Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Castelo Interior: Prólogo
Como acontece com todos os livros, o Prólogo é a primeira página que, no entanto, se costuma escrever no final, depois de redigida toda a obra. No caso de Teresa não acontece assim. Ela começa o livro, escrevendo o prólogo e esta página inicial faz de porta de entrada à autora e aos leitores.
Analisando mais pormenorizadamente o Prólogo, oferecem-se ao leitor três coisas:
1- Permite-lhe assistir de perto à composição da obra.
2- Insinua-lhe três níveis de leitura.
3- Introdu-lo suavemente no diálogo com a autora, pois todo o livro vai ser uma conversação familiar com ela.
1 - Composição da obra
Já referimos na Introdução que os tempos não poderiam ser mais adversos para escrever uma obra destas. A própria Santa Madre se encontra no olho do ciclone, em Novembro de 1577. São João da Cruz é encarcerado em Toledo. Do outro lado da cidade, em Ávila, as Carmelitas que tinham votado a Santa Madre para Prioresa são castigadas com a excomunhão. A própria Santa Madre escreve, nesta altura, cartas sem fim.
Mas nada disto se reflecte no livro. Como se o Castelo Interior fosse o reverso exacto de todos os castelos guerreiros do mundo. Nem um só eco das turbulências exteriores consegue penetrar nas páginas da obra, que no entanto, foram escritas em directo, sem rascunhos nem esquemas, como ela escreve as cartas ou conversa com as Irmãs. O manuscrito que possuímos hoje conserva-se tal como saiu das suas mãos, sem divisões, nem títulos de Capítulos. Mas, no entanto, percebe-se que foi muito pensado. E escreve-o por três motivos, como já assinalámos anteriormente:
- Doze anos depois de ter redigido o Livro da Vida, estava consciente de que aquele livro estava incompleto. Era necessário acrescentar-lhe as suas vivências dos últimos anos, as mais abundantes e plenas da sua vida mística.
- O Livro da Vida tinha caído nas mãos da Inquisição, sequestrado pelos inquisidores de Madrid e a ela doía-lhe a alma que aquelas páginas se perdessem definitivamente. Daí o irreprimível desejo de escrevê-las de novo, numa outra chave, menos autobiográfica, mais ordenada e completa.
- E há um terceiro motivo: a maturidade espiritual da autora. Conta ela sessenta e dois anos quando se põe a escrever. Mas não são só os anos que contam, mas as experiências e o ângulo visual do seu olhar, que agora lhe permite abarcá-las e compreender o seu sentido profundo e unitário. Há cinco anos que entrou na etapa final da sua vida mística. São precisamente os anos em que escutou dia a dia as lições de João da Cruz. Com ele glosou os versos de um refrão popular e bíblico: “Vivo sem viver em mim”. Terá sido João da Cruz a abrir-lhe o horizonte expressivo dos símbolos e com a possibilidade de recorrer a eles para dizer coisas que de outra forma seriam indizíveis. E será, precisamente, a partir de um símbolo que ela começa o seu livro.
2 - Níveis de leitura
Logo na primeira página do seu caderno, Teresa escreveu: “Este tratado, chamado Castelo Interior, escreveu Teresa de Jesus, monja de Nossa Senhora do Carmo, para as suas Irmãs e filhas, as monjas Carmelitas Descalças”.
Detenhamo-nos no título. Convida-nos a perguntar pelo que está dentro. No umbral do livro perguntamo-nos pelo seu conteúdo, que direcção se há-de dar à leitura.
Santa Teresa une aqui duas perspectivas: a autobiográfica e a doutrinal e assenta-as num símbolo de fundo, o Castelo, que constituirá o crivo literário da obra. São três planos que oferecem ao leitor três níveis de leitura:
a) Ler no livro a história de Santa Teresa: o seu Castelo
b) Ler a mensagem do símbolo ou símbolos que dão unidade e constituem a obra
c) Ler o livro como uma lição de teologia espiritual e de alta vida cristã
Vamos deter-nos em cada um desses níveis de leitura:
a) O nível autobiográfico: este Castelo é o Castelo Interior da autora
Já o dissemos: a Santa Madre tinha escrito o Livro da Vida que, mais que uma autobiografia, era uma história interior, cujo trama, era uma série de acontecimentos “místicos” e, como sabemos, o místico não é muito historiável. Além disso, já nessa altura o relato se mantém no anonimato: a autora conta a história de “uma pessoa” que vive num convento e numa cidade nunca citados pelo seu nome, que se relaciona com uns assessores também anónimos, e funda um Convento de São José, sem referir onde está localizado.
Agora ao escrever o Castelo usa o mesmo recurso literário. Constantemente aludirá a “uma pessoa”, “certa pessoa”, “aquela pessoa”… conhecidíssima da autora, a quem foram ocorrendo as coisas e graças e experiências que se referem no livro. Só ocasionalmente, a “essa pessoa” se associa outra, também inominada, e que “era homem”: alusão velada, mas transparente, a João da Cruz.
Pois bem, “essa pessoa” é a autora. O leitor pode estar certo que irá fazer um percurso pelas moradas do Castelo de Teresa, guiado por ela própria. É convidado a penetrar e a percorrer a sua alma, o seu itinerário espiritual e os estratos do seu espírito, até às camadas mais secretas do seu interior mais profundo. E interessam-lhe, sobretudo, estas últimas, porque não as tinha ainda contado no Livro da Vida. Daí a extensão das Sextas Moradas e o amplo horizonte das Sétimas.
b) O nível simbólico
É normal que ao abrir o espaço interior da sua alma, a Santa Madre optasse por uma atitude de recato literário, usando o símbolo. O símbolo dispensa a narração explícita. Estende um véu de pudor sobre as experiências íntimas e inefáveis do divino e, por sua vez, o símbolo diz sem dizer. É uma espécie de palavra aberta ou de mensagem em surdina, capaz de despertar no leitor ressonâncias e inteligências segundo a experiência do próprio leitor, segundo a sua capacidade de escuta ou a sua empatia com a autora.
Teresa vai usar três grandes símbolos: o castelo, o bicho-da-seda, o amor esponsal ou jardim de flores (este último no Livro da Vida).
- O Castelo é a realidade interior de si própria que, não só dá sentido à sua vida, mas que a abre à transcendência. Permite-lhe comunicar com Deus. Cada homem é um Castelo interior, como aquele que ela possui.
- No coração do livro, a Santa Madre introduz o lindo símbolo do bicho-da-seda, que se transforma em borboleta, e que é símbolo de todo o homem que nasceu para ter asas e voar.
- Nas últimas páginas do Castelo, o seu símbolo preferido será o amor nupcial: desposório e matrimónio, como plenitude de relações humanas no amor, símbolo realista da plenitude do homem enamorado de Deus.
Ao adentrar-se na leitura do Castelo, o leitor, vai deparar-se com este níveis de leitura e seus símbolos. Usará ainda outros que encontraremos ao longo do livro: água, fogo, mar, etc. Todos estes símbolos mergulham as suas raízes na experiência espiritual da autora.
c) O nível teológico
A Santa Madre não escreve para fazer literatura, nem sequer para contar de novo a passagem de Deus pela sua vida. Ela pretende explicar o sentido profundo desta vivência interior. A sua história pessoal e os símbolos que usa para a narrar, servem para apresentar o processo de desenvolvimento da graça, como vida nova e misteriosa do crente.
Teresa conhece os esquemas tradicionais deste processo, em três etapas: principiantes, aproveitados e perfeitos, mas não os adopta nem os utiliza.
O símbolo do Castelo permite-lhe fixar o ponto de partida da sua explicação doutrinal no homem: na sua capacidade e dignidade, no seu ser feito à imagem de Deus, na sua condição de templo do Espírito, na sua vocação radical à comunhão com Deus.
Isto é o que ela pretende com a sua exposição.
Mas esta sua vocação à relação com Deus passa necessariamente por Cristo. Teresa, introduz, para explicá-lo, o belo símbolo do bicho-da-seda que se transforma em borboleta. Usa, como chave bíblica, o lema Paulino “a minha vida é Cristo”. O cristão cresce em Cristo, configura-se com Ele, até à união plena com Ele.
A fase terminal é Trinitária e eclesial. O cristão que não vive a fundo a inabitação Trinitária, nunca chegará à plenitude dos gérmenes de vida nova recebidos no baptismo. E se chega a essa plenitude, reverte-a – como o próprio Cristo – no serviço dos outros, em fazer Igreja.
Resumindo, sobre estas fases se desenvolve o Castelo Interior: o homem, por Cristo, à Trindade, para a Igreja.
3- Leitura do Prólogo
É um Prólogo original. Dificilmente se encontrará outro semelhante no umbral de um livro sério. Em que livro começa o autor contando a sua dor de cabeça?
E, no entanto, estas breves pinceladas do Prólogo são a melhor porta de entrada no Castelo do livro.
Com a maior simplicidade que se pode imaginar, dizem-se ao leitor quatro coisas, que passamos a enumerar:
1 - A autora faz a sua apresentação: apresenta-se com o realismo físico dos seus achaques de saúde, com a sua falta de inspiração literária e a sua carga de intenções e preocupações doutrinais.
2 - Este livro teve um antecedente literário do qual depende: o Livro da Vida, escrito pela autora há doze anos. Agora não o tem à mão, sequestraram-no, mas a união das duas obras será perfeita, em díptico: o Livro da Vida é o prelúdio do Castelo e o Castelo é síntese e complemento do Livro da Vida.
3 - Como sempre, S. Teresa submete o seu pensamento ao magistério superior da Igreja (n. 3). mas ela é plenamente consciente da sua peculiar e originalíssima maneira doutrinal. Não escreve ex cátedra. Fá-lo coloquialmente, como quem conversa (“escrevo como falo”), isto é, escreve conversando. Di-lo às leitoras: “irei falando com elas no que escreverei”.
4 - Finalmente, atenção às leitoras. As destinatárias deste livro – que se elevará até às cotas mais altas da mística – são as suas monjas, as Carmelitas dos seus Carmelos castelhanos e andaluzes. São leitoras simples, sem preparação especial, nem literária, nem teológica. A autora está convencida de que, para ler compreensivamente o seu livro, não se necessitam altos níveis culturais. Requer-se, ao contrário, a vontade ou o puro desejo de entrar no Castelo com a alma e a vida, como é o caso das suas leitoras Carmelitas.
O mesmo é para nós hoje, que nos associamos às suas primeiras leitoras. De mão dada com a nossa Santa Madre, entremos no nosso Castelo Interior.
Video
Ficheiro
2013-04-11
