Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
A Santíssima Trindade, a Encarnação e a Eucaristia (1ª Parte)
«Já vejo, Esposo meu, o que Vós sois para mim; não o posso negar; por mim viestes ao mundo, por mim passastes tão grandes trabalhos, por mim sofrestes tantos açoites, por mim ficastes no Santíssimo Sacramento e agora me fazeis tão grandíssimos regalos. Pois, Esposa santa, como disse eu que Vós dizeis: que posso fazer por meu Esposo? “Por certo, irmãs, que não sei como passo de aqui. E que serei eu para Vós, meu Deus? Que pode fazer por Vós quem se deu tão mau jeito em perder as mercês que me tendes feito? Que se poderá esperar de seus serviços? E ainda que, com o vosso favor, faça alguma coisa, vede o que poderá fazer um verme: para que necessita dele um tão poderoso Senhor? Ó amor! Que em muitos lugares quisera eu repetir esta palavra, porque só ele se pode atrever a dizer com a Esposa: eu para meu amado. Ele dá-nos licença para que pensemos que tem necessidade de nós, este verdadeiro amador, esposo e Bem meu» .
O mistério trinitário é, em si mesmo, um mistério insondável de relação e comunicação pessoal entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Trindade «imanente». O Deus da revelação cristã não é uma essência isolada, mas pela superabundância da sua vida e do seu amor se dá e se comunica; é um Deus em comunhão. Sendo em si mesmo vida e amor, é para nós também fonte de vida e de amor. É a manifestação histórica do mistério trinitário.
A Trindade «económica» ou as operações “ad extra” de Deus realizam-se sempre na unidade, pois são três Pessoas numa só essência . Na Encarnação do Verbo – «tomou carne humana» – caso mais palpável da distinção nas operações “ad extra” – «estavam todas três». A Eucaristia é a presença real de Cristo no coração da Igreja.
«É bom estar com Ele e, inclinados sobre o seu peito como o discípulo amado» (Jo 13, 25), sondar o amor infinito do seu coração. Se o cristianismo se há-de distinguir no nosso tempo sobretudo pela “arte da oração”, como não sentir uma renovada necessidade de estar longos momentos em conversação espiritual, em adoração silenciosa, em atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento?» .
A Santíssima Trindade é a fonte da história da salvação. Tudo procede do Pai, pelo Filho e pelo dom do Espírito Santo. Tudo volta ao Pai pelo Filho no Espírito Santo. Os homens participam da vida e comunhão de Deus (LG 2-4). Nesta perspectiva trinitária da salvação, a Trindade «imanente» (o mistério trinitário em si mesmo) e a Trindade «económica» (o mistério trinitário participado) são a mesma realidade . A Trindade é o compêndio da fé, recebida no baptismo «em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 18, 19). Pelo baptismo, o homem torna-se, no Espírito do Filho, filho de Deus Pai. Na celebração da Eucaristia recebemos como saudação inicial a bênção da Trindade (2 Co 13, 13) .
1. Teresa de Jesus e a Santíssima Trindade
Teresa de Jesus experimentou muito cedo o Deus «cristão», a saber, o Deus revelado em Jesus Cristo e no Espírito Santo. O Deus trino revelou-se em Jesus. A obra da encarnação e da redenção, realizada por Jesus, é uma obra da Trindade. A Eucaristia, por um lado, actualiza «o nascimento de Cristo na forma de servo», e, por outro, enquanto, faz memória do sacrifício do Redentor na Cruz, prepara-nos para «contemplar a beleza de Cristo na forma de Deus». Na verdade, o «banquete do Pai celeste» torna-se para nós «fonte de vida» eterna.
«O Deus da revelação e da graça, experimentado por Teresa como uma presença salvadora na sua vida por meio de Jesus Cristo, manifesta-se-lhe, por fim, como o Deus trinitário. As pessoas divinas, “todas três”, comunicam com ela, falam-lhe, estão presentes na sua vida. São a sua companhia permanente, a partir de 1571, data da sua primeira experiência trinitária. A descoberta do mistério trinitário, por via experiencial, representa uma novidade determinante, que dá um rumo novo à sua vida. Até aqui, Teresa tinha vivido o mistério de Deus, à luz de uma dupla presença: a presença por graça e a presença cristológica. Agora descobre-se-lhe sob uma nova perspectiva: a presença trinitária. São os três escalões principais do seu itinerário espiritual: a experiência da presença real de Deus na alma (1544-1554), a experiência da presença de Cristo no mistério da sua Humanidade (1560) e a experiência da presença da Santíssima Trindade, que sente como companhia permanente (1571)» .
A primeira graça mística de santa Teresa de Jesus é a experiência da presença de Deus na sua alma (V 18, 15; 5 M 1, 10), presença que é o fundamento da oração teresiana (CV 28, 2) e do Castelo interior (1 M 1, 1). O mistério de Deus, presente, vivo, e actuante em Cristo, acolhido em fé, é a fonte e raiz de toda a vida mística . Teresa experimenta o mistério de Deus e todos os mistérios da fé na sua totalidade . A experiência teresiana de Deus vincula-se à experiência da presença de Deus por graça, à experiência da pessoa de Jesus Cristo e à experiência do mistério Trindade . A presença de Deus aprofunda-se, torna-se cristológica e trinitária . No maior grau da vida espiritual, no matrimónio espiritual, surge a relação entre a humanidade de Cristo e o mistério trinitário.
«Desde o mistério da humanidade sacratíssima, que é porta, caminho e luz, chegou até ao mistério da Santíssima Trindade (7 M 1, 6), fonte e meta da vida do homem, “espelho onde está esculpida a nossa imagem” (7 M 2, 8)» .
A codificação doutrinal da experiência mística teresiana, paradigma e ponto de referência da mística carmelita, encontra-se no livro de As Moradas ou Castelo Interior. Nele os três eixos centrais da sua espiritualidade – presença de Deus por graça, pessoa de Cristo e Trindade – confluem no mesmo vértice da união mística, que é o matrimónio espiritual, descrito nas sétimas moradas, como plenitude da vida cristã. Compreende os seguintes conteúdos doutrinais: a plena revelação do mistério da Santíssima Trindade (cap.1); a plena comunhão com Cristo no matrimónio espiritual (cap.2); a transformação do ser humano pela comunhão com Cristo e pela participação no mistério trinitário (cap. 3); a plena realização do ser cristão, transformado por essa tríplice experiência (Deus-Trindade, Cristo, Homem novo), fonte de fecundidade apostólica e de serviço eclesial (cap.4) .
Os quatro elementos que realçam a plenitude da vida cristã – o trinitário, o cristológico, o antropológico e o apostólico-eclesial – respondem todos ao núcleo da teologia da graça, que compreende: a) a participação do mistério trinitário, fonte e cume da vida espiritual; b) a comunhão de vida com Cristo, fonte de salvação; c) a transformação da condição humana, no seu ser e no seu agir; d) a fonte de um novo dinamismo, que se exprime no serviço apostólico-eclesial .
A pessoa de Jesus Cristo é o centro objectivo e dogmático da oração contemplativa. A contemplação teresiana da humanidade de Cristo é a revelação ou manifestação pascal de Cristo na sua santa humanidade, nos mistérios da sua pessoa humana-divina (V 22; 6 M 7).
«Cristologia da Trindade»
«Quanto mais adiante vai uma alma, mais acompanhada é por este bom Jesus» (6 M 8, 1). Jesus é o «livro vivo, livro verdadeiro onde vi as verdades» (V 26, 6). «Evidentemente as verdades de Deus trino e de si mesma, filha chamada a participar plenamente da filiação divina» . A profunda relação de Teresa com «Jesus Cristo, filho da Virgem» (V 27, 4), – «não homem morto, mas Cristo vivo» (V 28, 8) – levou-a à profunda experiência do mistério trinitário como «comunicação das Três Pessoas». A experiência mística do «homem e Deus... como saiu do sepulcro depois de ressuscitado» (V 28, 8), conduziu-a à clara percepção do «mistério da Santíssima Trindade», por fé tão viva que até se sente capaz de a defender numa «discussão» com os teólogos: «A alma vê-se num momento sábia, e tão declarado o mistério da Santíssima Trindade e outras coisas mui subidas, que não há teólogos com quem se não atrevesse a disputar a verdade destas grandezas» (V 27, 9) .
«Jesus Cristo é como o centro a partir do qual a nossa Santa capta o mistério trinitário» . Embora «possa parecer chocante», falou-se de uma «cristologia da Trindade», no sentido de que «o nosso acesso à Trindade se efectua através de Jesus Cristo» . Ela di-lo à sua maneira: «Se perdem o guia – que é o bom Jesus – não acertarão com o caminho» (6 M 7, 6). Teresa pressentiu Cristo ao seu lado (6 M 8, 2-3). Deus, no seu amor trinitário, deleita-se em si mesmo, mas também se compraz e deleita em seu amado Filho – que O conhece, ama e louva como Ele merece –, na alma de Maria, na de Teresa, e na de todos os seus filhos. Na Trindade, o Espírito é o laço de amor que une o Pai e o Filho.
«Ó alma minha! Considera o grande deleite e grande amor que te tem o Pai em conhecer o Seu Filho e o Filho em conhecer o Seu Pai, e o ardor em que o Espírito Santo se junta com Eles e como nenhuma das Três Pessoas se pode apartar deste amor e conhecimento, porque são uma mesma coisa. Estas soberanas Pessoas se conhecem, estas se amam e umas com as outras se deleitam. Pois, que necessidade há de meu amor? Para que o quereis, Deus meu, ou que ganhais? Oh! Bendito sejais Vós! Oh! Bendito sejais Vós, Deus meu, para sempre! Louvem-Vos todas as coisas, Senhor, sem fim, pois não o pode haver em Vós. Alegra-te, alma minha, que há Quem ame a Deus como ele merece. Alegra-te, que há quem conheça Sua bondade e valor. Dá-lhe graças, porque nos deu na terra Quem assim O conhece, como Seu Filho único que é. Sob este amparo poderás achegar-te a Ele e apresentar-Lhe as tuas súplicas. E pois que sua Majestade se deleita contigo, que todas as coisas da terra não sejam bastantes para te apartar de te deleitares e alegrares na grandeza do teu Deus e em como merece ser amado e louvado; e te ajude para que tenhas alguma partezita em ser bendito o Seu Nome e possas dizer com verdade: “A minha alma engrandece e louva ao Senhor”» .
O mistério pessoal de Jesus Cristo – o cristocentrismo evangélico (V 3, 4. 22), o cristocentrismo místico (V 26-29), a contemplação da Humanidade de Cristo “nos peitos do Pai” em intimidade ontológica com Ele (V 38, 17), a relação pessoal com o Espírito Santo (V 38, 9-11), etc...– levaram Teresa de Jesus ao «diálogo» pessoal com o mistério da Santíssima Trindade, coração da sua mística e vértice da sua experiência espiritual . A mística teresiana é uma mística trinitária, ou seja, “o conhecimento experiencial de Deus”, do Deus da revelação, Uno e Trino, que nos falou em Jesus de Nazaré e actua pelo Espírito Santo .
«Entender por vista»
As Três Pessoas divinas ocupam plenamente o espaço e o tempo da sua alma e estabelecem com ela uma relação interpessoal até a «recolher» dentro da sua própria vida trinitária . Teresa, na sua linguagem típica, diz-nos que «o que acreditamos por fé» sobre a Santíssima Trindade, «o entendemos por vista» (7 M 1, 6). Este conhecer a Trindade «por vista» é ainda diferente de conhecê-la «por ouvir» falar dela os teólogos (CC 60, 1). Na experiência espiritual autêntica, fonte de alegria e de vida, mesmo na luz e na profundidade da união, Teresa não consegue «ver» a Deus , embora fale de «entender por vista», porque é uma experiência de fé (Jo 20, 29), que é dom do Pai (Jo 6, 65). A experiência mística é a experiência inefável da inhabitação das três Pessoas divinas, que se dá unicamente pela fé: «Quão diferente coisa é ouvir estas palavras e crê-las a entender por esta maneira quão verdadeiras são!» (7 M 1, 8). A experiência espiritual cristã é uma participação da vida divina em Cristo pelo Espírito . É uma experiência do Espírito de Cristo, ao mesmo tempo, «espiritual» e «crística».
Para São Paulo, a experiência cristã é o «conhecimento do amor de Cristo que ultrapassa todo o conhecimento» (Ef 3, 17-19). Para São João da Cruz, a experiência mística cristã é «saber por amor, em que não somente se sabe, mas juntamente se gozam as verdades divinas» (CB pról 3). «Saber por amor» é «conhecer» e «saborear» a doçura do amor de Cristo: «Saboreai e vede como o Senhor é bom» (Sl 34, 9). A Eucaristia é realmente um lugar privilegiado da experiência mística . Teresa fala da sua experiência mística imediata, nos seguintes termos: «Sua Majestade mo fez entender por experiência» (V 22, 3).
Qual a «experiência teresiana» da Trindade, do mistério trino e uno do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Quais as graças místicas trinitárias com que foi agraciada? Qual foi a sua relação com «cada Pessoa divina»? À luz da «experiência mística» teresiana , podem os teólogos construir uma ontologia e uma economia do mistério trinitário?
«O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou então se escutam os mestres, é porque eles são testemunhas» .
Teresa é uma dessas testemunhas extraordinárias da presença e também da aparente ausência do mistério de Deus, das suas revelações e dos seus silêncios, dos júbilos de sua glória e das noites do sentido e do espírito, porque experimentou a presença trinitária no fundo e segredo do seu espírito. O mistério objectivo de Deus inhabita no fundo da alma (1 M 1, 1). «Não nos imaginemos ocas no interior» (CV 28, 10), mas habitados por uma presença, que penetra tudo, o mistério de Deus, revelado em Cristo, que se comunica à alma por graça e transformação até à plena união mística. A sua primeira palavra é Deus conhecido e experimentado como amor. Teresa é “teóloga” e “testemunha”, como São João, de que “Deus é amor” na sua unidade e na sua comunhão trinitária de pessoas. Ela não só experimentou, mas compreendeu e comunicou a verdade e a vida do mistério do amor de Deus. Fala de uma graça de 1570-1571, a qual é como o prelúdio do seu período místico, em que o Senhor lhe fala em nome do Pai – que «se deleita» na alma dela – e do Espírito Santo:
«Faz o que está em teu poder e deixa-Me a Mim agir e não te inquietes com nada; goza do bem que te foi dado, que é muito grande: Meu Pai se deleita contigo e o Espírito Santo te ama» .
«A periodização do itinerário místico da experiência teresiana é fácil de estabelecer. A partir da graça da conversão (1554), começa uma intensa vida de oração, centrada na presença real de Deus na alma e no descobrimento da Humanidade de Cristo, que a levam a franquear o umbral da mística. Seguem-se anos de abundantes graças místicas (1558-1560), que relata na sua primeira Relação e que desembocam na sua obra de fundadora e escritora (1562-1567), com duas obras chave: Vida (1565) e Caminho de Perfeição (1567). Tem a primeira experiência do mistério trinitário e recebe, em plena actividade fundacional, a graça do matrimónio espiritual, chegando a uma altíssima contemplação do mistério da Santíssima Trindade (1571). No meio de uma actividade extenuante, escreve a sua obra cume da mística: Moradas ou Castelo Interior (1577). Os últimos anos (1580-1582) marcam a plenitude da sua experiência divina e do seu serviço eclesial, narrado nas Sétimas Moradas, que desemboca no seu trânsito para a glória. A experiência de Deus por graça (1544-1554), a experiência da pessoa de Jesus Cristo (1560) e a experiência do mistério trinitário (1571): são os três eixos centrais, em torno dos quais gira a mística teresiana» .
Deus trino e uno
«O mistério trinitário é fonte e cume do itinerário espiritual de Teresa de Jesus. A sua descoberta, por via de experiência (1571), supôs uma mudança de rumo na sua vida. Até então Teresa tinha vivido o mistério de Deus, à luz da sua presença por graça e da sua manifestação na pessoa de Cristo. Agora descobre-se-lhe como presença trinitária das três pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. A sua experiência trinitária não se circunscreve ao mistério em si mesmo considerado (Trindade «imanente»), mas compreende também a actuação deste mistério na história da salvação (Trindade «económica). No pensamento da Santa estas duas dimensões aparecem intimamente unidas. A primeira constatação que se desprende duma leitura dos textos é o realismo e a força com que encontra afirmada esta verdade central da fé. É este também o primeiro contributo à vida cristã e à própria soteriologia, necessitada de uma reflexão trinitário-pneumatológica» .
A experiência do mistério trinitário reduz-se aos últimos dez anos da sua vida. A partir de 1571 até 1581, vai comunicando e entregando as suas experiências trinitárias para discernimento eclesial. Elas são a realização máxima da sua comunhão com Deus. O Deus contemplado em Cristo torna-se agora experiência profunda dos Três, de difícil comunicação discursiva: «parece que me fazia algum impedimento ver três Pessoas» . É nas Contas de Consciência ou Relações que, de modo confidencial, nos deixa a sua «visão trinitária», na dimensão ad intra e ad extra. Ela contava o que «via».
«Comecei por esta breve evocação da temporã, constante experiência de “Deus” que Teresa tem, e a tradução que dela faz, porque quero deixar assente que não nos devemos cingir com rigidez aos termos (Deus, sua Majestade, o Senhor, Trindade, etc.), quando queremos aproximar-nos da experiência teresiana do Deus trino, nem sequer se nos reduzíssemos aos escritos posteriores à plena experiência do mistério trinitário. Porque estou convencido de que a sua experiência de Deus é sempre experiência do Deus-comunidade trinitária, por ser experiência do Deus cristão, embora não o diga expressamente até aos dez últimos anos da sua vida. Quando Teresa fala de Deus que se comunica e nos une a ele, nos transforma nele, devemos entender que nos comunica a sua vida trinitária e nos transforma na sua própria vida, tornando-nos sujeitos, membros da mesma na comunhão com a dos Três. Embora não duvide, antes estou convicto, de que em Teresa se assinalam claramente as etapas da revelação divina: Deus, Cristo, Trindade» .
O estádio de plenitude cristã começou nela com o facto trinitário (7 M 1), continuou com a plena inserção no mistério cristológico (7 M 2) e aterrou no facto humano de como é por dentro e de como age o cristão agraciado pela Trindade e por Cristo (7 M 3). Neste sentido, o estilo da sua plenitude de vida é o resultado e o “efeito” do que nela fez a Trindade que a habita e a Humanidade de Cristo que a santifica .
«Na terça-feira depois da Ascensão, tendo estado algum tempo em oração depois de comungar, aflita porque me distraia de modo que não podia estar fixa em uma coisa, queixava-me ao Senhor da nossa miserável natureza. Começou-se a inflamar minha alma, parecendo-me entender claramente que tinha presente toda a Santíssima Trindade, em visão intelectual, na qual, por certo modo de representação, que era uma figura da verdade, a fim de que na minha rudeza pudesse compreendê-lo, a minha alma entendeu como Deus é trino e uno. E, assim, parecia-me que as três Pessoas me falavam e se representavam distintamente dentro da minha alma. Foi-me dito que, desde esse dia, eu veria em mim melhoria em três coisas, das quais, cada uma destas Pessoas me fazia mercê: na caridade, no padecer com alegria e no sentir esta caridade com abrasamento na alma. Então entendi eu aquelas palavras que o Senhor diz: que estarão com a alma em graça as três Divinas Pessoas, porque As via dentro de mim, pelo dito modo. (…) Parece que ficaram tão impressas na minha alma aquelas três Pessoas que vi, sendo um só Deus, que, a durar assim, impossível seria deixar de estar recolhida com tão divina companhia» .
O estádio final da sua vida cristã é o sumo grau de relação com Deus em Cristo. O perfil de Deus em Cristo aparece agora como profunda experiência dos Três. A própria Santa estranha a novidade das Três Pessoas: «estava habituada a trazer só Jesus Cristo» .
«Deus é um só em três Pessoas»
A Santa conta-nos, em 1565, uma experiência mística trinitária, não tanto como experiência mística da inhabitação divina , mas como intuição e compreensão teologal da mesma, uma visão intelectual da Trindade na unidade e distinção de Pessoas. É de tal modo altíssima a sua experiência do mistério trinitário que parece «entender» o mistério do Deus Uno et Trino.
«Estando uma vez a rezar o salmo “Quicumque vult”, deu-se-me a entender a maneira pela qual Deus é um só em três Pessoas tão claramente, que eu me espantei e consolei muito. Fez-me grandíssimo proveito para conhecer mais a grandeza de Deus e as Suas maravilhas e quando penso ou oiço tratar da Santíssima Trindade, parece-me que entendo como pode ser, e é para mim de muito contentamento» .
«A concepção teológica de Deus legada pela Santa nos seus escritos consta de dois grandes períodos. O primeiro correspondente a Vida, Caminho e as três primeiras Relações, quando se encontrava pessoalmente nas sextas moradas. O segundo período é constituído pelos escritos posteriores a 1571 em que tinha começado as sétimas. As sextas são uma antecipação do mistério trinitário que, embora sejam graças esporádicas, configuram uma teologia essencialmente cristológica, mas já dentro do paradigma trinitário. V 27, 9 e 39, 25 foram duas graças – «basta uma mercê destas para trocar toda uma alma» (V 27) –, que não devem passar inadvertidas. Apontam para a torrente de graças trinitárias e confirmam o último pensamento teológico do qual são germe, a unidade e a relação da teologia trinitária com a cristologia. O Deus de Teresa, tal e como se encontra nos escritos, é sempre Deus uno e trino em Cristo, embora com diferente intensidade conforme analisemos o primeiro ou segundo período» .
P. Manuel Reis, OCD
Video
Ficheiro
Teresa_SSTrindadeEncarnacaoEucaristia_parte1.pdf ![]()
2013-10-15
