Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
A Santíssima Trindade, a Encarnação e a Eucaristia (2ª Parte)
1. 1. A experiência do mistério trinitário
Teresa relata-nos como aconteceu o segundo momento do seu acesso à Trindade. A sua primeira experiência trinitária foi a 29 de Maio de 1571, em São José de Ávila, quando recebeu a visão continuada de Deus, uno e trino, depois de comungar o Senhor na Eucaristia. Percebe nitidamente a unidade de Deus e a Trindade de pessoas (o conteúdo dogmático), embora a sua experiência se concentre na distinção das pessoas divinas e na função que cada uma desempenha na vida espiritual e na história da redenção.
Teresa «dialoga» com as Pessoas divinas – «as três Pessoas me falavam» – que se «representam distintamente dentro da sua alma». O Deus Uno e Trino é transcendente, imanente e condescendente (CV 28, 11). Teresa sente que a Tri-Unidade está presente para nós, isto é, para ser a nossa admirável companhia e comunicar connosco, afável e amigavelmente na oração, o amor e a amizade que os Três nos têm . Teresa «vê», ou seja, «entende» a «fala» das Três Pessoas. A sua experiência da Trindade é uma experiência da inhabitação trinitária na alma em estado de graça mística. É uma experiência do «diálogo» e da comunicação «tripessoal» de Deus e da sua relação pessoal com cada uma das Pessoas divinas .
A «comunhão» das três Pessoas
Teresa vive em comunhão com o Deus tripessoal da nossa fé na unidade do seu ser e na distinção das Pessoas, sem a menor preocupação de uma «tematização conceptual» da sua experiência .
«Certamente, o acento da experiência teresiana não há que pô-lo no conceptual, mas na sua força expressiva e na imediatez com que percebe o mistério. Mas, ao mesmo tempo, há que dizer que a sua experiência está conceptualmente mais próxima da teologia trinitária actual, de inspiração bíblica, que da teologia do seu tempo, de inspiração escolástica, que explica a actividade trinitária “ad extra” (criação, redenção, santificação) como uma actividade comum às três divinas pessoas. Teresa aceita esta explicação – não podia dar outra –, ao proclamar o princípio da unidade de acção das pessoas, mas a sua experiência é distinta; fala-lhe antes da diferenciação da sua actividade salvífica, testemunhada pela Revelação. Daí, uma das suas interrogações fundamentais, que deixa sem resposta: “Como, pois, como vemos que estão divididas três Pessoas, e como tomou carne humana o Filho e não o Pai nem o Espírito Santo? Isto não o entendi eu, os teólogos sabem-no...» .
A «distinção» das três Pessoas
«A nossa inteligência interior do mistério de Deus consolida-se na experiência do mistério da Santíssima Trindade». Na sua experiência trinitária acentua quer o mistério tripessoal de Deus em unidade, quer a unidade na sua comunicação ad extra. Goza da experiência mística trinitária, seja actual, seja habitual, relê a história da sua salvação, e confirma que a obra iniciada por Deus desde a sua infância é levada a cabo pelo Deus trino e uno, «por toda a Santíssima Trindade» que está «presente» na sua alma. A experiência trinitária é uma nova e definitiva etapa do processo místico teresiano. Eis a primeira formulação da sua experiência trinitária, acontecida em Ávila, na qual realça a distinção das pessoas, que durou de 29 de Maio de 1571 a 30 de Junho do mesmo ano.
«Na terça-feira depois da Ascensão, tendo estado algum tempo em oração depois de comungar, aflita – porque me distraía de modo que não podia estar fixa em uma coisa – queixava-me ao Senhor do nosso miserável natural. Começou-se a inflamar minha alma, parecendo-me entender claramente que tinha presente toda a Santíssima Trindade, em visão intelectual. Na qual, por certo modo de representação – que era uma figura da verdade, a fim de que na minha rudeza pudesse compreendê-lo – a minha alma entendeu como Deus é trino e uno. E, assim, parecia-me que as três Pessoas me falavam e se representavam distintamente dentro da minha alma.
Foi-me dito que: “desde esse dia eu veria em mim melhoria em três coisas, das quais, cada uma destas Pessoas, me fazia mercê: na caridade, no padecer com alegria e no sentir esta caridade com abrasamento na alma. Então entendi eu aquelas palavras que o Senhor diz: “que estarão com a alma em graça as três Divinas Pessoas” (Jo 14, 23), porque As via dentro de mim, pelo dito modo.
Estando depois agradecendo ao Senhor tão grande mercê, achando-me indigna dela, dizia a Sua Majestade com grande sentimento: visto que me havia de fazer semelhantes mercês, por que me havia deixado de Sua mão permitindo que eu fosse tão ruim. Pois, o dia anterior, tinha tido grande pena pelos meus pecados, tendo-os presentes.
Via claramente o muito que o Senhor havia feito da Sua parte, desde a minha meninice, para me achegar a Si, por meios muitos eficazes; e como todos eles não me aproveitaram. Por onde se me representou, claramente, o excessivo amor que Deus nos tem em tudo perdoar quando queremos tornar a Ele; e comigo mais do que a ninguém, por muitos motivos.
Parece que ficaram tão impressas na minha alma aquelas três Pessoas que vi, sendo um só Deus, que, a durar assim, impossível seria deixar de estar recolhida com tão divina companhia.
Algumas outras palavras e coisas que aqui se passaram, não há porque as escrever.
Uma vez – pouco antes disto – indo eu comungar e estando a sagrada Partícula no cibório – pois ainda não m’A tinham dado – vi uma espécie de pomba que meneava as asas com ruído. Perturbou-me tanto, e suspendeu-me, que só à custa de muito esforço recebi a Partícula.
Tudo isto foi em São José de Ávila. Dava-me o Santíssimo Sacramento o Padre Francisco de Salcedo. Outro dia, ouvindo eu a sua missa, vi o Senhor, glorificado na Hóstia. Disse-me que Lhe era aceitável o sacrifício» .
A «relação» com as três Pessoas
No mês seguinte, conta-nos ela que, desta vez em Medina do Campo, teve, a 30 de Junho de 1571, uma visão imaginária de Cristo e uma nova visão intelectual da Santíssima Trindade. Confidencia-nos que, durante um mês, viveu a presença habitual da Santíssima Trindade na sua alma. Teresa passa da experiência da presença habitual de Cristo à presença habitual da Santíssima Trindade na sua alma. O mistério de Cristo levou-a ao diálogo «pessoal» com a Trindade. Como o mar invade a terra, assim Teresa se sentiu «invadida» pela Trindade. Realça a relação pessoal com as três Pessoas . É uma relação «especial» e «própria» e não apenas «apropriada» . E a partir da Trindade, contempla a criação como uma comunicação de vida.
«Esta presença das três Pessoas, que disse no princípio, tenho-a trazido até hoje – dia da Comemoração de São Paulo – presente na minha alma, muito de ordinário. E, como estava habituada a trazer só Jesus Cristo, sempre me parecia que me era de algum impedimento ver três Pessoas – embora entendendo que é um só Deus. Pensando eu nisto o Senhor disse-me, hoje, que era erro imaginar as coisas da alma com a mesma representação que as do corpo; entendesse eu que era muito diferente e que a alma tinha capacidade para gozar muito.
Pareceu-me que se me representou tal como, quando numa esponja se incorpora e embebe a água, assim a minha alma se enchia daquela Divindade e, por certa maneira, gozava em si e tinha as três Pessoas.
Também entendi: “Não trabalhes para Me teres, a Mim, encerrado em ti, mas para te encerrares tu em Mim”.
Parecia-me que de dentro da minha alma – onde estavam e via eu estas três Pessoas – Elas se comunicavam a todo o criado, não faltando nem deixando de estar comigo» .
Em Maio recebe uma graça do Espírito Santo, semelhante à de V 38, 10: «vi uma maneira de pomba que meneava as asas com ruído» e, noutro dia, «vi o Senhor glorificado na Hóstia» (R 17). Recebe a visão da alma em graça acompanhada da Trindade e da alma em pecado (R 24). Em 1572, sucedem-se novas visões trinitárias. Uma, a 19 de Janeiro de 1572: «Fiquei na oração que trago de estar a alma com a Santíssima Trindade» (R 25). Outra, talvez a 22 de Setembro de 1572 (R 33).
A 18 de Novembro de 1572, Cristo concedeu-lhe a graça de entrar no cume do processo espiritual, o matrimónio espiritual: «estando a comungar», «por visão de sua sacratíssima Humanidade», é-lhe pedido que vele pela honra do Esposo, que Ele velará pela dela (CC 25; 7 M 2, 1). Cristo não está só no princípio – é o dom que o Pai, no seu amor, nos deu (V 22, 14) –, no meio – «basta o que nos deu em dar-nos o seu Filho para nos ensinar o caminho» (5 M 3, 7) –, mas também no fim da vida de comunhão com Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Todo o conjunto da graça recebida destina-se à configuração de Teresa com Cristo, para lhe fortalecer a sua fraqueza, para ela o «poder imitar no muito padecer», amar e servir (7 M 4, 4). No período da sua experiência trinitária fala do Cristo «visto» no mistério trinitário, carne da nossa carne – «tomou carne humana só o Filho» (CC 36, 2) –, embora ressuscitada. Nesta altura, fala da experiência simultânea da Trindade e de Cristo: «parece que sempre se anda nesta visão destas três Pessoas e da Humanidade» . Na experiência e no magistério de Teresa «o mistério de Cristo e da Trindade contemplam-se sempre unidos» .
«A carne humana do Filho»
Volta a contar-nos outra visão intelectual da Santíssima Trindade, desta vez, recebida a 28 de Agosto de 1575, em Sevilha. Confidencia-nos que trazia «esculpidas» na sua alma as três Pessoas da Santíssima Trindade. A Trindade fica «outra» Trindade – a unidade das três Pessoas na diferença – pelo facto da segunda pessoa se fazer e ser homem. Tal particularidade causa em Teresa uma excepcional admiração, de tal modo que «não pode pensar em nenhuma das três Pessoas divinas sem entender todas as três». Na sua reflexão sobre o mistério trinitário é-lhe dada luz sobre o mistério da encarnação do Verbo: «estava eu hoje a considerar como sendo tão uma coisa, havia tomado carne humana só o Filho, e deu-me o Senhor a entender como com ser uma coisa eram distintas».
«Tendo acabado de comungar no dia de Santo Agostinho, deu-se-me a entender – eu não saberei dizer como – e quase a ver, (mas foi coisa intelectual e que passou depressa), como as três Pessoas da Santíssima Trindade, que eu trago em minha alma esculpidas, são uma e mesma coisa. Por uma representação tão estranha deu-se-me isto a entender e, por meio duma luz tal clara, que tem feito em mim operação bem diferente de quanto se crê só pela fé.
Fiquei, daqui, a não poder pensar em nenhuma das Três Pessoas Divinas, sem entender que estão todas três; de maneira que estava eu, hoje, considerando como sendo tão «una», havia tomado carne humana só o Filho, e deu-me o Senhor a entender como, apesar de ser uma Essência, são distintas as Pessoas.
São grandezas tais que, de novo, a alma deseja sair deste embaraço, que lhe causa o corpo, para gozar delas, ainda que pareça não ser para a nossa baixeza entendê-las de algum modo; e, embora passe num pronto, fica um lucro na alma, maior, sem comparação, ao de muitos anos de meditação e sem se saber entender como» .
Na sua vivência do mistério Teresa manifesta-nos as «relações pessoais» intra-trinitárias, acentuando a «distinção» das Pessoas, bem como a sua respectiva comunicação. A Pessoa do Pai, diz ela, «falou-me alguma vez» . A do Filho, «a Pessoa que fala sempre», «fala na sua Humanidade» gloriosa, isto é, dentro da Santíssima Trindade , e não como o Verbo, a segunda Pessoa. A do Espírito Santo, afirma ela, «sem o compreender», «nunca tem falado» . A sua experiência trinitária inclui um rica «experiência do Espírito», condensada numa abundante «pneumatologia implícita», aqui e ali evidenciada numa «pneumatologia explícita». A nossa participação na vida do Deus trino é, no seu dizer, inicialmente obra do Espírito – «começa a ter vida... quando com o calor do Espírito Santo começa a aproveitar do auxílio geral que Deus nos dá a todos» (5 M 2, 3) – e, obra do Espírito é a união plena de amor com Deus: «Parece-me a mim que o Espírito Santo deve ser o medianeiro entre e alma e Deus, e o que a move com ardentes desejos, que a faz incendiar-se no fogo soberano, que está tão perto» (MC 5, 6) . Não estamos diante de uma experiência meramente psicológica da Trindade, mas sobretudo teológica.
«As Pessoas, vejo claramente como são distintas, tal como via ontem V. Mercê e o Provincial quando lhe falava, salvo que não vejo nada, nem ouço, como já tenho dito a V. Mercê, mas é com uma certeza estranha e, ainda que os olhos da alma não vejam, em faltando aquela presença, logo se vê que falta.
Como? Isso não sei, mas sei muito bem que não é imaginação; e embora eu depois me desfaça para torná-lo a representar, não posso, que já o tenho experimentado. O mesmo sucede em tudo quanto fica dito – segundo posso entender – pois em tantos anos tem-se podido verificar de modo a dizê-lo com esta determinação.
Verdade é – e advirta V. Mercê nisto – que a Pessoa que fala sempre, bem posso afirmar qual me parece que é; as demais não poderia assim afirmá-lo. Uma, sei eu bem, que nunca tem sido; o motivo jamais o compreendi, nem eu me ocupo em pedir mais do que Deus quer, porque me parece que logo me haveria de enganar o demónio. Nem tão-pouco o pedirei agora, pois teria o mesmo temor.
A primeira Pessoa, julgo, falou-me alguma vez; mas, como agora não me recordo bem, nem o que era, não ousarei afirmá-lo. Tudo está escrito onde V. Mercê sabe, e isto muito mais largamente do que vai aqui, mas não sei se por estas palavras.
Ainda que estas Pessoa distintas se dêem a conhecer duma maneira estranha, a alma entende ser um só Deus.
Não recordo de me ter parecido que fala Nosso Senhor, a não ser a Humanidade, e, já digo: isto posso afirmar que não é ilusão» .
«A obra tão maravilhosa da Encarnação»
Numa outra Conta de Consciência, com lugar e data incertos, conta-nos a primeira «visão imaginária» da Santíssima Trindade e as «relações» entre as três Pessoas divinas. Evidencia a relação pessoal com as três Pessoas: «cada uma se pode ver e falar de por si». Observa-se a revelação progressiva do mistério trinitário na história da salvação: a fase do Antigo Testamento, a do Novo Testamento e a da Igreja. Jesus Cristo é o centro, que revela o mistério do Pai e promete o Espírito Santo. A inteligência do mistério das Três pessoas divinas em perfeita comunhão de vida e em perfeita unidade de acção, causa nela um crescendum de consciência da presença na sua alma das Três Pessoas, um aumento de fé, devoção e louvor. A iconografia do mistério trinitário que corria no seu tempo nos livros de horas não era do seu agrado, nem foi o ponto de partida do seu conhecimento por experiência da Santíssima Trindade. A «visão imaginária» contém a percepção interior da imagem da Santíssima Trindade e a compreensão distinta da «verdade» durante alguns dias. A visão imaginária completa a visão intelectual, porque possibilita a visualização interior da imagem, dando forma às visões intelectuais. Além disso, permitiu que mandasse pintar as três Pessoas da Trindade .
«Um dia, depois de São Mateus, estando eu como costumo, desde que tive a visão da Santíssima Trindade e vi como ela está com a alma que está em graça, deu-se-me isto mesmo a entender muito claramente de modo que, por certas maneiras e comparações, o vi por meio duma visão imaginária. E conquanto de outras vezes me tinha sido dado a entender, por visão intelectual, a Santíssima Trindade, depois de alguns dias esta verdade não ficava em mim, como agora digo, de modo a poder pensar e consolar-me nisto. E agora vejo da mesma maneira como o tenho ouvido a letrados, e não o tinha entendido como agora, ainda que sempre o acreditasse sem hesitação, porque não tenho tentações contra a fé.
A nós, pessoas ignorantes, parece-nos que as Pessoas da Santíssima Trindade estão todas Três – tal como vemos pintado – numa só Pessoa, à maneira de quando se pintam num corpo três rostos; e assim nos espanta tanto, pois parece coisa impossível e que nem há quem ouse pensar nisso, porque o entendimento embaraça-se e teme, não vá ficar duvidoso desta verdade, e priva-se assim dum grande lucro.
O que a mim se me representou, são três Pessoas distintas, pois a cada uma se pode ver e falar de per si. Depois pensei que só o Filho tomou carne humana, por onde se vê esta verdade. Estas Pessoas amam-se e comunicam-se e conhecem-se.
Mas, se cada um é de per si, como dizemos que todas Três são uma mesma Essência? E acreditámo-lo, e é grandíssima verdade. Por ela, morreria eu mil mortes. Nestas Três Pessoas não há mais que um querer e um poder e um senhorio, de maneira que nenhuma coisa pode uma sem a outra, e de quantas criaturas existem há só um Criador. Poderia o Filho criar uma formiga sem o Pai? Não; que o poder é todo um, e o mesmo se dá com o Espírito Santo. Assim, pois, é um só Deus todo-poderoso, e todas as três Pessoas uma só Majestade. Poderia alguém amar o Pai sem querer o Filho e ao Espírito Santo? Não; pois quem contentar a uma destas três Pessoas Divinas, contenta a todas Três, e quem a ofender faz o mesmo. Poderá o Pai estar sem o Filho e o Espírito Santo? Não; porque é uma só Essência, e onde está Um estão todos os Três, pois não se podem dividir.
Como, pois, vemos que são distintas as três Pessoas, e como tomou carne humana o Filho e não o Pai nem o Espírito Santo? Isto não o entendi eu; os teólogos o sabem. Bem sei eu que naquela obra tão maravilhosa da Encarnação estavam todas Três, e não me ocupo a pensar muito nisto. Logo se conclui meu pensamento com ver que Deus é todo-poderoso, e do modo como quis assim o pôde, e poderá tudo o que quiser; e, quanto menos o entendo, mais o creio e me faz maior devoção. Seja para sempre bendito. Amen» .
À pergunta teológica sobre o mistério da Encarnação responde Teresa com a maestria de quem sabe por experiência que Deus se manifesta trinitariamente em todo o mistério de Jesus e, a partir de certa altura, também na sua própria vida. «Como tomou carne humana o Filho e não o Pai nem o Espírito Santo? Isto não o entendi eu; os teólogos o sabem. Bem sei eu que naquela obra tão maravilhosa da Encarnação estavam todas Três, e não me ocupo a pensar muito nisto. Logo se conclui meu pensamento com ver que Deus é todo-poderoso, e do modo como quis assim o pôde, e poderá tudo o que quiser; e, quanto menos o entendo, mais o creio e me faz maior devoção». Na verdade, «em Jesus de Nazaré, Deus fez-Se homem para revelar o mistério trinitário do seu amor e salvar a humanidade».
«Embora a incarnação tenha sido obra das três pessoas divinas, a pessoa do Filho foi a única que Se fez carne, a única que assumiu a carne como sua propriedade. Ele é, portanto, a única que doa a sua própria presença de carne. Tanto no caso da Eucaristia, como da incarnação, devemos reconhecer a intervenção das três pessoas divinas. Contudo, a acção própria do Filho tem a particularidade da entrega da sua carne. A presença pessoal, comunicada no banquete eucarístico, é, portanto, presença do Filho incarnado (...). Como é natural, no mistério eucarístico a Trindade não perde nada da sua unidade. O facto de a presença eucarística ser exclusiva do Filho não anula, de modo algum, a perfeita união entre o Filho e o Pai, união que se desenvolve e se afirma no próprio dom da Eucaristia. A Trindade mantém-se actuante em todos os aspectos do mistério, mas de maneira a valorizar a presença da pessoa de Cristo na sua carne, presença que tem um carácter muito específico» .
«Presença tão sem se poder duvidar»
Uma vez «experimentada» a presença trinitária na alma – «não só por graça, mas dando a sentir esta presença» –, diz-nos ela, que «cessaram as visões imaginárias» (R 6, 3), e que «não se pode duvidar» desta presença, como refere em Palencia, em Maio de 1581, no meio da paz dos últimos meses da sua vida.
«A paz interior e a pouca força que têm contentos e descontentamentos para tirarem de modo durável esta presença, tão sem se poder duvidar, das Três Pessoas – em que claramente nos parece que se experimenta o que diz São João: “que faria a sua morada na alma” (Jo 14, 23), e isto, não só por graça, mas dando a sentir esta Presença que traz consigo tantos bens que nem se podem declarar – é de tal maneira que não se precisa de andar a buscar considerações para se conhecer que está ali Deus. E isto é quase ordinariamente, a não ser quando a muita enfermidade aperta; que, algumas vezes, parece querer Deus que se padeça sem consolação interior, mas nunca, nem por primeiro movimento, torce a vontade sequer um só ponto de que se faça nela a de Deus. Tem tanta força este render-se à vontade divina que não se quer nem a morte nem a vida; a não ser, por pouco tempo, quando deseja ver a Deus. Mas logo se lhe representa com tanta força estar presentes estas três Pessoas, que com isto se remedeia a pena desta ausência e fica o desejo de viver, se Ele assim quer, para mais O servir e, se pudesse, contribuir para que por seu intermédio sequer ao menos uma alma O amasse mais e O louvasse. Pois ainda mesmo por pouco tempo, isto parece importar mais do que estar na glória» .
De facto, o Espírito Santo, «em união com o nosso espírito» (Rm 8, 16), dá a conhecer ao homem aquilo que Ele próprio conhece (1 Co 2, 10). Teresa comunica-nos a sua experiência mística da Santíssima Trindade, experiência bíblica e evangélica de Deus, à sua maneira – «à maneira de uma nuvem de grandíssima claridade» –, como se a alma, através de uma operação divina às cataratas, as famosas «escamas» de São Paulo (Act 9, 18), passasse a ver «alguma coisa» do Invisível: «Quer já o nosso bom Deus tirar-lhe as escamas dos olhos, e que veja e entenda alguma coisa da mercê que lhe faz». Jesus tinha prometido àqueles que O amassem e guardassem os seus mandamentos «faremos nele morada». Teresa apresenta-nos aqui o seu «realismo trinitário»: não apenas a «inhabitação trinitária» na alma, mas a própria «comunicação trinitária» com a alma: «Aqui se lhe comunicam todas as Três Pessoas e lhe falam». Estamos perante «uma verdadeira experiência» trinitária – «entende com grandíssima verdade» – percebida de modo visual e intelectual, que é muito mais do que a simples fé. Uma coisa é a «fé» na Santíssima Trindade e outra coisa é a «experiência de fé» do mistério trinitário. É nada menos que o «dom da sabedoria», o dom de ver e possuir na noite da fé o seu Deus no interior da sua alma. É o «dom da unidade de vida» contemplativa e activa. É um «ex-stare» em ordem a um «in-stare», um «estar fora de si», descentrada de si, para estar totalmente no Outro e ser um só com Ele. Quanto mais «está fora de si», mais «está em si».
As sétimas Moradas caracterizam-se sobretudo pelo mais profundo conhecimento dos dois principais mistérios, o da Trindade e o da Humanidade de Cristo. É por uma nova percepção da Trindade que a alma entra nas sétimas Moradas, que representam o cume do processo de santificação, o qual é obra da Trindade. «A sistematização doutrinal da experiência trinitária corresponde às sétimas moradas» (1577).
«Nas quartas Moradas começa a segunda fase, que é propriamente a grande aventura da divinização do homem, até ao cume da santidade nas sétimas Moradas. Na perspectiva de Teresa, a divinização aparece principalmente como dilatação e transformação do coração humano em Cristo pela acção do Espírito Santo. O coração humano que Deus criou tão grande foi como que encolhido pelo pecado: tem necessidade de ser alargado e radicalmente transformado (...). O processo de divinização, que começa nas quartas Moradas e prossegue até às sétimas Moradas, é sempre obra de Deus Trindade. O Pai age sempre pelas suas duas “Mãos”, que são Cristo e o Espírito Santo, para remodelar o coração humano à sua imagem e semelhança (S. Ireneu). Na perspectiva de Teresa, estes dois pontos de vista, cristológico e pneumatológico, estão sempre presentes e inseparáveis, evocados sobretudo através de dois grandes símbolos. O aspecto pneumatológico da divinização é descrito como a dilatação do coração pela superabundância da Água viva do Espírito, enquanto que o aspecto cristológico está presente como uma metamorfose radical, e esta através da parábola do bicho-da-seda que se transforma em borboleta (...). No Castelo Interior, enquanto o aspecto pneumatológico da divinização valoriza sobretudo a interioridade no sentido d’Ele em nós, o aspecto cristológico manifesta sobretudo o outro sentido da interioridade: nós n’Ele (...). O processo da divinização do homem, que é a santidade cristã, tem a sua coroação nas Sétimas Moradas e é caracterizado pelo conhecimento mais profundo do mistério da Santíssima Trindade (7 M 1, 7) e da Humanidade de Cristo (7 M 2, 1). O aspecto essencial do ensino de Teresa nas Sétimas Moradas é o facto de que a santidade cristã faz resplandecer sempre o mistério trinitário e cristológico. Teresa de Lisieux viveu profundamente a mesma realidade quando se ofereceu ao Amor Misericordioso a 9 de Junho de 1895, mas sem nenhuma visão e numa percepção ainda mais unificada do mistério trinitário e cristológico» .
Teresa vive com o Deus Trinitário e participa dos diálogos das pessoas da Trindade. Teresa, na sua Exclamação intitulada Para que quereis o meu amor, Deus meu?, admira e goza de alegria diante do Deus Trinitário, cujas delícias são estar com o Filho do Homem e os filhos dos homens. Como é possível que a Trindade se deleite tanto connosco como em Cristo? De facto, Cristo conhece, ama, louva e adora a Deus como ele merece. Depois, d’Ele, ninguém como Maria, sua Mãe, se alegra tanto com as delícias da Santíssima Trindade e as reconhece e canta na sua vida. Teresa conversa com a Trindade.
«Ó Esperança minha e meu Pai e meu Criador e meu verdadeiro Senhor e Irmão! Quando considero em como dizeis: que vossas delícias são com os filhos dos homens (Prov 8, 31), muito se alegra minha alma. Ó Senhor do Céu e da terra! Que palavras estas para não desconfiar nenhum pecador! Falta-Vos, porventura, Senhor, com quem Vos deleiteis, que buscais um vermezinho de tão mau odor como eu? Aquela voz que se ouviu no baptismo do Jordão, disse que Vos deleitáveis em Vosso Filho (Mt 3, 17). Pois, havemos de ser todos iguais, Senhor?
Oh! que grandíssima misericórdia e que favor sem que o possamos merecer! E que tudo isto olvidemos, nós os mortais! Lembrai-Vos, Deus meu, de tanta miséria e vede a nossa fraqueza, pois de tudo sois sabedor.
Ó alma minha! considera o grande deleite e grande amor que tem o Pai em conhecer a seu Filho e o Filho em conhecer a Seu Pai, e o ardor com que o Espírito Santo se junta com eles e como nenhuma das Três Pessoas se pode apartar deste amor e conhecimento, porque são uma mesma coisa. Estas soberanas Pessoas se conhecem, estas se amam, e umas com as outras se deleitam. Pois, que necessidade há de meu amor? Para que o quereis, Deus meu, ou que ganhais? Oh! bendito sejais Vós!! Oh! bendito sejais Vós, meu Deus, para sempre! Louvem-vos todas as coisas, Senhor, sem fim, pois não o pode haver em Vós.
Alegra-te, alma minha, que há Quem ame a Deus como Ele merece. Alegra-te, que há Quem conheça Sua bondade e valor. Dá-Lhe graças, porque nos deu na terra Quem assim O conhece, como Seu Filho único que é. Sob este amparo poderás achegar-te a Ele e apresentar-Lhe as tuas súplicas. E pois que Sua Majestade se deleita contigo, que todas as coisas da terra não sejam bastantes para te apartar de te deleitares e alegrares na grandeza do teu Deus e em como merece ser amado e louvado; e te ajude para que tenhas alguma partezita em ser bendito o Seu Nome e possas dizer com verdade: “A minha alma engrandece e louva ao Senhor” (Lc 1, 46-47)» .
Presença, comunicação, companhia
A Trindade é presença (ou inhabitação) e companhia na vida de Teresa. A Trindade comunica e fala com Teresa, o que possibilita que Teresa fale com as Três Pessoas. «Teresa afirma claramente a inhabitação trinitária, não como uma acção especial de Deus na alma, conforme a teoria clássica do seu tempo, mas como uma comunicação pessoal das três divinas pessoas, conforme a teologia actual»: «Aqui comunicam-se-lhe todas as três Pessoas e falam com ela» . A Santíssima Trindade mostra-se como «uma nuvem de grandíssima claridade» e «por uma notícia admirável». Teresa tem consciência e experiência da presença habitual e contínua da Trindade que passou a «formar parte da sua vida». «A vida trinitária de Teresa é a presença nela da Trindade, a comunicação das pessoas divinas, a sua companhia permanente» . Teresa torna-se «teófora», porque «adverte que sempre se acha com esta companhia».
«A união mística com o Verbo Encarnado assegura à alma a plena manifestação do mistério de Deus. Deus revela-se aqui, nesta última morada, na plenitude do seu ser: não é mais somente a Divindade o objecto directo da alma que contempla, mas são verdadeiramente as três divinas Pessoas que se lhe comunicam imediatamente na parte mais íntima e profunda» .
Deus está sobrenaturalmente presente na alma do justo em graça. Na verdade, o cristão é, no dizer de São Paulo, templo do Espírito (1 Co 3, 17; 2 Co 6, 16), e no dizer de São João, morada de Deus (Jo 14, 23). Teresa entende a verdade destas palavras de Jesus na sua experiência mística da presença de Deus e confirma a dimensão essencialmente trinitária da graça e da vida cristã como participação na relação própria que o Pai tem com o Filho, ao comunicar com Ele como dom de si mesmo, e na relação que o Pai e o Filho têm com o Espírito Santo, ao aspirá-lo no amor. Não é uma presença nova de Deus na sua alma, mas uma experiência nova, um conhecimento interior dos mistérios da fé. É uma profunda inteligência e vivência do que se conhece pela fé. É uma experiência mística de uma verdade sabida por fé. Dá-nos uma explicação sistemática doutrinal da experiência do mistério da presença, inhabitação, companhia das três Pessoas na sua alma. É a experiência do Deus uno e trino no centro da alma .
«Aqui é de outra maneira. Quer já o nosso bom Deus tirar-lhe as escamas dos olhos, e que veja e entenda alguma coisa da mercê que lhe faz – embora seja por uma maneira estranha –; e metida naquela morada por visão intelectual, por certa maneira de representação da verdade, mostra-se-lhe a Santíssima Trindade, todas as Três Pessoas, com uma inflamação que primeiro lhe vem ao espírito, à maneira de uma nuvem de grandíssima claridade. E por uma notícia admirável, que se dá à alma, entende com grandíssima verdade serem estas Pessoas distintas todas Três uma substância, e um poder, e um saber e um só Deus. De maneira que, o que acreditamos por fé, ali o entende a alma – podemos dizer – por vista, ainda que não é vista dos olhos do corpo nem da alma, porque não é visão imaginária. Aqui se lhe comunicam todas as Três Pessoas e lhe falam, e lhe dão a entender aquelas palavras que diz o Evangelho que disse o Senhor: que viria Ele e o Pai e o Espírito Santo a morar com a alma que O ama e guarda Seus mandamentos (Jo 14, 23).
Oh! valha-me Deus! Quão diferente coisa é ouvir estas palavras e crer nelas, ou entender por este modo quão verdadeiras são! E cada dia se espanta mais esta alma, porque lhe parece que Elas nunca mais se apartam dela, antes vê notoriamente – da maneira que fica dita – que estão no interior de sua alma; e, no mais interior, em uma coisa muito profunda – que não sabe dizer como é, porque não tem letras – sente em si esta divina companhia.
Parecer-vos-á, segundo isto, que não andará em si, mas tão embebida que não possa atender a nada. Atende, sim e muito mais que antes, a tudo o que é serviço de Deus e, em lhe faltando ocupações, fica-se com aquela agradável companhia. E, se a alma não falta a Deus, jamais Ele lhe faltará – a meu parecer – e lhe dará a conhecer tão conhecidamente a Sua presença. Ela tem grande confiança de que Deus não a deixará, pois, se lhe fez esta mercê, não é para que a perca; e assim se pode pensar, ainda que ela não deixe de andar com mais cuidado que nunca, para não Lhe desagradar em nada.
O trazer em si esta presença entende-se que não é tão inteiramente, digo, tão claramente como se lhe manifesta na primeira vez e algumas outras em que Deus lhe quer fazer este regalo; porque, se isto assim fosse, era impossível atender a outra coisa, nem mesmo viver entre gente; mas, ainda que não é com esta luz tão clara, adverte que sempre se acha com esta companhia. Digamos agora que é como se uma pessoa estivesse com outras num aposento muito claro, e fechassem as janelas e ficasse às escuras: Não porque lhe tirassem a luz para as ver e porque até voltar a luz não as vê, deixa de entender que estão ali. É caso para perguntar, se quando volta a luz e ela As quer tornar a ver, se pode. Isto já não está em sua mão, mas só quando Nosso Senhor quer que se abra a janela do entendimento; já bem grande misericórdia lhe faz em nunca se apartar dela e de querer que ela o entenda tão claramente.
Parece-me que a Divina Majestade quer aqui dispor a alma para mais, com esta admirável companhia, porque está claro que será bem ajudada para em tudo ir adiante na perfeição, e perder o temor que trazia algumas vezes, das demais mercês que lhe fazia, como fica dito. E assim foi que em tudo se achava melhorada, e lhe parecia que – por mais trabalhos e negócio que tivesse – o essencial de sua alma jamais se movia daquele aposento. De maneira que lhe parecia, de certo modo, que havia divisão em sua alma, e andando com grandes trabalhos, que os teve pouco depois de Deus lhe ter feito esta mercê, queixava-se dela a outra metade da alma – à maneira de Marta quando se queixou de Maria –, e algumas vezes dizia que ela se ficava sempre a gozar daquela quietude a seu prazer, e a deixava a ela em tantos trabalhos e ocupações, que não Lhe podia assim fazer companhia» .
A «comunicação» pessoal das três Pessoas
Não é uma acção especial de Deus na alma, mas a comunicação pessoal das três pessoas divinas: «Aqui se lhe comunicam todas as Três Pessoas e lhe falam, e lhe dão a entender aquelas palavras que diz o Evangelho que disse o Senhor: que viria Ele e o Pai e o Espírito Santo a morar com a alma que O ama e guarda Seus mandamentos (Jo 14, 23» (7 M 1, 6). Este estado de «comunhão pessoal» com as três divinas pessoas é uma presença habitual da Trindade que faz parte da sua vida. É a «comunicação do Deus uno e trino» à sua alma. A comunicação entre Deus e a alma ocupa o primeiro lugar na sua vida e obra de Teresa .
O agir misericordioso de Deus, a sua acção «ad extra», é uma «comunicação» com o homem por «visões» ou por «falas». A «comunicação» é a graça por excelência que Deus concede ao homem. Deus é «comunicação» interpessoal na sua vida intra-divina. Na sua comunhão «ad intra», as Pessoas divinas conhecem-se, amam-se e comunicam umas com as outras: «Estas Pessoas amam-se e comunicam-se e conhecem-se» (R 33, 3). Na sua «comunicação ad extra», as Pessoas divinas «comunicam com toda a criatura»: «Parecia-me que de dentro da minha alma – onde estavam e via eu estas três Pessoas – Elas se comunicavam a toda a criatura, não faltando nem deixando de estar comigo» (R 18). As Três Pessoas comunicam indistintamente com Teresa: «se lhe comunicam todas as Três Pessoas e lhe falam» (7 M 1, 6). Ou ainda: «E, assim, parecia-me que as três Pessoas me falavam e se representavam distintamente dentro da minha alma. Foi-me dito que, desde esse dia, eu veria em mim melhoria em três coisas, das quais, cada uma destas Pessoas me fazia mercê: na caridade, no padecer com alegria e no sentir esta caridade com abrasamento na alma. Então entendi eu aquelas palavras que o Senhor diz: que estarão com a alma em graça as três Divinas Pessoas, porque As via dentro de mim, pelo dito modo» (R 16, 1).
Que graça lhe comunica cada Pessoa da Trindade? Qual a função de cada Pessoa na sua actuação «ad extra»? «Cada uma destas Pessoas me fazia mercê: na caridade, no padecer com alegria e no sentir esta caridade com abrasamento na alma» (R 16, 1). A resposta de Teresa não é muito explícita para dividirmos as três graças.
«Na nossa opinião, a caridade é a primeira graça, padecer com alegria é a segunda, sentir a caridade é a terceira. O padecer com alegria é uma graça do Filho, pela conotação com a Paixão de Cristo. Sentir a caridade é função do Espírito Santo, pois enamora a vontade e move a alma com uns desejos que a acendem em fogo soberano (CV 27, 7; CAD 5, 5). A caridade seria, neste caso, a graça concedida pelo Pai» .
A Relação 5, escrita em Sevilha em 1576, depois da experiência fundamental do Deus trino de 29 de Maio de 1571, onde afirma que as três Pessoas lhe falam, suscita a pergunta: Que Pessoa da Trindade nunca lhe falou? As três Pessoas comunicam e falam com a alma. Porém, afirma, em aparente contradição, que uma das Pessoas nunca lhe falou:
«Verdade é, e advirta V. Mercê nisto, que a Pessoa que fala sempre, bem posso afirmar qual me parece que é; as demais não poderia assim afirmá-lo. Uma, sei eu bem, que nunca tem sido; o motivo jamais o compreendi, nem eu me ocupo em pedir mais do que Deus quer» (R 5, 22). «A primeira Pessoa, julgo, falou-me alguma vez; mas como agora não me recordo bem, nem o que era, não ousarei afirmá-lo» (R 5, 23).
Jesus Cristo é o interlocutor principal da alma nos seus escritos. Por isso, descartamos que seja Ele a Pessoa que não lhe fala. Cristo fala-lhe enquanto Homem, na sua sacratíssima Humanidade, no seu Corpo ressuscitado na sua natureza humana. O Pai também lhe fala com palavras muito agradáveis (R 25, 2). O Espírito Santo aparece-lhe em forma de pomba (R 17; V 38, 9-12), mas nunca fala. Comunica com a alma através de pessoas humanas e da Escritura (V 23, 16; 34, 17; 4 M 1, 1).
Assim «tal experiência de Deus-Trindade santíssima nunca mais desaparecerá do horizonte da consciência: a alma é continuamente atraída no remoinho da Vida de Deus; faça o que fizer, aquela augusta Presença está sempre ali e penetra-a e transfigura-a toda… A alma conhece e, em certa maneira, vê, já sobre a terra, o maior Mistério, o único verdadeiro Mistério (porque todos se resumem neste), embora envolvido ainda num fundo tenebroso. A vocação e o destino eterno do cristão realizam-se no tempo: ver e possuir a Deus. Esta visão, embora sublime e altíssima, permanece ainda na ordem da fé, mas de uma fé singularmente penetrante, luminosa e saborosa. O mistério deslumbrante de Deus-Trindade santíssima permanece ainda encoberto, mas o véu da fé tornou-se tão transparente e rarefeito que, na penumbra, se manifeste e entrevê a sua real e regalada presença. A alma olha tacitamente, através do desfazer-se do nevoeiro, para a visão da Vida, da Luz, do Amor, que é o mistério de Deus-Trindade» .
Por isso, «entrar nas sétimas moradas, morada de Deus, significa unir-se com Ele numa união completa, mas em ordem operativa, numa união definitiva, mas em contínuo progresso. A união com Cristo-Verbo Encarnado conduz depois ao mistério dos mistérios que é a Santíssima Trindade. A experiência trinitária revela-se por meio de uma presença flutuante na intensidade, mas contínua no tempo, que mergulha o espírito numa profunda paz e comunica à alma uma altíssima fecundidade eclesial. As sétimas moradas conduzem assim a alma, ainda peregrina sobre a terra, na intimidade da vida divina. Mais além não resta senão a eternidade do Céu» .
P. Manuel Reis
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Ficheiro
Teresa_SSTrindadeEncarnacaoEucaristia_parte2.pdf ![]()
2013-10-21
