Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XLI
S. Teresa vai falar do “temor” em chave de “amor”. No caminho da oração amor e temor vão sempre juntos. Amor e temor são as duas virtudes finais do “Caminho”, não só do livro, mas do caminho do orante cristão.
Todo o trato com Deus conduz a isto: amar a Deus e temer ao mesmo tempo a nossa fragilidade. Amá-Lo e temer perdê-Lo.
O temor nasce e cresce
Tal como o amor, que na proximidade com Deus, nasce e cresce até chegar a ser um “fogo grande”, assim o temor: brota espontaneamente logo a partir dos primeiros passos do caminho de oração.
Quanto maior o avanço na oração, mais se torna manifesto o temor: “É coisa também muito conhecida daquele que o tem, e dos que tratam com Ele”. “Quando a alma já chegou à contemplação – e é do que agora aqui mais tratamos –, o temor de Deus também anda muito a descoberto, tal como o amor; não vai dissimulado, nem mesmo no exterior” (C 41, 1). Quanto maior amor, maior temor. Quem ama realmente teme, mas não o castigo. O que teme é ofender o Senhor que tanto ama.
O verdadeiro temor de Deus: em que consiste?
No nosso caminhar para Deus, na nossa vida teologal não possuímos um seguro de amor, nem de vida. O amor e a vida da graça levamo-los em vasos de barro. Quanto mais conscientes do nosso amor, mais entranhado levaremos em nós o sentido do risco: risco de perder o amor. É daqui que brota o temor. Amamos a Deus, mas não tememos propriamente a Deus; tememos ofendê-Lo, perdê-Lo, ficar sem o Seu amor, por nossa culpa.
Podemos dizer que o temor agudiza a sensibilidade e a capacidade de discernir entre o bem e o mal. Afina o sentido de pecado. Desenvolve a capacidade de valorizar o pecado no que é mal absoluto para o homem: “Os pecados mortais teme-os como ao fogo”. “Não farão com advertência um pecado venial”. “Perderiam mil vidas antes que fazer um pecado mortal”. Em tema de pecado, já não há “pouco”: “Que em coisas deste teor possa haver pouco, a mim não me parece, por leve que seja a culpa, senão muito e muitíssimo” (C 41, 3).
No raio de acção do temor entram:
1- A vigilância
2- A determinada determinação
3- A ousadia e a liberdade
1- O temor alimenta a chama da vigilância, o “muito cuidado”. “A estas pessoas não as verão descuidadas”. “Logo se apartam de pecados e das ocasiões e de más companhias”. Ainda que muito se as observe, “não as verão andar descuidadas”.
2- “Grande determinação de não ofender o Senhor… até perder mil vidas antes que cometer um pecado mortal”.
3- O temor de Deus não é mortificante nem paralisante como o medo. Antes, determina uma nova tomada de posições nas relações pessoais. Imuniza contra certos tóxicos do ambiente moral: o que antes podia ser “tóxico para matar a alma”, agora transforma-se em oportunidade para mais amor e louvar a Deus. O verdadeiro temor de Deus é libertador: faz “andar com uma santa liberdade”.
O verdadeiro temor de Deus faz até de purificação do mau ambiente: “Eu louvo muitas vezes ao Senhor, pensando donde virá que, sem dizer palavra, muitas vezes um servo de Deus atalha palavras que contra Ele se dizem… O caso é que eu não sei a causa, mas sei que isto se dá muito habitualmente” (C 41, 5).
Como vemos, estamos bem longe do temor negativo e estéril. Ao contrário, esta forma de temer a Deus é dinâmica e fecunda como o amor. Mesmo do ponto de vista psicológico é uma força catártica e potenciadora.
Temor sim, medo não
S. Teresa sentiu espanto, “horror Dei”, ante a “majestade de Deus”, mas sempre gozosamente. Jamais com medo.
Neste capítulo ao falar do temor apressa-se a distingui-lo do medo que qualifica assim:
- “Encolhimento e aperto do ânimo”
- “Amedrontar-se e atemorizar-se” ante as exigências da virtude
Ela diz que é preciso não andar “encolhidos nem apertados… que o Senhor nos favorecerá”. “Não deixeis encurralar a vossa alma, que em lugar de alcançar santidade, se verá cheia de imperfeições…” “Não deixeis que se vos encolha a alma nem o ânimo, que se poderão perder muitos bens”. “Não vos aperteis, porque se a alma se começa a encolher, é coisa muito má para tudo o que é bom”.
O medo é uma degradação do temor de Deus e, por isso, tem efeitos deformantes: “Inabilita” para o bem. “Atemoriza e afoga”. Incapacita para aceitar e respeitar a “santa liberdade” dos outros (n. 6), que precisamente agem “com liberdade e sem esses encolhimentos”, ou “com alegria santa”, ou simplesmente com critérios e conduta diferentes dos nossos.
Destes medos enervantes e aniquiladores, recorda S. Teresa o medo que lhe inculcaram aquando das suas visões de Cristo, dizendo-lhe os seus directores que era tudo do demónio. Ela confessa que se deixou vencer pelo medo até ao pânico. Por fim, conseguiu também livrar-se deste medo do Maligno. Como diz ela: mais teme um só pecado venial “que todo o inferno junto” (V 25, 20).
É isto que ela agora comunica às suas filhas: o temor de Deus dissolve o medo do diabo.
Quanto mais santas, mais conversáveis
S. Teresa vai terminar o tema do temor com um belo epílogo sobre a afabilidade do orante, e sobre a magnanimidade de Deus.
Além da alegria e da santa liberdade de que ela já falou antes, diz que é preciso também ser “afáveis” e “conversáveis”. Também estas duas virtudes florescem sobre o talo do temor de Deus. Por isso, não só alegria e liberdade de espírito; interessa ser “afáveis” e “conversáveis”. A virtude que repele não é virtude. Da mesma forma que a oração e toda a “vossa maneira de viver e de tratar”, a virtude, se é autêntica, constitui um foco de atracção. A virtude tem que fazer-se amável e desejável.
Diz a própria Santa a este respeito: “Procurai ser afáveis e entender de modo com todas as pessoas que convosco tratarem, a que amem a vossa conversação e desejem a vossa maneira de viver e de tratar, e não se atemorizem e amedrontem da virtude. A religiosas importa muito isto: quanto mais santas, mais conversáveis com vossas irmãs. (…) É isto o que muito devemos procurar: ser afáveis e agradar e contentar às pessoas com quem tratamos, especialmente às nossas irmãs” (C 41, 7).
E a razão de tudo isto está num plano superior: o nosso Deus é assim… o seu carácter não é a dureza, nem o rigor… “Filhas minhas, procurai entender de Deus, em verdade, que Ele não olha a tantas minúcias como pensais” (C 41, 8).
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Ficheiro
2011-09-22
