Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
O Livro das Fundações, uma aventura sempre nova – VIII
3 – Conteúdo
Disse-me o Senhor: Filha, a obediência dá forças (F prol. 2)… Que temes? Quando é que te faltei? O mesmo que tenho sido, sou agora; não deixes de fazer estas duas fundações (F 29, 6).
O livro das Fundações pode-se articular em torno de três núcleos de conteúdo que remetem à obediência, como eixo de toda a vida cristã, ao estilo de irmandade e recriação como novo modo de viver e entender a vida religiosa e, por fim, a leitura da história em chave teológica como resposta aos que questionam que apresente os sinais dos tempos.
Este binómio que faz referência a dois conceitos tão teresianos como “presença” e “relação” é o marco dentro do qual se apresenta a obediência teresiana como exercício de liberdade vivida na sua plenitude. Tanto na sua dimensão horizontal com os irmãos, como na sua dimensão vertical com Deus. No primeiro dos casos como meio e no segundo caso como fim, como proveito da contemplação na acção e manifestação suprema da humildade ao estilo da obediência que teve o Filho para com o Pai no sacrifício da cruz. Permanece entre nós como pão e vinho, porque nunca se cansa de se humilhar por nós (F 3, 13). O modelo de obediência para Teresa é Cristo.
E, pelo mesmo, a obediência é aderir à vontade de Deus. A obediência não é um fim, é um meio e o caminho mais rápido para chegar à união com Deus. A obediência é a realização pessoal de Cristo na nossa vida, fazer experiência da sua presença (F 6, 22).
Além disso a obediência é também exercício de responsabilidade e liberdade, já que o seu âmbito de actuação é a própria história pessoal. Diríamos, simplificando, que a obediência regula a relação do homem com Deus e com os demais. Dirá Teresa: “Quisera mais vê-la obedecer a uma pessoa e não tanta comunhão” (F 6, 18). E por ele esta relação necessita de mediações humanas, o que denominaríamos por autoridade ou obediência humana. Essas mediações são representatividade de Deus. Aqui a obediência converte-se em núcleo de discernimento e elemento chave do mesmo (F 6,12). Só devemos obediência a Deus, inclusive a Igreja é vista como mediação (F 5, 12). Teresa escreve uns conselhos sobre a obediência às prioresas recordando-lhes esta realidade, seguindo três critérios. O primeiro, pedagógico: há que adaptar-se as exigências ao súbdito, para que a obediência produza os frutos próprios da vida cristã, o desenvolvimento teológico das virtudes (F 5, 11; 12,2; 16, 3). O segundo, humano: a obediência não se leva à força de braços (humanismo teresiano) (F 5,3; 18, 9.11.13). O terceiro, mistagógico, baseado no amor. Deve-se ajudar a construir uma vida de amizade com Deus e de fraternidade entre todos os membros da comunidade (Cta. 30 de Maio de 1581). Recorda-nos o esboço de comunidade exposto no Caminho de Perfeição: “que nesta casa, que não são mais de treze nem o hão-de ser, aqui todas hão-de ser amigas, todas se hão-de amar, todas se hão-de querer, todas se hão-de ajudar” (CV 4, 7).
Em definitivo, a obediência para Teresa regula a relação e fortalece-se na presença. Na obediência reside o princípio da salvação. A obediência nasce, alimenta-se e desvanece-se no Amor. A obediência é manifestação da nossa capacidade de amar. Só quem ama é capaz de obedecer e só quem obedece é capaz de amar. A obediência é oferenda e manifestação de solidariedade com Cristo (F 18, 11).
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Ficheiro
2012-05-16
