Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
O Livro das Fundações, uma aventura sempre nova – V
Enquanto ao género do livro, tendo em conta que os géneros puros não existem, encontramo-nos com uma dificuldade na hora de tentar a sua classificação. Não é uma obra que se possa abarcar com uma leitura unilateral.
Diríamos, grosso modo, que é uma crónica na sua finalidade histórica, uma relação na sua percepção psicológica e prosa didáctica na sua função pedagógica. Caminham de mão dada o magistério, a crónica e a presença autoral. O magistério e a crónica encontram a sua fonte na experiência de Teresa e na sua necessidade de a comunicar. A crónica e o ensinamento transformam-se em diálogo, num diálogo sincero e coloquial que tão pronto se dirige a Deus a modo de monólogo orante, que engloba todos os cristãos, como se transforma em interpelação directa às suas monjas e a todos os seus leitores. Nesta conversação predomina sobre o dado histórico e a fonte livresca a recordação de Teresa (F prol. 3; 20, 15). Isto permite-lhe contar com mais liberdade na hora de contar os factos. Assim, frente à rigidez do esquema da crónica onde os sucessos devem ir numa autêntica sucessão objectiva, nas Fundações isto dá-se de maneira genérica; a sua sucessão é mais subjectiva fixa-se na descrição do detalhe e apela-se à frescura da recordação. Dá-se importância à intensidade com a que fica gravado na retina da autora o sucesso acontecido. Dá-se, portanto, mais uma sucessão emocional que cronológica (F 28, 37). Isto não implica que desapareça a objectividade e a sucessão cronológica linear. Desapareceria o critério da veracidade. A objectividade e a sucessão cronológica enriquecem-se com os juízos e com as visões concretas da autora. Os sucessos contados são só o que a ela lhe interessa, deixando fora da sua relação aqueles de importância para a sociedade civil da sua época, inclusive deixa de fora a paisagem, as pessoas alheias à obra. É, pelo mesmo, a relação dos seus sucessos; a relação das recordações e sucessos da sua vida. Estamos perante uma crónica da recordação. Obra onde Teresa joga com o equilíbrio entre o objectivo e o subjectivo, onde combina a sucessão cronológica linear com a sua escala de emoções e valores, de presenças e silêncios.
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Ficheiro
2012-05-12
