Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Castelo Interior: Introdução
O “Castelo Interior” ou “Moradas” é mais que um livro, é um símbolo maravilhoso do mistério do homem.
Este livro é habitualmente considerado como a melhor obra da Santa Madre e um clássico da teologia espiritual. É o seu último livro doutrinal, escrito por ela. Há menos de cinco anos que a sua experiência mística ingressou na etapa de plenitude. Mais do que história, este livro contém biografia, ou melhor, autobiografia.
As primeiras destinatárias são as suas monjas, como diz nesta espécie de dedicatória: “JHS. Este tratado, chamado Castelo Interior, escreveu Teresa de Jesus, monja de nossa Senhora do Carmo, para as suas Irmãs e filhas, as monjas Carmelitas Descalças”.
Destinatário da obra é também todo o fiel cristão, candidato à santidade desde o seu Baptismo e por ele.
A composição do livro, etapas e contexto em que é redigido
Santa Teresa escreve metade do livro em Toledo e metade em Ávila. Começa, então a redigi-lo, aos 62 anos, como nos conta: “E assim começo a cumpri-la hoje [a obediência], dia da Santíssima Trindade [2 de Junho], ano de 1577, neste Mosteiro de São José do Carmo em Toledo, onde estou presentemente”. Isto no Prólogo. E, na conclusão do livro, diz: “Acabou-se isto de escrever no mosteiro de São José de Ávila, no ano de 1577, véspera de Santo André, para glória de Deus, que vive e reina para sempre sem fim, Ámen” (M Conclusão, 5).
Um total de seis meses menos dois dias, desde que começou a escrever até que lhe pôs ponto final. Narra-nos, pelo menos duas vezes, a interrupção da escrita: “Valha-me Deus! Onde me meti! Já tinha esquecido o que tratava, porque os negócios e a saúde me fazem deixá-lo na melhor altura.” (M IV, 2,1). Em mês e meio escreve as quatro primeiras moradas. Prossegue a redacção até adentrar-se nas Quintas Moradas. Mas no dia 18 de Julho ocorre a morte em Madrid do Núncio Ormaneto, o que vem transtornar os seus planos. Interrompe o escrito e empreende viagem até Ávila. Tinha chegado ao Capítulo II das Quintas Moradas. Numa pausa – não sabemos onde – redige o Capítulo seguinte, Capítulo III das Quintas Moradas. Mas seguem mais de dois meses de interrupção.
Quando por fim retoma a tarefa em finais de Outubro, procura reorientar-se, como ela narra: “Já passaram quase cinco meses desde que comecei até agora; e, como a cabeça não está para o tornar a ler, tudo deve ir desconcertado, e talvez diga algumas coisas duas vezes” (M V, 4,1).
Neste momento introduz na exposição o símbolo nupcial (n. 3), e em Ávila escreve num mês a secção mais profunda e delicada da obra, terminando o manuscrito, no Mosteiro de São José de Ávila, véspera de Santo André, a 29 de Novembro de 1577.
Ao concluir o livro, dá “… por bem empregado o trabalho, embora confesso que foi bem pouco…” (M Conclusão, 1).
Tinha sido este um dos meses mais difíceis da sua vida: reeleita Prioresa da Encarnação e deposta pelo responsável da assembleia comunitária. Partilha as dificuldades de Frei João da Cruz, que logo será preso no cárcere de Toledo. Dir-se-iam ser os meses mais escabrosos para redigir as moradas místicas do Castelo Interior.
Em resumo, o livro foi começado em Toledo e terminado em Ávila. Foi escrito em duas fases:
- a primeira até metade das Quintas Moradas;
- e a segunda, a partir do Capítulo IV das Quintas Moradas até ao final.
Quando escreve o livro, embora encontrando-se na sua maturidade humana e espiritual, vive ela um dos períodos mais adversos da sua vida, como já dissemos. Veio de Andaluzia para Toledo, castigada e confinada pelas autoridades supremas da Ordem (Capítulo de Piacenza, em 1575). Nos primeiros meses de 1577 sofreu uma crise de esgotamento psico-físico tão grave, que o médico lhe proibiu de escrever pela própria mão, excepto em casos de extrema necessidade. Aqui em Toledo, o Livro da Vida continua sequestrado pela Inquisição. Num momento mais propício, ela e o Padre Graciano atrevem-se a solicitar a sua devolução ao Grande Inquisidor, Gaspar de Quiroga, mas com resultado negativo: a Santa Madre tem a sensação de que com o livro está presa a sua alma. Talvez a maior agravante seja que, pouco depois de começar o livro, morre em Madrid o Núncio Ormaneto, e ela tem que interromper o escrito durante meses, e esperar a temida perseguição do novo Núncio Sega, chegado a Madrid em finais de Agosto.
Os factores positivos nesse momento são mais decisivos em ordem à composição do novo livro:
1 - Teresa expressou recentemente o desejo de completar o relato do sequestrado Livro da Vida, para lhe acrescentar as últimas vivências da sua trajectória mística. Foi esta, sem dúvida, a semente inicial do novo escrito.
2 - Além disso, em Toledo, a Santa Madre tinha um director espiritual de excepção, o biblista Alonso Velásquez, bom amigo do Padre Graciano, e os dois animaram-na a escrever.
3 - Mas há, sobretudo, um terceiro factor mais válido. É o máximo e a qualidade de ideias que amadureceram na sua mente, sobretudo: a ideia da alma habitada por Deus, as especialíssimas relações mútuas entre Deus e a alma, que se esclareceram nesses últimos anos, depois da frase escutada: “Busca-te em Mim”. Serão essas as pedras angulares do Castelo Interior.
O autógrafo das Moradas encontra-se no Mosteiro das Carmelitas Descalças de Sevilha, desde Outubro de 1618. Em 1622, foi levado em procissão pelas ruas de Sevilha por ocasião dos festejos pela Canonização da autora. E a última e mais prolongada saída do manuscrito, aconteceu em 1961, quando foi levado até Roma, e onde foi devidamente restaurado pelo “Istituto Ristauro Scientifico del libro” do Vaticano e o “Istituto di Patologia del libro” de Itália. Voltou a Sevilha em 1962 e ali se conserva no Convento das Descalças, num valioso estojo relicário: as muralhas de Ávila convertidas em castelo para abrigar e custodiar o autógrafo do Castelo Interior. Esta obra deve-se à ideia e solicitude do então Geral da Ordem, Padre Anastácio Ballestrero.
O episódio decisivo
Conta o Padre Graciano: “O que acontece acerca do livro das Moradas é que, sendo eu o seu Prelado e tratando, uma vez, em Toledo, muitas coisas do seu espírito, ela dizia-me: “Oh, que bem escrito está esse assunto no livro da minha vida, em poder da Inquisição!” Eu disse-lhe: “Faça memória do que se lembrar e de outras coisas, e escreva outro livro, e diga a doutrina em geral, sem nomear a quem aconteceu tudo aquilo que nele disser”. E assim lhe mandei que escrevesse este livro das Moradas, dizendo-lhe, para mais a persuadir, que o tratasse também com o Dr. Velásquez, que a confessava algumas vezes. E assim lho mandou.” (Scholias – BMC)
Este mandato recorda-o ela na primeira página do livro, no Prólogo.
Castelo Interior, um livro de mistagogia
Deus revela-Se em amor ao homem e exige resposta por parte do interlocutor. Só assim o “Mistério” se torna capaz de ser vivido e experimentado. É uma comunicação pessoal que transforma e re-configura, dando vida nova. Esta foi a experiência vivida por Santa Teresa e que ela nos quer transmitir no seu livro.
A mistagogia, no seu actuar pedagógico, aproxima-se deste Mistério e introduz nele a pessoa com a ajuda do mestre experimentado. Mistagogia integra, na sua raiz grega, o “myste” (mistério) e o verbo “ago” (condução). O “Mistério” é o conteúdo que vive e transmite o mistagogo; e a “condução” é a pedagogia-comunicação que emprega para que o “mystes” (pessoa iniciada) a assuma, apropriando-se do Mistério para fazer o seu próprio caminho. A pessoa é introduzida num caminho que inicia numa realidade transcendente, desembocando na transformação-vida nova. Devido aos elementos que integra – mistério e condução – a mistagogia pode ser entendida como uma “pedagogia do mistério”. A mistagogia está então referida à capacidade de estruturar um processo de iniciação à experiência cristã, uma disciplina de acompanhamento para o mistério de ser cristão, isto é, ir entrando na experiência do encontro com o Deus de Jesus. “Sem mistagogia não aprendemos a aprender, que é na realidade, o importante. Podemos acumular conhecimentos, mas não mudamos a nossa maneira de ler o mundo, de ver as coisas. Sem treino, sem prática, sem algo que nos altere interiormente, não vivemos realmente a fé”. (X. QUINZA)
A mistagogia não assumirá só a transmissão de conteúdos da fé, mas para ser verdadeira, terá que levar a pessoa introduzida neste caminho de se adentrar no Mistério, a uma transformação efectiva na sua vida.
Elementos constitutivos da mistagogia
1 - O Mistério
É o Absoluto, o Transcendente, o “Deus vivo e verdadeiro, pessoal e comunicativo”, a fonte e centro de toda a mistagogia. Um Deus-Mistério que se manifesta em graça e deseja ser compreendido, ainda que não apreendido, em esquemas artificiais. Revela-Se para Se dar a experimentar, mas nunca deveremos esquecer que o Deus Revelatus é, ao mesmo tempo, o Deus Absconditus. Como consequência, um Mistério que exige a fé como condição de possibilidade, para que a sua revelação aconteça como boa notícia e realidade de vida; e esta é uma tarefa árdua.
Acolher em fé o Mistério é o convite feito por Deus ao revelar-Se; e será a pessoa o âmbito onde se realiza a dita acção de Deus, a pessoa em todo o seu mistério.
2 - O homem
Dizia H.U. Von Balthasar que “O homem é um ser com um Mistério no coração, que é maior que ele mesmo”. Um mistério – o homem – alcançado por outro Mistério, maior, totalizante, abarcante e, a partir daí, animado, instruído e incorporado a um processo novo, no qual se vão desenvolvendo e aparecendo realidades sempre novas e mais profundas. A mistagogia respeitará os caminhos novos que abre o Espírito, “cuida com particular esmero a pessoa em quem Deus põe a Sua graça, vocação, missão; tem o propósito de favorecer o acolhimento e o florescimento da vida do Espírito, em qualquer das Suas manifestações”. (F. RUIZ)
Este florescimento da vida do Espírito é uma transformação radical, uma metamorfose, um novo nascimento e um desenvolvimento posterior, maduro, profundo, pleno. É uma comunicação de Deus, que abre perspectivas nunca antes imaginadas e dilata a existência. Este é o objectivo final da mistagogia, a sua intenção fundamental e serviço concreto.
Em seguida, vamos apresentar o terceiro elemento, o mistagogo, que é a pessoa que acompanha o processo, ó servidor situado entre dois mistérios: Deus e o homem (mystes).
3 - O Servidor de mistérios
É o mestre a quem se pode definir como “servidor de mistérios”. É a mediação que facilita o processo; é a testemunha qualificada que conhece o Mistério e a pessoa, pondo ao serviço do mystes, o que assimilou pessoalmente.
O mistagogo é um guia na fé, diferente do pedagogo, do terapeuta e do mago esotérico. Não pretende ensinar, ainda que deva fazê-lo; não procura saber, ainda que deva ser sábio; não faz alarde dos seus conhecimentos, ainda que os deva possuir. O mistagogo é apenas um acompanhante experimentado no processo que realiza o seu acompanhado; o processo pertence à pessoa e a sua tarefa é unicamente proporcionar-lhe, sem outras pretensões, luz para que faça o seu próprio caminho. A sua responsabilidade será facilitar a assimilação, proporcionando-lhe aquilo, e só aquilo, que na sua circunstância concreta é capaz de compreender e integrar.
O mistagogo terá só como responsabilidade tornar possível o encontro do Mistério com o “mistério da pessoa”. O mistagogo é alguém que está chamado a facilitar este caminho para gerar respostas concretas, aceitação, abertura e assimilação por parte da pessoa.
O mistagogo deverá suscitar vida, transmitir experiência, transluzir o Mistério e provocar um processo; por isso, há-de estar atento à acção do Mistério nessa pessoa concreta, sabendo que o seu serviço é limitado; a função mistagógica, portanto, é uma proposta para ser reflectida, analisada, integrada e interiorizada por parte do acompanhado e, em consequência, ser integrada, vivida e assimilada. O mistagogo está para ajudar o mystes, a fim de que se disponha para que o Mistério Se revele, e se entregue plenamente a ele. O mistagogo há-de estar em sintonia com os dois mistérios, o da pessoa e o de Deus que Se revela; o mistagogo situa-se, portanto, entre dois mistérios.
O processo mistagógico ao longo do Castelo Interior
Várias leituras são possíveis desta obra cume da Santa Madre e esta de ajudar o orante para o vértice da vida espiritual, é uma delas. Cada morada é uma clara provocação para produzir no leitor resposta e acolhimento do Mistério, que é o próprio da mistagogia. Nesta obra deixamo-nos contagiar por Santa Teresa, para que ela nos motive e comunique a sua própria experiência, com o objectivo de gerar em nós um processo que desemboca, finalmente, na transformação e vida nova que se vai recebendo progressivamente. Cada morada do Castelo Interior oferece as condições para passar à seguinte, ainda que em todo o processo seja Deus o Protagonista, que conduz livre e amorosamente a pessoa, segundo vai encontrando abertura.
Em cada morada do Castelo assistimos sempre ao Mistério que irrompe, ao mistério da pessoa iniciada e, finalmente, à transformação que se alcança.
Estamos ante o escrito de uma mistagoga que experimentou e percorreu caminhos de profundidade inimaginável e que se propõe iluminar, orientar e persuadir sem ambiguidades, as suas próprias descobertas: é servidora dos mistérios. É o que ela pretende a todo o momento: “Praza ao Senhor que, pois se faz por Ele [escrever a obra], seja para que aproveiteis de alguma coisa” (M III, 1,3). Contagiar a partir da experiência será o fundamental a ter em conta.
Vamos, então percorrer com a Santa Madre, as várias moradas do Castelo Interior.
Video
Ficheiro
2013-04-19
