Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
O Livro das Fundações, uma aventura sempre nova – IX
Conteúdo (cont.)
Eu folgo-me mais que tenham nisto de obediência demasiada, porque tenho particular devoção a esta virtude, e assim se põe tudo o que se pôde para que a tenham; mas pouco me aproveita se o Senhor não o tivesse por sua grandíssima misericórdia dado graça para que todas em geral se inclinassem a isto. Praza a Sua Majestade aperfeiçoá-la mais e mais, amém (F 18, 13).
No fundo a exortação à obediência, é um intento de animar e manter viva uma férrea vontade de fidelidade ao espírito original da reforma. A obediência transformou Teresa e conformou a sua obra.
Para ajudar na leitura, poderíamos apresentar nas Fundações a seguinte esquematização: prólogo: a obediência de escrever; cap. II: obediência e fé; cap. III: as misericórdias de Deus são fruto da obediência; cap. IV, de onde a obediência se transforma numa conversão radical a Deus; cap. V: a obediência e a oração; cap. VI-VIII: o sobrenatural e o patológico têm uma chave de discernimento na obediência: obediência mais sacrifício produz alegria divina, contentamento de Deus. Obediência sem sacrifício produz o desgosto divino e não vem de Deus; cap. X-XII: de onde aparecem unidas a misericórdia, a dor e a obediência: cap. XIV-XIX: une a pobreza, a vontade e a obediência; Cap. XXIII-XXV: o perfil biográfico do P. Gracián e a obediência; e finalmente os capítulos que narram as últimas fundações: Caravaca, Villanueva, Palencia e Burgos como personificação da obediência em si mesma. Ajudada, isso sim, pela presença e o ânimo do protagonista: Sua Majestade. Não nos esqueçamos que se a obediência dá forças e transforma é porque Cristo está sempre presente e nunca nos falta. Obediência transformada em Liberdade é contemplação perfeita, “porque sem dar toda a nossa vontade ao Senhor para que faça em tudo o que nos toca e conforme a ela, nunca deixe de beber dela” (CV 32, 9).
Poderíamos concluir dizendo que Teresa é a mesma obediência e as Fundações a sua manifestação, para que a obra começada como modo de manifestar a glória de Deus vá “sempre de bem para melhor” (F 29, 32).
a) Agora começámos e procurem ir começando sempre de bem a melhor (F 29, 32) este estilo de irmandade e recriação que temos juntas (F 13, 5)
Nas Fundações continua a exposição começada no Caminho da Perfeição sobre a comunidade teresiana e a sua concepção da vida religiosa. Teresa concebe a vida religiosa como uma opção profunda de fé, que se viabiliza em “um dar-se todo ao Todo” (CE 12,9). Alcança significado como configuração com Cristo; sem deixar por ele, por um lado, o realismo da vida e a conatural presença da dor e do sacrifício. Identificará vida religiosa e Oração. Identificará vida religiosa e ascese. É imitação de Cristo na cruz (F 28, 43), seguindo o exemplo da sua obediência. E como imitação será sempre projecto novo (F 13, 5), caminho de libertação ao serviço da Igreja (F 1, 6). Vida religiosa, esse estilo de irmandade e recriação que levamos juntas, é sinónimo de projecto, de começo, de algo inacabado.
A obediência a Deus deve ser vivida a cada dia como novidade, sempre em estado de espera vigilante, atentos à escuta da palavra amorosa daquele que ocupa o centro da comunidade: Cristo. A vida religiosa converte-se num estar em Cristo, com Cristo e viver para Cristo. Cristo é o ponto de partida e a meta. Celebra-se e vive de maneira especial no sacramento central da jornada teresiana: a Eucaristia. Motor e estímulo de todas e cada uma das suas fundações e elemento central da comunidade.
Se a estes unimos a identificação que se dá entre Cristo e a sua Igreja compreendemos que a vida religiosa e a oração têm uma finalidade concreta. Procurar o bem e a salvação das almas. O trabalho pela propagação da Igreja. Finalidade claramente exposta nas Fundações quando nos relata o seu encontro com o P. frei Alonso Maldonado (F 1 6-7). A vida religiosa teresiana é uma encarnação da oração missionária e eclesial, vivida na interioridade da pessoa.
Mas este caminho apresenta perigos, os seus maiores inimigos são a melancolia e a imaginação (F 7). Com o realismo que caracteriza Teresa indica-nos a necessidade que existe de que se faça um discernimento vocacional, já que nem todas as pessoas estão chamadas a este caminho (F 18), nem todas são capazes de levar por diante esta cruz da mortificação interior, com a dignidade com que Cristo levou a sua (F 22, 5). Inclusive, este discernimento é necessário para manter o projecto no seu estado fundacional (F 4, 6-7; 27, 11-12). As biografias que apresenta obedecem a esta intenção de descrevermos os candidatos ideias para a vida religiosa teresiana: Catalina de Cardona, Beatriz da Encarnação, Casilda de Padilha, P. Gracián, etc. Resumindo e num exercício de concretização poderíamos assinalar as seguintes qualidades como necessárias para viver esse estilo de irmandade e recreação:
1. Humildade, esquecimento de si “Aborrecimento de si”.
2. Vida de oração.
3. Grande desprendimento, mortificação, penitência.
4. Pobreza e confiança na Providencia.
5. Constância e determinação.
6. Discernimento constante para procurar ser agradável a Deus.
7. Alegria no Senhor (Contentamento interior)
8. Virtudes provadas, especialmente a obediência e humildade.
9. Modéstia e honestidade.
10. Limpeza e transparência de vida.
11. Serviço aos demais: desejo do bem das almas e desejo de padecer por Deus.
12. Descrição e suavidade.
13. Amor à Santíssima Virgem.
14. Fortaleza nas dificuldades.
15. Paciência nas enfermidades.
16. Igualdade com todos no trato.
17. De trato agradável (estilo de irmandade e recriação)
18. Comunicar a experiência de Deus.
19. Bom entendimento.
20. Gratidão.
21. Vivência da fraternidade.
22. Radicalidade no seguimento de Cristo.
23. Grande amor pela vivência eucarística.
24. Viver uma oração apostólica eclesial.
25. Sermos capazes de contagiar a experiência de Deus com o testemunho.
Percebemos nestas qualidades as virtudes do seguimento: radicalidade evangélica, pobreza pessoal e comunitária, amor mútuo; abnegação evangélica, humildade, e serviço à Igreja.
Video
Ficheiro
2012-05-17
