Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Caminho de perfeição - Capítulo XLII
Estas duas expressões “livrai-nos do mal” e “ámen”, vão pôr o selo final à lição teresiana do “Caminho”.
Podemos pedir a Deus que nos livre do mal, pois o próprio Jesus o pede no Pai Nosso. Tal como Jesus, também S. Teresa deseja ser liberta do mal. Mas veremos que ela o pede por razões diferentes das de Jesus.
Jesus não só antevia a morte que Lhe iriam dar, mas viu o mal - ao longo do tempo que viveu - que fazem os homens, experimentou a presença do Maligno. Por cima de vida e morte, cansaço e pecados, a petição de Jesus tem como única força motriz o amor. Jesus a partir do cansaço da vida e da visão da morte e dos males humanos, ao dizer ao Pai “livra-nos”, está a dar lugar ao desejo e ao amor: ao desejo dos bens eternos, e ao amor com que os pede para nós. O amor é o que referenda o “ámen”, que S, Teresa põe também na boca de Jesus.
S. Teresa, ao pedir ser liberta do mal, vai falar a partir do que vive, do que desperta nela o pensamento do mal, a realidade do mal que ela vê na vida dos homens e na sua própria vida.
Para compreendermos melhor a interpretação ou a aplicação que faz S. Teresa, é preciso ter em conta a fase espiritual em que se encontrava quando escreveu o Caminho. Diz o P. Gabriel que, se ela o tivesse escrito 15 anos mais tarde, já não teria, provavelmente, falado de “mal” em relação à vida terrena, porque depois de ter chegado ao matrimónio espiritual, a sua maneira de pensar e sentir a respeito da vida presente, modificou-se.
Apesar de no desposório espiritual (Sextas moradas), a pessoa ter dado inteiramente a sua vontade a Deus, nem sempre consegue arrastar nesta doação a sua sensibilidade. No desposório a transformação limita-se à vontade da qual Deus é Senhor; no matrimónio a transformação é total: não apenas a vontade, mas todas as faculdades actuam sob o impulso do amor de Deus, que passa a ser o único motor da pessoa em todas as suas operações; a sensibilidade já não é rebelde, mas associa-se ao espírito, em harmonia com todas as faculdades.
Encontrando-se S. Teresa no desposório quando escreve o Caminho, e tendo sentido a sua indigência e fraqueza, pede ser liberta do mal da vida e partir para o Céu. É importante dizer que ela aponta este desejo do Céu também como um dos efeitos da contemplação, mas esse desejo pode, no entanto ser aperfeiçoado, como já referimos e continuaremos a ver.
Que entende então S. Teresa por “mal”? Para responder devemos ter em conta as duas redacções do caminho:
- Misérias físicas, isto é, incómodos, doenças, sofrimentos, etc.
- Misérias morais, isto é, a nossa fraqueza face ao apelo de Deus
Às suas filhas ela diz que não se devem preocupar em pedir a Deus que as livre dos males físicos, porque se forem bem vividos, serão de grande proveito espiritual. O que ela se refere é às misérias morais: “Poder-se-á porventura ter aqui algum bem, quando não só não se possui o verdadeiro bem, mas até se está muito longe dele? Ah! Senhor, libertai-me pois desta sombra de morte! Libertai-me dos trabalhos, das dores, e de tudo o que é volúvel”… (1ª redacção). “Ó Senhor e Deus meu! livrai-me já de todo o mal, e sede servido de me levar aonde estão todos os bens!” (C 42, 2).
No seu desejo de não desgostar em nada ao Senhor, desejava não viver na terra, em que corria o risco de ainda O ofender, mas partir logo para o Céu. Deseja unicamente amar o Senhor e vendo que havia impedimento para amar em plenitude deseja livrar-se deste mal que é a vida, pois pode ainda nela perder o Senhor e não pode gozá-Lo continuamente (S. Teresa sabia, por experiência, o que era o gozo da contemplação). Por isso deseja a morte e diz destas pessoas: “Não queiram estar em vida onde tantos embaraços há para gozar de tanto bem, e desejem estar onde não se ponha para eles o Sol da justiça” (C 42, 3). Quando chegar à união transformante, este desejo assim formulado espontaneamente, desaparecerá.
Como vemos aqui é muito diferente a petição de Teresa e a de Jesus: o cansaço de S. Teresa pelas coisas do mundo e o de Jesus têm motivos diferentes. Além disso S. Teresa tem ainda o temor de não saber se ama a Deus e se são aceites os seus pedidos diante d’Ele. Jesus sabia que amava o Pai e que Este sempre O ouvia. Porque experimentou tantas coisas da vida do Céu (pela contemplação), brota-lhe um desejo incontido de estar onde já “não se gozem a sorvos” os bens do Céu. Finalmente, como vê o grande desequilíbrio entre os nosso desejos, sempre tão baixos, e os de Deus, apressa-se a pedir que a livre desta vida.
Ao chegar ao matrimónio em 1572, sob o influxo da graça sobre todas as suas faculdades, S. Teresa acaba por compreender que o viver sobre a terra no meio de dores e sacrifícios, lhe poderá valer um grau de amor mais profundo. No final da sua vida, não lhe faltaram sofrimentos de toda a espécie, tanto físicos como morais; sofrimentos por parte da sua família, particularmente dos mais próximos, como Maria Baptista e Teresita que se afastaram dela. E, não obstante todas estas coisas, a sua alma permanece numa completa serenidade, toda a abandonada ao Senhor. Todo é seu desejo é apenas um: fazer a vontade de Deus, como ela escreverá em 1581, numa relação: “estou de tal modo submetida à sua divina vontade que já não desejo viver nem morrer. Se suspiro pela morte, é só naqueles breves instantes em que anseio por ver a Deus”. É a experiência da Chama: “Acaba já, se queres”.
S. Teresa a partir de 1572 viverá no mais completo abandono. Nesta altura a vida terrena já não é um mal, mas antes a oportunidade de crescer ainda no amor, não desejando, por isso, ver-se livre dela.
Podemos dizer que o último pensamento da Santa Madre é o desejo do Céu e com isto termina e exposição da última petição do Pai Nosso. Dizia ela: “Como a vida do Céu deve ser diferente da vida da terra”. Ma para a pessoa que chegou à transformação em Deus pelo amor, até a vida presente se torna um céu: é já a vida eterna a começar.
O Epílogo do Caminho
Poderíamos dizer que os números 5, 6 e 7 constituem o epílogo do Livro, em forma de diálogo com as suas Irmãs:
- No número 5 convida as suas Irmãs olhar retrospectivamente o Pai Nosso e darem-se conta da grande consolação encerrada nesta oração, de onde podem tirar muita doutrina e consolar-se com ela.
- No número 6 deixa uma palavra de despedida e diz o livro nasceu do gesto de humildade com que as Irmãs o pediram. Teresa sente-se só um instrumento de Deus e, por isso, pede-lhes que agradeça ao Senhor: “agradecei-Lho vós, Irmãs…”.
- no número 7 faz a entrega do manuscrito que, antes de ser entregue às Irmãs, será visto pelo P. Frei Domingos Báñez. Independentemente de ele o aprovar ou não para ser lido depois pelas Irmãs, Teresa mostra-se satisfeita só pelo facto de o ter escrito para elas.
E o epílogo termina com uma bela e límpida doxologia: “Bendito e louvado seja o Senhor, de Quem nos vem todo o bem que falamos, pensamos e fazemos. Amen”.
Video
Ficheiro
2011-09-22
