Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Castelo Interior: Segundas Moradas – Capítulo único
As Segundas Moradas são as moradas da luta e da perseverança, ou melhor ainda, da perseverança na luta. “Grande guerra”, reza o título. Podemos dizer que o cenário das Segundas Moradas é o de um campo de batalha, onde a pessoa e Deus se encontram em relação constante. Apesar da prática da oração estar mais disciplinada, contudo fica ainda muito por fazer e, por isso, é tempo de lutar, pôr os fundamentos e dar consistência à obra de Deus.
A estratégia principal, apontada pela mistagogia nestas Segundas Moradas é “trabalhar e determinar-se e dispor-se” (n. 8):
- trabalhar, porque falta muito caminho por andar;
- determinar-se, porque a vontade está muito frágil;
- e dispor-se, porque a obra é de Deus e corresponde à pessoa acolhê-la adequadamente.
É aqui que entra a mistagogia que indicará como se há-de realizar este trabalhar, determinar-se e dispor-se.
Comparativamente à etapa anterior, a situação melhorou, mas torna-se mais dolorosa. A pessoa entra numa tensão forte e numa luta entre dois mundos contrários entre si: Deus-criaturas, interioridade-exterioridade, fé-natureza. Os moradores das Segundas Moradas têm “mais trabalho” que os das Primeiras Moradas, porque entendem as exigências de Deus e experimentam a sua impotência para responder.
A tarefa que a pessoa vai desempenhar nestas Segundas Moradas é árdua e as tentações de voltar atrás não são poucas, de maneira que a Santa Madre nos exorta: “Procuremos fazer o que está em nossa mão e guardemo-nos das sevandijas; que muitas vezes quer o Senhor que haja securas e nos persigam maus pensamentos e nos aflijam, sem os podermos afastar de nós, e até algumas vezes permite que nos mordam, para que nós nos saibamos melhor guardar depois e para ver se nos pesa muito de O ter ofendido” (n. 8).
E exorta o orante a não desanimar, porque esta etapa é muito necessária e, sem ela, não irá adiante: “Por isso, não vos desanimeis, se alguma vez cairdes, para deixar de ir por diante; pois, dessa mesma queda, tirará Deus bem” (n. 9).
Ao mesmo tempo que o convida a não desanimar, Teresa exorta-o ainda a pôr o olhar e o coração no horizonte que está chamado a alcançar, dizendo: “Porque não são estas moradas onde chove o maná; estão mais adiante, onde tudo sabe ao que uma alma quer, porque não quer senão o que Deus quer” (n. 7).
Para não dar com o edifício todo em terra, a Santa Madre apresenta um programa certeiro e cheio de força.
Portanto, como vemos, etapa de luta. Teresa não entende a vida cristã, como idílio, mas como uma batalha. Já no Caminho de Perfeição tinha dito às suas Irmãs: “Encerradas lutamos”. Que não viemos “a regalar-nos por Cristo, mas a morrer com Cristo”. Mais que o “jardim cerrado” do Cântico dos Cânticos, cada Carmelo é “um Castelo assediado”.
Com as Primeiras Moradas, a Santa Madre introduz o leitor dentro do Castelo, o mesmo é dizer, na sua interioridade. Para se manter dentro do Castelo, isto é, na sua interioridade, a pessoa tem que lutar.
Este período de luta começa logo que o orante entra no Castelo da sua interioridade e prolongar-se-á quase até às últimas moradas.
Como os soldados selectos de Gedeão
Tal como nas Primeiras e Terceiras Moradas, também aqui ao principiante das Segundas Moradas, a Santa Madre lhe sugere um tipo bíblico, com o qual possa identificar-se: os soldados de Gedeão. Coloca-o exactamente no centro da sua exposição, no n. 6 do Capítulo: “Esteja sempre de sobreaviso para não se deixar vencer; porque, se o demónio a vê com uma grande determinação de que, antes perderá a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece, do que voltar ao primeiro aposento, muito mais depressa a deixará. Seja varão e não dos que se deitavam a beber de bruços, quando iam para a batalha, não me lembro com quem, mas determine-se: vai pelejar com todos os demónios e não há melhores armas do que as da Cruz”.
Sublinhemos os traços fortes do parágrafo:
- Não se deixar vencer
- Ter grande determinação
- Vai para a batalha
- Antes perder a vida e o descanso e tudo…
- Que se determine a lutar com todos os demónios
- Não voltar atrás, à Primeira Morada
- Seja varão
- Não há melhores armas que a cruz
- Não procurar o próprio deleite
Como vemos aparece um léxico e imagens que reflectem e prolongam o símbolo fundamental do Castelo. Como sabemos do relato dos soldados de Gedeão, dos mais de trinta mil só ficaram trezentos, isto é, os mais valentes. É o tipo do lutador afincado das Segundas Moradas do Castelo. É claro que a Santa Madre retira também esta imagem da luta de São Paulo e dos textos da Regra.
Segundo Santa Teresa, não há perspectivas de vida cristã adulta – e menos ainda, mística experiência de Deus – para cobardes, comodistas, preguiçosos e timoratos, nem para aqueles que entram no Castelo com o sonho do idílio intimista. Por isso ela ridicularizará insistentemente os directores espirituais “com senso demasiado”, que programam a entrada no Castelo a “passo de galinha”. Ela prefere a imagem da águia.
Lutamos… “dentro do Castelo”
Já no Caminho de Perfeição usou esta estratégia. A batalha decisiva, combate-a o homem dentro de si mesmo. Começava assim o Capítulo X daquele livro: “encerradas aqui nas condições que estão ditas, parece que já temos tudo feito e que não há que pelejar com ninguém. Ó minhas Irmãs, não vos tenhais por seguras, nem vos deiteis a dormir, pois acontecer-vos-á como àquele que se deita muito sossegado, tendo fechado muito bem as portas por medo dos ladrões, e os deixa em casa. E já sabeis que não há pior ladrão que o que está em casa, pois ficámos nós mesmas” (C 10,1).
“Não há pior ladrão que nós próprios”. Já nas Primeiras Moradas a Santa Madre tinha apresentado como paisagem de fundo o pecado como força capaz de arruinar o Castelo. Agora, nas Segundas Moradas, apresenta o pecado não como um facto pontual, uma batalha perdida, mas superada definitivamente com o perdão e o regresso ao Castelo. O pecado é a dinâmica do mal introduzida na vida humana e tem a sinistra capacidade de desencadear umas forças de desordem, difíceis de desalojar das moradas do Castelo.
A Santa Madre começou o seu livro com uma visão exaltante da beleza e dignidade humana, mas não prolonga com uma imagem ingénua e angélica da vida. O homem é, ao mesmo tempo, estas duas coisas:
- beleza e dignidade no seu ser (beleza do Castelo);
- luz e sombras, grandeza e miséria na sua história (vida no Castelo).
A ordem interior não é um pressuposto ou um ponto de partida. Será conquista quotidiana, morada após morada, e meta definitiva no mais profundo da alma.
No simbolismo do Castelo, o pressuposto de fundo consiste em que o fosso que o rodeia (e que simboliza estas dificuldades e ajustes entre corpo/espírito) é um ninho de sevandijas molestas e víboras peçonhentas. São as forças de desordem introduzidas no Castelo pelo pecado. Se não se combatem, avançam moradas adentro. E claro está: “Mas isso fizeram estas coisas peçonhentas que tratamos; como alguém que é mordido por uma víbora se empeçonha e incha todo, assim aqui, se não nos acautelamos” (n. 5).
Nestas imagens usadas pela Santa Madre, ela analisa a realidade do homem e propõe três frentes de combate:
- o interior: desordem e conflito dentro de nós próprios. Quem entra nas Segundas Moradas sente-se desconfortável no próprio Castelo: “Poderá haver maior mal do que não nos acharmos em nossa própria casa? Que esperança podemos ter de encontrar sossego em outras coisas, se nas próprias não podemos sossegar? Mas tão grandes e verdadeiros amigos e parentes, com quem (…) sempre havemos de viver, como são as nossas potências, parece fazerem-nos guerra, como que sentidas da que lhes fizeram os nossos vícios” (n. 9).
- o exterior: quem padeceu o mal do pecado, alienando-se em certo modo, e colocando o seu centro de gravidade fora de si, agora sofre a atracção das coisas e pessoas que o subjugaram; sofre o feitiço dessa solicitação, o prolongamento da sua tirania. Tem que recuperar terreno e enfrentar-se com tudo isto para readquir a liberdade e o domínio de si.
- o transcendente: os “demónios” dirá a Santa Madre. Ela acredita, como São ulo, que na luta que trava todo o cristão, intervêm forças misteriosas que o superam (Ef 6, 11). A Santa Madre acredita no demónio. Experimentou-o como encarnação da mentira e do mal. Contra estas forças misteriosas há que estar vigilante no umbral do Castelo interior, porque “é terrível a violência que aqui usam os demónios de mil maneiras” (n. 3).
O porquê da luta
Qual é o motivo deste programa de luta? Como será fácil concluir, combater não é a última razão da vida nestas Segundas Moradas: luta-se para recuperar o equilíbrio interior. Luta-se pela paz. Luta-se pelo que marca toda a ascese: a perfeição. Luta-se pelo Senhor do Castelo: para poder fazê-lo digno d’Ele e entregar-Lho. Luta-se para olhá-Lo a Ele, não a nós. Luta-se para fazer a Sua vontade, não a nossa. Basta escutar a escalada de objectivos propostos pela Santa Madre nos seus textos:
- “Paz, paz, minhas irmãs, disse o Senhor e admoestou os Seus Apóstolos tantas vezes. Pois, crede-me que, se não a temos e não a procuramos em nossa casa, não a acharemos na dos estranhos. Acabe-se já esta guerra; pelo Sangue que Ele derramou por nós o peço eu aos que não começaram a entrar em si; (…) Olhem que é pior a recaída que a queda” (n. 9).
- “Toda a pretensão de quem começa a ter oração (e não vos esqueça isto, pois importa muito) há-de ser trabalhar e determinar-se e dispor-se, com quanta diligência puder, a fazer conformar a sua vontade com a de Deus; (…) nisto consiste toda a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual. (…) Não penseis que há aqui muitas algaravias nem coisas não sabidas e compreendidas (…), que nisto consiste todo o nosso bem” (n. 8).
Já no Caminho tinha escrito, a propósito da limpeza interior: “Ora, se enchemos o palácio de gente baixa e de bagatelas, como há-de caber o Senhor com a Sua corte?” (C 28,12).
Deve-se lutar por um amor limpo, gratuito, desinteressado, pois o grande erro inicial neste caminho de oração-amizade e que vicia tudo é querer “logo que o Senhor faça a nossa [vontade] e que nos leve como imaginamos” (n. 8).
Fundo autobiográfico presente nas Segundas Moradas
A Santa Madre ao apresentar este Capítulo tem, por base, as suas próprias vivências e experiência. Vamos deter-nos um pouco, em concreto, na sua experiência pessoal e ver a que período da sua vida correspondem as Segundas Moradas.
No relato da Vida referiu por extenso os altos e baixos das Segundas Moradas do seu próprio Castelo:
- primeiros anos da sua vida de Carmelita na Encarnação;
- grandes fervores iniciais;
- têmpera e paciência heróica na sua enfermidade;
- oito meses de paralisia total na enfermaria, e “quase” três anos de lenta recuperação, de modo que “quando comecei a andar de gatas, louvava a Deus” (V 6,2);
- mas, sobretudo, o baixo dos anos cinzentos, o seu esfriamento no ideal religioso;
- o andar “de passatempo em passatempo, de vaidade em vaidade” (V 8,12);
- abandono da oração;
- frouxidão na piedade eucarística;
- conformismo na vida religiosa;
- dispersão afectiva.
Tudo isto na alternância dos grandes desejos e de luta consigo mesma: “Desejava viver, pois bem entendia que não vivia, antes pelejava com uma sombra de morte e não havia quem me desse vida nem a podia eu tomar” (V 8, 12).
Este é, sem dúvida, o pano de fundo autobiográfico de vida e a experiência que a Santa Madre tem presente, quando agora nos fala de luta e desordem nessa zona do Castelo, que são as Segundas Moradas. Mas na primeira exposição do Livro da Vida, tinha completado o quadro narrativo com uma série de conselhos doutrinais dados ao principiante, como complemento indispensável da luta:
- antes de tudo, que viva com alegria e se mova com liberdade (V 13, 1);
- que ponha a sua confiança em Deus e “não apoucar os desejos”, que “Deus é amigo de almas animosas”;
- que faça seu o lema de São Paulo: “Tudo se pode em Deus”, e o de Santo Agostinho: “Dá-me, Senhor, o que me mandas e manda o que quiseres” (V 13,3), e o lema pessoal de Santa Teresa: “Desejos, sempre os tive grandes” (V 13,4);
- que aponte alto, porque “vai muito de, nos princípios – ao começar a ter oração – não apoucar os pensamentos” (V 13, 7);
- humildade: é necessário estar fundamentado nela e amar a verdade: “espírito que não vá fundado na verdade, eu mais o quisera sem oração” (V 13,16); e, para isso, que se alimente com o pão da Bíblia: “apoiados nas verdades da Sagrada Escritura, fazemos o que devemos” (V 13,16);
- não se refugie em devoções sem fundamento: “De devoções tontas, livre-nos Deus!” (V 13,16), etc.
Todos estes conselhos de ascese condensá-los-á a Santa Madre no Caminho de Perfeição nalguns princípios fundamentais: praticar o amor de umas para com as outras; desapego e liberdade de espírito; humildade e franca disponibilidade para os desígnios de Deus; sede da água viva; determinada determinação…
No livro das Moradas, a Santa Madre vai reduzir ao essencial a paisagem das Segundas Moradas: a vida é vivida no meio da luta. Os conselhos de Vida e Caminho são indispensáveis para fazer uma ideia adequada da ascese Teresiana: viver e lutar! Aqui no Castelo preferiu condensar o seu programa ascético no aspecto combativo, como São Paulo, em quem ela se inspira, porque lhe interessa curar o principiante da ilusão da vida fácil dentro do Castelo. Não é fácil viver como cristão. Por isso, a sua síntese das Segundas Moradas, poderia formular-se assim: “No Castelo luta-se”.
Toda a lição que a Santa Madre deu às suas filhas, aplica-se igualmente a nós. Não nos deixemos levar pelo comodismo, por soluções rápidas e fáceis, de reduzir a radicalidade do Evangelho aos cânones de um humanismo bonacheirão. O que Teresa inculca é o mesmo que Paulo escreve a Timóteo: “A fé um bom combate: luta para conquistar a vida eterna” (1 Tim 6,12). “Trabalha como bom soldado de Cristo… Não será coroado senão quem tiver lutado até ao fim” (2 Tim 2,5).
Também a Santa Madre o formulou assim nas Segundas Moradas: “Irmãs, abraçai-vos com a cruz que vosso Esposo tomou sobre Si e entendei que esta deve ser a vossa empresa” (n. 7).
Processo mistagógico das Segundas Moradas
Nível teológico: Cristo cura com amor misericordioso
A base teológica das Segundas Moradas está toda impregnada da presença do Deus de Jesus, na sua dimensão crucificada.
Antes de pretender qualquer avanço nestas Segundas Moradas ou progresso espiritual, há que apresentar ao orante o rosto do verdadeiro Deus e como O há-de reconhecer; sem conhecer este rosto, não poderá avançar. Como é o rosto de Deus nestas Segundas Moradas? Que face nos apresenta Deus de Si? Será este rosto de Deus, conhecido pelo orante, que o fará avançar e perseverar na luta.
É um Deus que conhece a condição pecadora do homem, está presente na sua história, ama-o com entranhas de misericórdia, procura-o, busca-o, espera-o e, no meio das muitas quedas e tentações, sabe tirar bens dos males.
A Santa Madre vai ainda mais longe quando afirma que Deus deseja a companhia da pessoa: “… tem em tanto este Senhor nosso que O amemos e procuremos a Sua companhia …” (n. 2). Isto só o pode dizer quem provou na sua vida a profundidade da misericórdia de Deus. Porque Deus é, na verdade, um Deus presente mesmo no pecado do homem, é o verdadeiro amador que cura, espera, e pede amor e companhia por parte da pessoa. Se assim é, porque nos derramamos tantas vezes, naquilo que não sacia, nem traz qualquer bem, quando temos à mão, e tão perto e desejoso de nós, este Deus de amor?
O pecado – ao contrário do que está muitas vezes no inconsciente do homem, por uma má-formação religiosa, de educação - não separa o homem de Deus. O pecado não é obstáculo para que a graça se derrame, ao contrário, é o lugar, por excelência para derramar o amor, porque o pecado é uma falta de amor que há no homem e só Deus pode encher este vazio de amor. A misericórdia é este derramar-se do amor de Deus no vazio do homem, que não tem amor, e a cura que se opera no homem é esta. Assim, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20), na pessoa de Jesus Cristo.
Do mesmo modo, a Santa Madre quer que as Irmãs tenham isto muito bem presente, esta imagem do Deus misericordioso, para poderem avançar espiritualmente: “Por isso, não vos desanimeis, se alguma vez cairdes, para deixar de ir por diante; pois, dessa mesma queda, tirará Deus bem” (n. 9). “Que muitas vezes quer o Senhor que haja securas e nos persigam maus pensamentos e nos aflijam, sem os podermos afastar de nós, e até algumas vezes permite que nos mordam, para que nós nos saibamos melhor guardar depois e para ver se nos pesa muito de O ter ofendido” (n. 8).
Concluímos assim que nem o próprio pecado tem força para separar a pessoa de Deus, se a pessoa se deixa conduzir por Ele e procura fazer a Sua vontade (eis o segredo e esforço que o homem tem que realizar), porque como diz a Santa Madre: “Tudo guiará o Senhor em nosso proveito, embora não encontremos quem nos ensine” (n. 10). Porque Deus é um Deus que ama com radicalidade o homem e, se está presente na sua história, não é para outra coisa senão para o amar, e isto é tudo. Deus é só Amor e não sabe fazer outra coisa senão amar.
A pessoa pode saber isto por conhecimento intelectual, mas este não é suficiente. Será necessário o fruto do trabalho assíduo na oração com Deus, de modo que esta convicção cresce de tal maneira que deixa de ser uma lição aprendida, para passar a ser uma verdade conscientemente experimentada. No trato assíduo da oração, este amor de Deus está activo e opera na profundidade da pessoa.
O trato com Deus é fonte inesgotável de cura numa estrutura quebrada, ferida e desorientada.
Este processo de cura é lento e progressivo, mas a graça de Deus presente vai unificando, reconstruindo e transmitindo vida nova ao orante.
Mas, além deste Deus que cura, a Santa Madre atreve-se a apresentar nas Segundas Moradas um Deus necessitado da pessoa, um Deus que ama e espera resposta de amor, um Deus que cura, reconstrói o homem e deseja companhia. Teresa diz-nos isto com estas palavras: “Com tudo isto [com o nosso pecado], tem em tanto este Senhor nosso que O amemos e procuremos a Sua companhia que, uma vez ou outra, não deixa de nos chamar para que nos acerquemos d’Ele. E é esta voz tão doce, que se desfaz a pobre alma por não fazer logo o que lhe manda” (n. 2).
Neste processo de encontro, Deus sempre esperará essa resposta em amor e a Santa Madre diz ao orante das Segundas Moradas: “Bem sabe Sua Majestade aguardar muitos dias e anos, em especial quando vê perseverança e bons desejos. Esta perseverança é aqui o mais necessário, porque com ela jamais se deixa de ganhar muito” (n. 3).
Por isso a tarefa da mistagogia é recomendar e exortar o orante a confiar e a esperar em Deus, como também diz a Santa Madre: “Confiem na misericórdia de Deus e nada em si mesmas, e verão como Sua Majestade leva a alma de umas moradas a outras e a mete naquela terra onde estas feras não a podem tocar nem cansar” (n. 9).
A confiança e a espera são difíceis de alcançar nas primeiras etapas do caminho, porque uma pessoa em processo de encontro com Deus procura resultados imediatos, de todas as ordens: na graça, no crescimento pessoal, na superação de infidelidades e pecados; esquece-se que as realidades humanas não acontecem subitamente. Deus conhece a condição humana e vai ao ritmo do homem, esperando acolhimento no seu devido momento. Se não avançamos mais rapidamente, é porque os obstáculos e lentidão estão do nosso lado, não do lado de Deus. Deus apenas acompanha o nosso ritmo e o respeita.
Nível antropológico: um homem ferido e em caminho de interioridade
O cidadão das Segundas Moradas tem duas características fundamentais: ferido e em caminho. Enquanto ferido, está quebrado e desorientado “que não sabe se há-de passar adiante ou voltar ao primeiro aposento” (n. 4). Descobriu o chamamento de Deus e, respondendo, leva em si toda a sua história humana de quedas, rupturas, desconfianças, traumas e temores; mas, simultaneamente, põe-se a caminho. Um caminho que o conduz a grandes alegrias, novas descobertas e grandes possibilidades, mas em que, ao mesmo tempo, tudo está confuso, misturado, a bulir no mais profundo.
A Madre Teresa tem consciência desta realidade e, por isso, não deixa de dar os seus conselhos, a partir da sua própria experiência. Os perigos são latentes e reais e não devem ser subestimados, porque a graça está a actuar com força, e o orante deve dar o salto da fé, na confiança e no abandono, para continuar o seu caminho para a interioridade.
Na sua complexidade, o orante das Segundas Moradas encontra-se interiormente dividido porque, como diz a Santa Madre, por sua própria experiência: “que ainda estamos com mil embaraços e imperfeições e as virtudes que ainda não sabem andar, pois só há pouco começaram a nascer, e mesmo praza a Deus que estejam começadas” (n. 7).
Ordinariamente, a pessoa que começa o caminho da oração, leva uma vida sem disciplina espiritual e pouco exercício de virtudes; pelo que será necessário tomar consciência desta fragilidade, assumi-la integralmente e pôr-se em caminho de conversão. Os começos são uma tarefa difícil, pelo que o desânimo chega rapidamente e, contraditoriamente, há grandes desejos de superar essa frágil condição com a maior celeridade possível. Diz a Santa Madre: “Toda a pretensão de quem começa a ter oração (e não vos esqueça isto, pois importa muito) há-de ser trabalhar e determinar-se e dispor-se, com quanta diligência puder, a fazer conformar a sua vontade com a de Deus; (…) e estai bem certas que nisto consiste toda a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual” (n.8).
A vontade deve ser activada com afinco, tenacidade e perseverança até que as rupturas e feridas sejam curadas progressivamente pela graça. Mas começou o caminho para a interioridade e esta é a grande vantagem do cidadão das Segundas Moradas para a superação da imobilidade, do passivismo e a indiferença. Pôs-se a caminho e percorre a senda mais árdua: a que o conduz ao seu centro, à sua profundidade, ao seu coração.
Nesta Morada a Santa Madre usa insistentemente o verbo “entender”, porque o orante nesta etapa, tomou consciência de diferentes realidades: de si e de Deus.
Teresa explicita três realidades do orante no começo da vida espiritual:
- “Entendem” que é necessário avançar: “os que já começaram a ter oração e entendido quanto lhes importa não se ficarem nas primeiras moradas” (n.2);
- “Entendem” os perigos que existem: “têm muito mais trabalho que os primeiros, ainda que não tenham tanto perigo; pois parece que já os entendem” (n.2). Os perigos de que fala a Santa Madre são três:
* não deixar as ocasiões (n. 2)
* a guerra do demónio (n. 3)
* as más companhias (n. 6)
- “Entendem” os chamamentos do Senhor: “Assim, estes entendem os chamamentos que lhes faz o Senhor; porque vão entrando mais perto onde está Sua Majestade” (n.2).
A vida é, portanto, mais reflexiva (“entendem”) e menos impulsiva, se está em atitude de maior escuta e com um carácter de realismo particularmente activo.
Transformação: Certeza de estar “em casa”
O estar em caminho de interiorização séria e disciplinada leva o orante das Segundas Moradas a uma transformação significativa:
- descobre-se possuído pelo Outro que o cumula, enche e excede a partir do mais profundo do seu ser;
- tem consciência de ter estado fora de si e compreende que este é o grande perigo;
- centra-se cada vez mais em Deus;
- está menos derramado.
E os frutos que se vão adquirindo são:
- activação da esperança;
- abertura ao amor;
- segurança em Deus;
- sossego;
- desejos de encontro cada vez mais profundos.
A vida adquire tonalidades novas, dinamiza-se a pessoa toda e o horizonte abre-se cada vez mais. Sabe que ainda não chegou à meta, mas “há grande esperança que entrem mais adentro” (n. 2).
Deste modo, a busca da profundidade torna-se cada vez mais urgente, o orante experimenta as doçuras de Deus, intui que no final do caminho o manjar será servido e sabe-se convidado ao banquete; entrou em contacto com a fonte do verdadeiro Amor, um Deus Amigo que o ama como é, pois “logo o entendimento acode dando-lhe a entender que não pode encontrar melhor amigo, ainda que viva muitos anos” (n. 4).
O orante abre-se ao exercício concreto do amor e procura corresponder amando: “a vontade inclina-se a amar Aquele em quem tem visto tão inumeráveis coisas e mostras de amor, e quereria pagar alguma” (n. 4).
O lar é o lugar do calor, do acolhimento, da companhia, da segurança, da paz e do amor. Assim o orante “chegou” a sua casa, deixa de estar derramado noutros lugares que lhe são alheios e começa a possuí-lo, porque Deus: “lhe diz que está certo que, fora deste castelo, não encontrará segurança nem paz; que se deixe de andar por casas alheias, pois a sua está cheia de bens, se a quiser gozar; que ninguém acha tudo que há mister senão em sua casa, em especial tendo tal Hóspede, que a fará senhora de todos os bens; se ela quiser não andará perdida, como o filho pródigo, comendo manjar de porcos” (n. 4).
Estar “em casa” é o grande fruto das Segundas Moradas e será uma grande loucura não estar contentes nelas, isto é, dentro, na intimidade e ao calor do Bom Deus: “Poderá haver maior mal do que não nos acharmos em nossa própria casa? Que esperança podemos ter de encontrar sossego em outras coisas, se nas próprias não podemos sossegar? Mas tão grandes e verdadeiros amigos e parentes, com quem embora não o queiramos, sempre havemos de viver, como são as nossas potências, parece fazerem-nos guerra, como que sentidas da que lhes fizeram os nossos vícios. Paz, paz, minhas irmãs, disse o Senhor e admoestou os Seus Apóstolos tantas vezes. Pois, crede-me que, se não a temos e não a procuramos em nossa casa, não a acharemos na dos estranhos” (n. 9).
Forte interpelação para convidar a tomar consciência da importância da interiorização: a oração e o trato constante com o Amigo. Será necessário, procurar a vontade de Deus, porque só assim se alcançará a meta e a Santa Madre identifica-a com a perfeição da vida espiritual, dizendo: “Toda a pretensão de quem começa a ter oração (e não vos esqueça isto, pois importa muito) há-de ser trabalhar e determinar-se e dispor-se, com quanta diligência puder, a fazer conformar a sua vontade com a de Deus; e – como direi depois –, estai bem certas que nisto consiste toda a maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual. Quem mais perfeitamente tiver isto, mais receberá do Senhor e mais adiante estará neste caminho” (n. 8).
Eis aqui a tarefa do mistagogo: não perder de vista o ponto de chegada (conformar a sua vontade com a vontade de Deus) para que o acompanhado, o “mystes”, se vá adequando a ela cada vez com maior radicalidade.
E, finalmente, a Santa Madre leva o leitor a tomar consciência de que é para o céu para onde vão os cidadãos das Moradas e que a mediação para o alcançar é o caminho de encontro permanente com o Rei das Moradas, que é actividade árdua e difícil, porque passa por assumir as próprias misérias e a reconstrução da pessoa em Deus. O céu espera o orante, de modo que diz a Santa Madre: “Ora, pensar que havemos de entrar no Céu e não entrar em nós, conhecendo-nos e considerando nossa miséria e o que devemos a Deus e pedindo-Lhe muitas vezes misericórdia, é desatino. (…) Pois, se nunca olhamos para Ele [para Jesus], nem consideramos o que Lhe devemos e a morte que sofreu por nós, não sei como O podemos conhecer nem fazer obras em Seu serviço” (n. 11).
Princípios mistagógicos das Segundas Moradas
Em Jesus chamados ao amor
As Segundas Moradas são as do encontro com Jesus que chama para amar e a pessoa experimenta a Sua grata companhia. Há a experiência sensível de se ter encontrado com um Deus misericordioso que assume toda a realidade da pessoa, com feridas incluídas, e que não Se escandaliza da sua história pecadora, mas pelo contrário, aceita-a incondicionalmente.
É a etapa da tomada de consciência de Deus presente na própria história e na pessoa de Jesus Cristo: um Deus feito homem, feito à medida de todos, que sabe rir e chorar, expressando o Seu amor abertamente; e o caminhante “cai na conta” que em Jesus encontra respostas às suas perguntas mais urgentes e vitais (é a tomada de consciência que marca o início do Cântico Espiritual de São João da Cruz, CB 1,1). Por isso se interessará em conhecer Jesus, recorrendo aos Evangelhos, onde descobrirá o Deus humanado que fala, come, anda, sua e vive a existência de todo o mortal.
Amizade com Jesus
A partir do momento em que o orante experimenta que este Deus de Jesus é um Deus próximo, que toma consciência da sua realidade e desce à sua condição, começa a “tratar de amizade com Aquele que sabemos que nos ama” (V 8,5). A oração – trato de amizade – consiste em discorrer, pensar, reflectir os mistérios da vida, morte e Ressurreição do Senhor.
Lutar e ir adiante
Todo o ambiente ordinário do orante, neste momento da vida espiritual, lhe é adverso e tentará separá-lo do caminho começado. Não há que desanimar, porque inevitavelmente virão quedas no meio de tantas tentações. A Santa Madre recordará que Deus presente não desamparará a pessoa e que, apesar, de todas as dificuldades, Deus tirará bens e proveito de tudo isso (cfr. n. 9).
Não forçar a amizade com Jesus
A meditação que o orante inicia está cheia de desejos de conhecer Jesus – já o dissemos – no entanto, nos começos, apresentar-se-ão obstáculos que é preciso vencer. A pessoa não sabe centrar-se nem recolher-se, os pensamentos vão e vêem, atormentando e distraindo; parece-lhe ser impossível pacificar-se no próprio acto da meditação. É a cruz-secura na oração. Não há que se angustiar, dirá a Santa Madre, porque não é pela força que se alcançará a comunhão e amizade com Jesus: há que ir com suavidade (cfr. n. 10) e não lutar contra nós mesmos. Neste sentido é recomendável ter breves espaços de meditação, sobretudo, em torno da pessoa de Jesus e deixar-se, confiadamente, ante a presença do Deus presente, que ama, acolhe e olha. Há um texto da Santa Madre que ajuda a clarificar esta atitude referida: “Pois, voltando ao que dizia, de pensar em Cristo atado à coluna, é bom discorrer um pouco e pensar nas penas que ali teve e por que as teve e quem é Aquele que as teve e o amor com que as passou. Mas não se canse em andar sempre a buscar isto, antes se fique ali com Ele, aquietado o entendimento. Se puder ocupá-lo em ver que o Senhor o olha, e acompanhe-O, e fale, e peça, e humilhe-se, e regale-se com Ele, e lembre-se que não merecia estar ali” (V 13,22).
Deve-se rezar para não cair em tentação, isto é, orar nos momentos de tentação, nas dificuldades, na tentação do egoísmo. Nunca edificar a oração sobre os “gostos”, pois dará com o edifício da vida cristã em terra.
Procurar ajuda
Se nas Primeiras Moradas a Santa Madre recorda que é necessário a conversão como atitude de vida a integrar, nas Segundas Moradas, será ainda mais explícita: há que deixar as más companhias e procurar as boas (cfr. n. 6). As primeiras serão uma constante tentação para sair do Castelo, enquanto que as segundas, ajudarão a continuar e a ir adiante. Chega o momento, então, de se juntar com outros que, de igual modo, foram convidados pelo Rei das Moradas a viver a plenitude e a ter mais certeza da opção tomada nas Primeiras Moradas.
Fazer tudo o que se puder
Começam a germinar grandes desejos de realizar serviços, no entanto, não estão dadas as condições para levá-los adiante. Não há que ter ilusões nem pretender impossíveis, mas é preciso ir com passo seguro e firme; daí que a Santa Madre anime a realizar o humanamente possível (cfr. n. 8): pequenos serviços segundo o tempo e condição da pessoa. Este momento não deve ser de grandes exigências nem responsabilidades, porque há que recordar que juntamente com o ânimo que vai crescendo, as dificuldades e inconsistências começam também a aparecer, coisa que o morador das Segundas Moradas não sabe integrar, pois a sua fé não está ainda madura para acolhê-las e revertê-las.
Conclusão
Em síntese, poderíamos assim resumir as Segundas Moradas:
1 - A vida de oração nestas Moradas apresenta um cariz áspero e duro, mortificante:
* o homem quer orar e não pode. Procura a Deus e encontra-se com o muro da secura.
*radicalmente, esta dificuldade deve-se a uma vida de dispersão, de exterioridade. A fé não encontra ainda o seu lugar; e aparece mais outra razão: o homem é fundamentalmente egoísta, procura-se a si mesmo, e não a Deus.
2 - Há a tentação de abandono, de voltar à vida anterior, a claudicar. A esta tentação, a Santa Madre opõe a perseverança que é uma palavra-chave nas Segundas Moradas. Não é ainda nestas moradas que “chove o maná”. Está mais adiante. A perseverança tem uma razão suprema: Deus. Ele espera e valoriza muito estes esforços iniciais.
3 - Face a isto, a Santa Madre apresenta a noção da “substância” da perfeição-oração: aceitar o OUTRO e abandonar-se às Suas iniciativas. Deus faz tudo bem feito. A pessoa é convidada a amar com pureza, desinteressadamente, isto é, a “abraçar-se com a Cruz de vosso Esposo…” sem condições.
4 - Para que o Castelo que se começa a levantar não venha todo abaixo, é preciso sustentá-lo sobre a confiança em Deus e desconfiança de si (n. 9).
5 - É ainda necessário procurar a ajuda e o apoio de quem se nos apresenta autenticado pela experiência e letras. Sozinhos não podemos fazer o caminho. Devemos abrir-nos “com quem trata do mesmo” (n. 6).
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Ficheiro
2013-06-14
