Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XXXIX
Neste capítulo 39, S. Teresa continua a falar das tentações dos contemplativos, que aparecem disfarçadas:
- Falsa humildade que lança a pessoa na inquietação. Tem aparência de virtude, mas não o é, porque a humildade que não for acompanhada de confiança não é verdadeira humildade. No capítulo anterior pecava-se contra a humildade e verdade atribuindo a si aquilo que não se tinha. Agora neste capítulo peca-se, não reconhecendo os dons de Deus, do Seu amor, do Seu acolhimento benéfico.
Isto é falsa humildade, depressiva e desassossegada, que conduz também o orante a uma postura de mentira diante de Deus; ou seja, a pessoa vive como que obcecada pela visão do próprio pecado, esquecendo de que, apesar dele, continua a ser amada por Jesus. Há na verdade sentimentos que têm a aparência de humildade porque dão relevo à nossa miséria, à nossa pequenez; mas desacompanhados da confiança, não são humildade verdadeira. Quando no nosso íntimo há um pouco de depressão, deixamos a porta aberta ao inimigo que entra para nos perturbar, pois sabe que a perturbação diminui a nossa capacidade de amor e este é o desejo do mau espírito. Então ele usa o medo, o abatimento, a inquietação.
A verdadeira humildade não inquieta nunca, é pacificadora, põe as coisas no seu devido lugar, ou seja, na verdade: “Algumas vezes poderá ser humildade e virtude o terdes-vos assim por tão ruins e outra grandíssima tentação! Porque eu passei por isso, o conheço. A humildade não inquieta, nem desassossega, nem alvorota a alma, por grande que seja; mas vem com paz e gozo e sossego. Ainda que alguém, por se ver ruim, entenda claramente que merece estar no inferno, e se aflija, e lhe pareça de justiça que todos o hajam de aborrecer, e não ouse quase pedir misericórdia, se for boa a humildade, esta pena traz em si uma suavidade e contentamento que não nos quereríamos ver sem ela. Não alvorota nem aperta a alma; antes a dilata e torna apta para melhor servir a Deus. Essa outra pena tudo perturba, tudo alvorota, revolve toda a alma; é penosíssima. Creio que pretende o demónio que pensemos ter humildade e, se pudesse, a voltas com isto, desconfiássemos de Deus” (C 39, 2).
O remédio:
- Diz a Santa Madre: “Quando assim vos achardes, atalhai o pensamento da vossa miséria o mais que puderdes, e ponde-o na misericórdia de Deus, no que Ele nos ama e padeceu por nós. E, se é tentação, até nem isto podereis fazer, pois o demónio não vos deixará sossegar o espírito nem pensar em nada, senão naquilo que mais vos afligir: Muito será se conhecerdes que é tentação” (C 39, 3).
- O preceito da humildade verdadeira é: não atribuamos a nós aquilo que não é nosso, mas não desconheçamos aquilo que se nos deu e efectivamente existe em nós. É por aqui que vai o “andar em verdade”.
- Penitências excessivas
Ao mencionar esta tentação, S. Teresa leva-nos a compreender que no fundo estas penitências exageradas fazem-se para darmos a entender que somos e fazemos mais que os outros. As penitências só fazem sentido se estão destinadas a acompanhar a doação interior. Dizia o P. Gabriel de S. Maria Madalena que havia uma mestra de noviças que quando via uma noviça afastar-se da obediência ou praticá-la mal, retirava-lhe logo todas as penitências, para lhe fazer compreender que a coisa principal e mais importante era o dom da vontade própria. A penitência corporal deve acomodar-se às necessidades do nosso trabalho e às condições do nosso organismo. Há que ser discreto, equilibrado ao praticar as penitências.
O remédio:
- Fazer tudo sob a obediência. O que estiver fora dela, nunca agradará ao Senhor.
- Arrogarmo-nos de uma segurança que não possuímos
Esta tentação é o oposto daquela que deprime excessivamente a pessoa com a consciência da sua pequenez. Agora, ao contrário, a pessoa encontra-se demasiado segura de si e julga não mais poder cair. Diz a Santa: “Uma segurança em nos parecer que, de maneira nenhuma, voltaríamos às culpas passadas e prazeres do mundo; «já compreendi e sei que tudo acaba e que mais gosto me dão as coisas de Deus».
Para isto ela dá o seguinte remédio:
- “Nunca andeis tão seguras que deixeis de temer o poderdes tornar a cair, e guardai-vos das ocasiões” (C 39, 4)
Ela exorta-nos a que tenhamos para com o Senhor uma atitude de boa vontade, de confiança, e pedir-Lhe que nos ajude, para que não O ofendamos, mas sem nunca esquecermos que, apesar de tudo, continuamos muito frágeis e sujeitos a quedas, e que não podemos, por isso, confiar em nós. Sempre seremos frágeis. Nunca podemos confiar em nós, mas só em Deus que é a nossa única protecção.
Por isso termina S. Teresa este capítulo, pedindo, pela palavra de Jesus ao Pai: “Pois, Pai Eterno, que havemos de fazer senão recorrer a Vós e suplicar-Vos que estes nossos inimigos não nos tragam em tentação? Venham antes coisas públicas, pois, com o Vosso favor, melhor nos livraremos. Mas estas tentações, quem as entenderá, Deus meu? Sempre temos necessidade de Vos pedir remédio. Dizei-nos, Senhor, alguma coisa para que nos entendamos e descansemos” (C 39, 6).
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Ficheiro
2011-09-22
