Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
A Santíssima Trindade, a Encarnação e a Eucaristia (3ª Parte)
1. 2. A explicação do mistério trinitário
O elemento principal é a distinção das pessoas. «E, assim, parecia-me que as três Pessoas me falavam e se representavam distintamente dentro da minha alma» (R 16). Outro elemento importante é a relação pessoal com elas: «Gozava em si e tinha as três Pessoas» (R 18); «o que a mim se me representou, são três Pessoas distintas, pois a cada uma se pode ver e falar de per si» (R 33); «estas Pessoas amam-se e comunicam-se e conhecem-se» (R 33). Esta relação pessoal concretiza-se numa comunhão de vida e de amor: «Cada uma destas Pessoas me fazia mercê: na caridade, no padecer com alegria e no sentir esta caridade com abrasamento na alma» (R 16).
Além destas afirmações que falam da distinção de pessoas, há outras que falam da unidade: entendeu «como Deus é trino e uno» (R 16); embora visse três pessoas, «entendo é um só Deus» (R 18); «não há senão um querer e um poder e um senhorio»; «um só Deus todo-poderoso, e todas três Pessoas uma Majestade» (R 33).
A experiência trinitária da Santa, comenta alguém, não representa um aprofundamento nocional no mistério da Santíssima Trindade. «Esta interpretação não responde à análise detida dos textos, nem ao progresso da experiência teresiana, que vai da descoberta de presença de Deus e da presença de Cristo à descoberta da presença da Santíssima Trindade, como uma realidade que revoluciona a sua vida espiritual».
A «comunhão» de vida e amor
A interrogação de Teresa sobre a «divisão» das três Pessoas e sobre a Encarnação (R 33) ultrapassa o âmbito da Trindade «imanente» e coloca o mistério no quadro da Trindade «económica». A resposta, portanto, há-de ser dada no contexto da história da salvação. É, além disso, um convite e reflectir sobre o mistério não a partir da simples especulação teológica, mas a partir das categorias histórico-salvíficas da revelação. Pois não há outro acesso à Trindade em si senão através da sua manifestação na história da salvação. A vida íntima da Trindade manifesta-se na história da salvação como comunicação pessoal de Deus, em Jesus Cristo, e pelo dom do Espírito Santo, prolongando na história a relação intra-trinitária. Cada pessoa divina manifesta a sua característica pessoal na história da salvação e na inhabitação trinitária. Jesus aparece inteiramente referido ao Pai e recebido d’Ele (CV 27, 1). É Ele que realiza a redenção (V 13, 13; 22, 2; 6 M 7, 15), prolongando entre nós o mesmo dinamismo e generosidade da filiação intra-divina (CV 27, 2-4), por meio do Espírito Santo, que «enamora» a nossa vontade (CV 27, 7).
A vida trinitária de Teresa é a presença da Trindade nela, a comunicação das três pessoas divinas, a sua companhia permanente. A teologia da graça desenvolveu as atitudes fundamentais da vida cristã que se desprendem da presença trinitária e da relação com as três pessoas divinas. A relação com o Pai é intimidade e confiança, a acção de graças, adoração, louvor, petição, impulso para Ele que nos atrai para Si. A relação com o Filho é comunhão de vida com Ele, imitação, solidariedade, incorporação, amizade, anúncio de Jesus, entrega, compromisso. A relação com o Espírito Santo é liberdade, docilidade, atenção, escuta, fidelidade ao Espírito, que vem ao encontro da nossa indigência para suscitar a nossa oração ao Pai, fortalecer a nossa comunhão com o Filho e confirmar-nos na fidelidade criativa da missão e do compromisso cristão. Teresa cultiva a relação com cada uma das três pessoas divinas e fala separadamente do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cada pessoa divina tem a sua influência peculiar na vivência plena da graça, em paralelo à função que desempenham na história da salvação .
Outro aspecto importante a realçar é a incidência deste mistério na fé cristã, tal como se desprende da experiência teresiana. Esta capta essencialmente a comunhão entre as pessoas divinas como comunicação de vida e amor, na qual ela participa; é graça que «cada uma destas Pessoas» lhe fazem (R 16). É este o núcleo da vida cristã: a vida de amor, que nos é dada como participação do mistério trinitário, por Jesus Cristo, no Espírito Santo, e que se concretiza na filiação adoptiva do Pai. É este o fundamento da esperança cristã, no meio de um mundo de morte e de ódio. Graças a ela, sabemos que a realidade última e mais profunda é vida e amor, que nos é dada por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Por esta fé e por esta esperança luta Teresa de Jesus .
P. Manuel Reis
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Ficheiro
Teresa_SSTrindadeEncarnacaoEucaristia_parte3.pdf ![]()
2013-10-31
