orante tem de si mesmo.
Enquanto na primeira tentação a pessoa julga receber, na segunda julga dar, e dar ao Senhor. Julga ter direitos sobre o Senhor e que Ele está obrigado a pagar-lhe; esta falta de humildade e de verdade faz com que a pessoa, convencida de possuir a virtude, se deixe de esforçar por adquiri-la e assim se enfraqueça cada vez mais. Pode realmente dar-se o caso de que o Senhor nos deu uma virtude, mas não esqueçamos que Ele “nos pode tornar a tirá-la” para que nos conheçamos e humilhemos. Diz ela: “Outras vezes me parece ter muito ânimo…; Vem outro dia em que não me acho com ele para matar uma formiga por Deus” (C 38, 5). E conclui, dizendo: “Nada possuímos que não tenhamos recebido” (C 38, 6).
Para remédio desta tentação recomenda:
- Muita oração
- Um grande desejo de andar na verdade: “Espírito que não vá fundado em verdade, mais o quereria eu sem oração” (V 13, 16).
- Humildade: humildade “é andar em verdade”. Por isso ela recomenda que, “no princípio e fim da oração, por subida contemplação que seja, acabai sempre no conhecimento próprio” (C 39, 5), evitando assim alimentar em demasia uma grande apreciação de si mesmo, pois a virtudes são dons do Senhor.
- Acreditar que se possui a virtude, sem ver a prova real na vida (C 38, 7). Diz a Santa Madre: “Eu vos aviso: não façais caso destas virtudes, nem pensemos que as conhecemos mais que de nome, nem que o Senhor no-las deu, até que vejamos a prova; pois acontecerá que, a uma palavra que vos digam do vosso desagrado, caia por terra a vossa paciência. Quando sofrerdes muitas vezes, louvai a Deus que vos começa a ensinar esta virtude, e esforçai-vos a padecer, porque é sinal que com isso quer que Lha pagueis, pois vo-la dá, e não a tenhais senão como em depósito, como já ficou dito” (C 38, 7).
O remédio que ela nos deixa é:
- Não ficar apenas, na oração, no desejo de ter virtudes: para que haja verdadeira virtude é preciso passar ao acto. Basta exercitar-se numa, pois trabalhando para adquirir uma, trabalhamos para a aquisição de todas.
- E conclui S. Teresa, dando o conselho: “O verdadeiro humilde sempre anda duvidoso das virtudes próprias, e muito habitualmente julga mais seguras e de mais valia as que vê no próximo” (C 38, 9).
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Ficheiro
2011-09-22
