Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Castelo Interior: Primeiras Moradas – Capítulo II
No primeiro Capítulo do livro, a Santa Madre situou o leitor diante da fachada do seu próprio Castelo. Convocou-o para a zona da interioridade, ajudou-o a superar essa subtil barreira que medeia entre a esfera dos sentidos e a do espírito. Disse-lhe que a porta de entrada no Castelo é a oração, que entrar nele é iniciar uma relação religiosa consigo mesmo e com Deus: orar, mesmo que seja pobremente; e que não volte a cabeça para trás, como a simbólica mulher de Lot.
Agora, neste Capítulo, a Santa Madre vai ler a cartilha ao principiante. No título do Capítulo, em três pinceladas, antecipa o perfil do que pretende apresentar:
- atenção ao pecado, que ameaça a ruína do Castelo;
- aprofundar no conhecimento próprio, para estar fundado em humildade;
- dilatar o olhar e esquadrinhar dentro de si a vasta paisagem do Castelo interior.
O espectro do pecado e a sua experiência
O Capítulo começa assim: “Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este Castelo tão resplandecente e formoso, esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais.” (M I, 2,1)
O místico tem olhos lúcidos para o mistério do mal. Uma mística tão optimista e clarividente como a Santa Madre tem uma visão sombria do pecado. Acompanha-a a sua consciência de pecadora: ela sabe-se e diz-se pecadora convertida. No mal do pecado ela sublinha o aspecto ético: a desordem que introduz no homem, na estrutura interior do Castelo. Mas mais que este aspecto ético, interessa-lhe destacar a dimensão teologal: no interior do Castelo, o pecado mortal frustra simplesmente a relação do homem com Deus, fica quebrado o projecto inicial de Deus para cada homem, que consistiu no radical chamamento do homem à comunhão com Ele.
Na linguagem da Santa Madre é como se o homem se desabite a si mesmo, obrigado a abandonar o próprio Castelo num gesto de alienação, para viver fora ou no fosso, molestado por répteis venenosos. Pelo contrário, o pecado não consegue desalojar Deus do Castelo, que o continua a habitar, embora a pessoa esteja incapaz de participar da vida d’Ele.
O homem em pecado é um castelo em ruínas, é um homem tenso pelo des-centramento e o desenraizamento, é um homem exteriorizado e derramado, escravo e não senhor. É vivido, não vive.
A esta experiência da alma se encontrar em pecado, chamará a Santa Madre de “negro pez”, “negríssima água de muito mau cheiro”, “a alma fica feita treva”.
Santa Teresa evoca ainda, neste conhecimento do que é uma alma em pecado, a sua própria experiência: “Como Deus quis dar a entender algo disto a uma pessoa”.
Em várias relações a Santa Madre evoca esta experiência do que é entender a desventura de uma pessoa em pecado e estremece interiormente. Para Teresa, esta insistência sobre este estado da alma em pecado é uma prova de que para ela isto não é marginal, ou secundário, mas algo muito importante para o leitor, especialmente para o principiante. E porquê?
Medo, ou temor do pecado?
Sempre que Santa Teresa evoca o mistério do mal – concretamente o mal do pecado no homem – sente um profundo estremecimento e vemo-lo em várias das suas páginas do Caminho, nas Exclamações e, sobretudo, no Livro da Vida.
Será esta visão do pecado uma visão arcaica, antiquada e pessimista? Que pretende a Santa Madre com esta visão do pecado? A sua intenção é introduzir o principiante na primeira etapa da vida espiritual, situando-o entre duas situações limite:
– Por um lado a suma dignidade do homem, a formosura do Castelo inundado de graça;
– Por outro lado, a suma fealdade que o pecado traz ao Castelo: “não há trevas mais tenebrosas”.
Teresa quer deixar bem vincado, e vamos vê-lo ao longo do livro, que quem perde o sentido do pecado, perde o sentido do risco e, sem este, perderá o sentido da realidade, perderá o caminho, não chegará às moradas mais profundas. O pecado leva o homem à exteriorização, despersonaliza-o.
Ela não pretende semear o medo, mas o temor de ofender o Senhor do Castelo: “Dizia aquela pessoa que tinha aproveitado duas coisas da mercê que Deus lhe fez: uma, um temor grandíssimo de O ofender, e assim sempre Lhe andava suplicando não a deixasse cair” (n. 5).
É este sentido de orientação que ela quer inculcar, a partir da sua experiência, ao principiante: lançar a pessoa não no caminho do medo, mas do amor, a partir da imagem de Deus, como bondade e misericórdia.
Conhece-te a ti mesmo: “Socratismo Teresiano”
É o tema tratado na segunda parte do Capítulo. “Conhecer-se a si mesmo” deverá ser a tarefa específica desta Primeira Morada. É a tarefa quotidiana da vida que se faz no interior do Castelo. Não será uma coisa que se faz só no princípio do processo, mas tem que se manter activo até à última morada, a Sétima: “E quão necessário é isto (vejam se me entendem), mesmo aquelas que o Senhor tem na mesma morada em que Ele está, pois – por mais elevada que esteja a alma –, não lhe cumpre outra coisa, nem poderá” (n.8) senão aprofundar no conhecimento próprio, porque “a humildade sempre fabrica o seu mel, como a abelha na colmeia; sem isto, tudo vai perdido” (n. 8). Estabelece uma profunda equivalência entre conhecimento próprio e humildade.
Surge espontaneamente a pergunta: em que consiste este conhecimento próprio que a Santa Madre propõe como programa ao principiante?
Vamos resumir o seu pensamento em alguns enunciados:
1. A primeira coisa que a Santa Madre propõe ao principiante é o símbolo do “Castelo interior”, para fazê-lo cair na conta na dignidade e formosura da sua alma. Não só está feita à imagem de Deus, mas é capaz de contê-Lo. O principiante não se conhecerá a si mesmo, se não se sabe habitado por Deus. O homem não é só uma centelha da divindade: é o próprio Deus que está nele.
2. No entanto, o homem, é capaz de negar-se a si mesmo, é capaz de introduzir o mal no Castelo, cobri-lo de pez, fealdade e trevas. O homem não se conhece a si mesmo se ignora esta segunda dimensão do seu ser: grandeza e miséria em contraponto.
3. O risco fatal que corre é ver só esse lado negro de si mesmo. O homem incorre inexoravelmente neste risco, cada vez que o conhecimento próprio se feche no horizonte da própria história, desligando-a de Deus. Conseguirá apenas um conhecimento muito pobre e envilecido, acobardado e frustrante. Daí que a ajuda da psicologia e da psiquiatria a uma pessoa, não seja suficiente, e não conseguirá os resultados que se esperam, sem esta colaboração íntima e indispensável com a dimensão religiosa e sagrada do homem, sem ser feita à luz de Deus.
4. Há que apontar mais alto: “por os olhos no centro (do Castelo), que é a morada onde está o Rei” (n. 8). O conhecimento próprio que a Santa Madre propõe é um acto religioso de oração, capaz de abarcar com um só olhar o próprio Castelo e o Deus que o habita e dignifica. E Teresa explica porquê: “E a meu ver, jamais acabamos de nos conhecer se não procurarmos conhecer a Deus; olhando à Sua grandeza, acudamos à nossa baixeza; e olhando à Sua pureza, veremos nossa sujidade; considerando a Sua humildade, veremos como estamos longe de ser humildes.” (M I, 2,9)
5. A grande vantagem desta forma de autoconhecimento à luz de Deus é que “o nosso entendimento e nossa vontade se tornam mais nobres e mais dispostos para todo o bem, quando, às voltas consigo mesmos, tratam com Deus. E se nunca saímos do nosso lodo de misérias, é coisa muito inconveniente.” (M I, 2,10)
São estas as cinco ideias que são o chamado “Socratismo Teresiano”. Agora o principiante está preparado para aprofundar o símbolo do Castelo, sem o reduzir ou coarctar, nem o imaginar acanhado ou monótono: “Não haveis de imaginar estas moradas uma após outra, como coisa alinhada (…). Assim aqui, em redor desta morada, há outras muitas e também por cima. Porque as coisas da alma devem-se considerar com amplidão, largueza e grandeza, e nisto não há demasia, pois tem maior capacidade do que nós poderemos considerar (…).” (M I, 2,8). “Por isso digo, que não considerem poucos aposentos, senão um milhão deles (…).” (M I, 2,12)
E deixa esta última pincelada deste quadro de luz: “Isto importa muito a qualquer alma que tenha oração, pouca ou muita: que não a tolha nem a aperte [a própria alma].” (n. 8)
Conselhos aos moradores das Primeiras Moradas
Sentido da própria dignidade, sentido de Deus e sentido do pecado foram os conselhos de fundo. Tendo-os por base, começa a configurar-se a vida nova de quem, pela porta da oração, entra no Castelo da alma. Agora, no final do Capítulo, a Santa Madre dá ao principiante uma série de conselhos práticos:
– Antes de tudo, pôr “os olhos em Cristo, nosso Bem” (n.11). É um postulado de pedagogia espiritual. Já ao começar o Caminho de Perfeição, o tinha formulado assim: “os olhos em vosso Esposo: Ele vos há-de sustentar” (C 2,1). Voltará a repeti-lo na última morada: “Ponde os olhos no Crucificado e tudo se vos fará pouco” (M VII, 4,8). É a quinta-essência do seu evangelho. Esta tinha sido uma das suas primeiras experiências cristológicas. Tinha-a descrito no Livro da Vida. O Senhor disse-lhe que “pusesse os olhos no que Ele havia padecido, e tudo se me faria fácil” (V 26,3). Agora este conselho converte-se em “abc” do principiante.
– “Tomar a Sua bendita Mãe por intercessora” (n. 12). E isto por uma razão muito simples: a luta impõe-se na vida destas Primeiras Moradas. E quem começa, tem pouca força para se defender. Precisa de acudir a Sua Majestade, à Virgem Maria e aos seus Santos.
– Estar bem consciente da situação precária com que começa. O homem das Primeiras Moradas vive em risco permanente, inicia o seu caminho espiritual numa situação de grande debilidade, com muitas forças contrárias, que o tornarão difícil e doloroso. Por isso, diz a Santa Madre, que são muitas as almas que entram no Castelo mas, como ainda estão “embebidas no mundo e engolfadas em seus contentamentos e desvanecidas nas suas honras e pretensões, não têm força os vassalos (que são os sentidos e potências), e facilmente estas almas são vencidas, apesar de andarem com bons desejos de não ofender a Deus, e façam boas obras” (M I, 2,12).
– A Santa Madre insiste nesta situação de luta e na pobreza de recursos: “Haveis de notar que, nestas Primeiras Moradas, ainda não chega quase nada da luz que sai do palácio onde está o Rei; porque, embora não estejam obscurecidas e negras como quando a alma está em pecado, estão de alguma maneira obscurecidas para poderem ver quem está nelas e não por culpa do aposento – não me sei dar a entender –, mas porque entraram com a alma tantas coisas más de cobras e víboras e coisas peçonhentas que não a deixam reparar na luz” (M I, 2,14). Se aspira a penetrar nas segundas moradas, convém-lhe deixar de lado as “coisas e negócios não necessários, cada um segundo o seu estado” (n. 14), pois é impossível avançar no caminho empreendido sem esta decisão.
– O morador das Primeiras Moradas há-de ter têmpera e espírito combativo: “Olhai que em poucas moradas deste Castelo deixam de combater os demónios” (n.15). A travessia não é para espíritos medíocres e frouxos. Requer-se vigilância permanente, porque o inimigo transfigura-se em “anjo de luz”, para melhor enganar (n.15). “É como uma lima surda”: não há que deixar-se surpreender (n.16).
– Por fim, a Santa Madre apresenta a meta final do Castelo, dando-nos uma ideia clara sobre o que é a santidade: “Entendamos, minhas filhas, que a perfeição verdadeira é amor de Deus e do próximo e, com quanta mais perfeição guardarmos estes dois mandamentos, seremos mais perfeitas. Toda a nossa Regra e Constituições não servem de outra coisa, senão de meios para guardar isto com mais perfeição” (M I, 2,17). Aquelas “coisas e negócios não necessários” que tinha falado antes, para as suas monjas, convertem-se em “cuidados alheios”, que são a exaltação do egoísmo, do “seu” modo de viver a vida espiritual, e que se prolonga em “zelo indiscreto” para fazer que todos os outros vivam como elas. Daí esta sua palavra sobre a perfeição verdadeira: “amor de Deus e do próximo”. Por isso, exorta a “não andar olhando nas outras umas ninharias”. O que se requer é silêncio interior para conservar a paz, e silêncio exterior para não romper com a Comunidade.
Assim se apresenta a cartilha do principiante. Esta é a sua situação ao iniciar este caminho de interiorização, podendo-se-lhe aplicar a palavra evangélica: “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”. O mundo arrasta o homem, desterra-o de si, deixando-o sem interioridade. A Santa Madre aponta-lhe uma série de verdades que o podem imunizar contra ilusões e falsos sonhos, ao dar os primeiros passos no caminho espiritual. Reiteradamente lhe foi insinuando o panorama de luta que o aguarda nas Segundas Moradas.
O processo mistagógico nas Primeiras Moradas: início de uma longa aventura
A pessoa foi convidada pelo Rei do Castelo para a morada principal. Chegar a ela é a aventura que inicia a pessoa que aceitou livremente o convite pessoal de Deus.
Começa o trato pessoal com Deus com a oração vocal, especialmente o Pai-Nosso e os primeiros passos em direcção ao interior. Não esqueçamos que a porta de entrada do Castelo é a oração e, por isso, a oração consiste, precisamente, em comunicar, dialogar com Deus, estabelecer um diálogo com Ele. No Caminho a Santa Madre inicia as Irmãs neste processo, convidando-as a meditar o Pai-Nosso.
Nível teológico: Deus é graça abundantemente derramada para todos
O homem é convidado a tomar consciência de que este Deus com quem vai tratar é Amigo, é fonte de vida constantemente dada e oferecida, um Deus dador de bênçãos, que procura amizade, para dar o Seu amor, a Sua misericórdia. O ponto-chave, como já dissemos, é pôr os olhos em Cristo e receber as Suas virtudes.
O homem deve entender que o desejo de Deus é dar-Se, por isso a atitude que lhe é pedida é a do acolhimento, da abertura sem medos, nem restrições. Ele é Amigo de dar sem medida. Este caminho vai ser o caminho da amizade com Deus: tornar-se amigo de Deus.
Se a nossa vida espiritual não se funda nesta certeza de que a relação com Deus é de amor, proximidade e amizade, torna-se impossível de viver. Por isso, a Santa Madre afirma que é de grande consolo saber que é possível Deus comunicar-Se connosco: a grandeza de Deus entra em contacto com a pequenez humana e abaixa-Se a ela, por amor, porque, como dizia Teresinha, “é próprio do amor abaixar-se”.
O convite da mistagoga Teresa é ensinar que Deus é graça e dom para ser acolhido gratuitamente. Teresa chama a Deus carinhosamente “uma bondade tão boa e misericórdia tão sem medida” (M I, 1,3). E para receber estes dons tão grandes de Deus, é necessário pôr os olhos em Cristo. O homem é, então, chamado a tomar asas para voar até Deus, em Cristo.
Nível antropológico: um homem em graça, com dignidade e capaz de Deus
A Santa Madre destaca, como já vimos, a grandeza e a beleza da pessoa, o que ela é capaz de receber e de ser. É o Castelo “todo de um diamante ou mui claro cristal”, “um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias”. A pessoa é grande e bela, porque criada à imagem e semelhança de Deus. Por um lado temos um Deus dando-Se em graça e, por outro, a pessoa com capacidade para acolhê-Lo.
O mistagogo convida a pessoa a tomar consciência do seu valor, da sua beleza interior, à auto-estima e ao são amor a si mesma.
Um situação diferente desta é a pessoa que não se dispõe a receber as graças de Deus, seja pelo seu pecado, seja por não saber fazê-lo. Para isso, está o mistagogo para lhe indicar a atitude adequada e as estratégias a seguir. No entanto, a pessoa é sempre livre para responder, ou não.
Transformação: um orante em caminho
Quem tomou a decisão de transitar por este belo Castelo, deve fazê-lo cheio de ânimo e decisão, porque Deus está com as mãos cheias de bens para serem gozados. O orante começa a saboreá-los, e a Santa Madre não deixará de o animar e estimular, porque se começam a perceber os primeiros frutos que são:
- crescimento do amor
- início do conhecimento próprio
- busca da perfeição verdadeira: amor de Deus e do próximo
A pessoa anima-se a crescer, assumindo com responsabilidade este caminho novo de relação com Deus, procurando conservar este trato com todo o cuidado e empenho em conservar a beleza do seu Castelo.
O orante que começa a ser tocado pela graça, começa a dar-se conta de realidades que não conhecia até agora e que emergem com gozo e esperança, novos ímpetos de vida que procedem do Deus dador de graça. Esta é ainda uma realidade incipiente e imperfeita, mas saboreia-a conscientemente. O processo iniciou-se e deverá agora amadurecer e acrisolar-se.
A pessoa olha para o interior e descobre a luz de Deus particularmente presente, o que conduz a uma descoberta de si mesma.
O orante ao entrar no Castelo, percebe com maior crueza o que tem de positivo e negativo: começa a entender quem é realmente e operam-se os primeiros movimentos para o amor e a entrega, como diz a Santa Madre: “o nosso entendimento e nossa vontade se tornam mais nobres e mais dispostos para todo o bem, quando, às voltas consigo mesmos, tratam com Deus” (n. 10).
O trato natural com Deus desencadeia a bondade natural da pessoa e a busca inicia-se com dinamismo crescente. Por isso, diz a Santa Madre que no horizonte do orante só deve estar isto: “Entendamos, minhas filhas, que a perfeição verdadeira é amor de Deus e do próximo e, com quanto maior perfeição guardarmos estes dois mandamentos, seremos mais perfeitas. (…) Importa tanto este amor de umas para com as outras, que eu nunca quereria que dele vos esquecêsseis (…)” (M I, 2,17-18).
Princípios mistagógicos das Primeiras Moradas:
Desde o princípio do processo que a mistagogia da Santa Madre se apresenta como provocativa, inculcando desejos de entrega, de busca, de experiência; fala de frutos, de “ganhos”, adianta realidades escatológicas com verbos como “encontrará”, “ entenderá” ao ritmo da graça, isto é, vai mostrando as mercês que Deus concede aos cidadãos das moradas.
A pessoa é o belo Castelo que se vai encontrar com Deus em pessoa, que é o Rei do Castelo. Este início do processo não arranca da boa vontade do leitor, nem da muita virtude que possui, mas é o Rei do Castelo o autor de todo este caminho: o Rei inicia, conduz e completa com o caminhante toda a senda. O convite do Rei é chegar à morada principal, onde Ele vive, com a explícita intenção de que viva com Ele, na Sua presença e na Sua morada.
A resposta é decisão da pessoa, e aceitar responder ao convite do Rei é introduzir-se num mundo novo, cheio de maravilhas, surpresas e descobertas, entre as quais a revelação do nosso próprio mistério, da sua grandeza e grande dignidade.
Este caminho é possível, porque Deus o quer e nos tornou capacitados para ele, criando-nos à Sua imagem e semelhança. Por isso, este caminho não é uma loucura, mas chegar à morada principal e viver aí com o Rei, é a realização plena de todo o baptizado: encontro de amor com a fonte do Amor. Isto é a santidade.
Como é a oração do morador das Primeiras Moradas?
O tipo de oração das Primeiras Moradas é a vocal, sobretudo o Pai-Nosso, por ser a que Jesus ensinou.
Por isso, toda a pessoa pode acolher o convite de Deus e começar o caminho só com rezar vocalmente: o Pai-Nosso, a Ave-Maria, participar na Eucaristia; mas deve unir a oração com a força do coração, pois dizer palavras sem cair na conta e estar atento a Quem são ditas, não é rezar. Por isso, para a Santa Madre, oração vocal e mental vão juntas, como ensinou no Caminho.
Ajudas para fazer esta aproximação a Deus:
- contemplar a natureza;
- ler bons livros;
- ter algumas imagens;
- e recorrer confiadamente à Virgem Maria e aos Santos.
Que deve ter em conta a pessoa?
A pessoa deve assumir a sua própria história e este é um dos grandes obstáculos a vencer, já que na história pessoal de cada caminhante há situações pendentes, dolorosas e não assumidas, que se não forem integradas, a impedirão de avançar.
O conhecimento próprio, de que já falámos, ajudará a esta aceitação de nós próprios. Este conhecimento de nós mesmos deverá ser sempre aprofundado ao longo de todo o processo e nunca se deixar, pois há aspectos da nossa vida que se vão aprofundando e curando por etapas, à medida que avançamos espiritualmente. A cura é progressiva.
Podemos concluir que o desafio é grande, porque passa pelo encontro com situações dolorosas, máscaras assumidas durante muito tempo, inadequadas imagens de nós próprios; dito de outra maneira, será um caminho de libertação profunda e, em muitos casos, doloroso.
Este conhecimento próprio deve estar sempre referenciado a Deus, como já dissemos. De outra forma, não seria possível o homem ver-se e confrontar-se sozinho com a sua verdade.
Conversão
Esta pessoa que chegou à porta do Castelo é um convertido. Está imersa em situações de pecado, “embebida no mundo e engolfada nos seus contentamentos”, pelo que a fragilidade não faltará como sua acompanhante. Por esta razão, deverá tomar a decisão de renunciar a todas aquelas realidades que a afastam totalmente de Deus (pecado) e recorrer, entre outros auxílios, ao sacramento da reconciliação.
Com o auxílio da graça de Deus, está o orante predisposto para entrar nas Segundas Moradas.
Video
Ficheiro
2013-05-10
