Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Carta: Ler-te, Teresa
07/09/2012
Maria José Pérez, Carmelo de Puçol (Valência)
Ler-te, Teresa
Ler-te, Teresa, é o feliz lema que preside a este V Centenário. Com obras do calibre das tuas, corremos o risco de pensar que já está alcançado o topo de qualquer busca, e dedicar-nos só a dar-lhes brilho e a expô-las numa vitrina. Sendo tu canonizada, colocamos a auréola de santidade nas tuas Obras Completas e dissemos a nós mesmos que o que ali se narra é só para alguns seres privilegiados. No fundo, tratamos de nos defender do impacto desestabilizador da sua leitura, e perdemos a possibilidade de que essa história possa ser também a nossa própria história.
Nada mais distante do propósito que tu perseguias com os teus livros, sempre em diálogo com o leitor, e que buscam «seduzir», provocar nos outros a experiência do encontro com o Deus que a ti te mudou a vida, à força de amor. Conhecendo-te, lendo as tuas peregrinações, descobrimos que o místico não é aquele que vive levitando a um palmo do solo, mas aquele que é capaz de descobrir, no claro-escuro da própria história – pessoal e também social –, o rosto de um Deus comprometido com o ser humano em todas as suas buscas. E buscar significa muitas vezes errar o caminho, mas nunca viver paralisado com medo de se equivocar.
Acreditar realmente, como tu acreditaste, na encarnação de Deus supõe apoiar o processo pelo qual a pessoa avança até à meta da sua plena humanização e nunca resulta do todo, porque estão a mudar as circunstâncias em que ela se põe em jogo. Um processo em que ninguém pode assumir a última palavra, nem sequer invocando a autoridade da Bíblia. Assim, numa das tuas «Contas de consciência», afirmas: «Parecia-me que, segundo diz S. Paulo, do encerramento das mulheres me disseram pouco e ainda antes tinha ouvido que esta seria a vontade de Deus» e então, escutaste no teu interior o mesmo Jesus que te replicava: «Diz-lhes que não sigam só por uma parte da Escritura, que olhem para outras, e que poderão porventura atar-me as mãos» (CC 19).
Deus concedeu-lhe uma sabedoria e inteligência extraordinárias, e uma mente tão aberta como as praias junto ao mar» (I Re 5, 9). Esta antífona, que se canta nas Vésperas da tua festa, confirma-me o que descubro de ti nas tuas obras, mostra-me o rosto de uma mulher livre, atrevida, pesquisadora nata, vitalmente oposta a qualquer fundamentalismo. Não foi em vão que deixaste dito que «as coisas da alma sempre se devem considerar com amplidão, largueza e grandeza» (1M 2, 8). E toda a tua vida tiveste de lutar com os que qualificavas de «meios letra dos espantaditos», quer dizer, teólogos de segunda fila que pretendiam «levar as coisas com tanta razão e tão medidas pelos seus entendimentos, que parece que eles hão-de compreender só com os seus conhecimentos todas as grandezas de Deus» (MC 6, 7).
Quando o Capítulo Geral da Ordem, reunido na Primavera de 2009, nos propunha a leitura detalhada e o estudo dos teus livros como a melhor maneira de preparar o teu V Centenário, estava a proporcionar a chave para entender o valor da tua herança, Teresa. Em cada obra tua se enquadra essa definição que Italo Calvino oferece de um «clássico»: «um livro que nunca acaba de dizer o que tem que dizer».
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Ficheiro
2012-09-07
