Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
A Santíssima Trindade, a Encarnação e a Eucaristia (4ª Parte)
2. Teresa de Jesus e a Encarnação
Dentro das «relações pessoais» intra-trinitárias, Teresa experimenta a relação Pai e Filho na sua alma. Conta-nos ela, em Sevilha, em 1575, a presença da Humanidade de Cristo na sua alma, com todas as suas maravilhas, depois da sagrada comunhão.
O valor da Eucaristia não depende da santidade ou da pecaminosidade do sacerdote, que, embora possa estar em pecado grave, oferece a Deus o sacrifício de Cristo. Uma dessas maravilhas, é poder oferecer, durante a acção de graças, essa mesma Humanidade do Senhor, presente na sua alma, pela sagrada comunhão, ao Pai dos Céus, que, em troca, concede grandes graças. O Filho oferecido ao Pai na Eucaristia pelo sacerdote em nome de Cristo e de todo o povo de Deus, pode ser espiritualmente oferecido em sacrifício muitas vezes por nós ao Pai dentro dos nossos corações. Neste sentido, são possíveis infinitas Eucaristias puramente interiores, espirituais e secretas. A comunhão eucarística é uma participação na vida divina aberta à experiência trinitária.
«Uma vez, acabando eu de comungar, foi-me dado entender como este Sacratíssimo Corpo de Cristo é recebido pelo Seu Pai dentro da nossa alma. Eu entendo e tenho visto como estas Divinas Pessoas estão na alma, e quão agradável Lhe é, ao Pai, esta oferenda de Seu Filho, porque se deleita e goza com Ele – digamos assim – aqui na terra, pois a Sua Humanidade não está sempre em nossa almas, mas só a Divindade. Por isso é tão aceite e agradável ao Pai quando Lha oferecemos e nos faz em troca tão grandes mercês. Entendi que também recebe este sacrifício, ainda que esteja em pecado o sacerdote, salvo que não se comunicam as mercês à sua alma como aos que estão em graça. Não porque estas influências deixem de estar na sua força, pois procedem desta comunicação com que o Pai recebe este sacrifício, mas sim por culpa de quem as há-de receber; tal como não é por culpa do sol o ele não resplandecer quando dá num pedaço de pez, como num de cristal. Se eu então o dissesse, dar-me-ia melhor a entender. Importa saber como isto é, porque há grandes segredos no interior quando se comunga. É lástima estes corpos não nos deixarem gozar deles» .
No dizer de Isabel da Trindade, filha espiritual de Teresa, a comunhão com a Santa Humanidade, que ocorre na Eucaristia, é graça de comunhão com a Trindade. A «comunhão sacramental eucarística» com a Trindade na Santa Humanidade do Senhor há-de «permanecer» em todo o instante como «comunhão espiritual» com a Trindade na Divindade do Senhor.
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, e é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele. Pensa que a tua alma é o templo de Deus, é ainda São Paulo quem o diz; a todo o instante do dia ou da noite as três Pessoas divinas permanecem em ti. Não possuis a Santa Humanidade como quando comungas, mas a Divindade, essa essência que os bem-aventurados adoram no Céu, ela mesma está na tua alma; assim, quando se tem consciência disso, dá-se uma intimidade toda de adoração; nunca se está só! Se preferes pensar que o santo Deus está perto de ti, mais do que em ti, segue a tua inclinação desde que vivas com Ele. Não te esqueças de te servires do meu pequeno “praticável”, que fiz de propósito para ti com tanto amor; e, além disso, espero que faças as três orações de cinco minutos no meu pequeno santuário. Sente que estás lá com Ele, e age como com um ser que se ama; é tão simples, não são necessários grandiosos pensamentos, mas uma efusão de coração» .
«Tanta majestade em coisa tão baixa»
Além disso, não deixa Teresa de falar da «dignidade da alma» que, pela Humanidade de Cristo, recebida na sagrada comunhão, é inserida na comunhão trinitária. Fala-nos, como ninguém, da «grandeza» da alma «inhabitada» pela Santíssima Trindade.
«Estava eu, uma vez, recolhida com esta companhia que trago sempre na alma e pareceu-me estar Deus nela, de tal modo, que me lembrei de quando S. Pedro disse: “Tu és Cristo, Filho de Deus vivo! (Mt 16, 16) porque assim vivo estava Deus em minha alma.
Isto não é como outras visões, porque traz em si a força com a fé; de maneira que não se podia duvidar de que, em nossas almas, está a Trindade por presença e por potência e por essência. Causa grandíssimo proveito entender esta verdade. E, como eu estava espantada de ver tanta majestade em coisa tão baixa como a minha alma, entendi: “Não é baixa, pois é feita à Minha imagem”.
Também entendi algumas coisas da razão pela qual Deus se deleita mais com as almas de que com outras criaturas. Mas são tão delicadas que, embora o entendimento as entendesse de momento, não as saberei dizer» .
Está mais do que preparada, em 1565, por «sabedoria mística», no seu «cristocentrismo trinitário», para «discutir» com os «teólogos» o abc do conhecimento da Santíssima Trindade e convidá-los à «humildade da razão» , embora a Santa não manifeste aqui – no contexto de uma graça mística cristológica (V 27, 2-3) – nenhuma intenção de nos comunicar uma graça mística trinitária. A Trindade é uma das «coisas mui subidas» que a alma recebe, entende e vê, pela primeira vez, por «visão intelectual» . Não é propriamente uma graça mística trinitária, mas um fenómeno místico da mesma.
«Esta última comparação parece-me dizer alguma coisa deste dom celestial, porque a alma vê-se num momento sábia, e tão declarado o mistério da Santíssima Trindade e outras coisas mui subidas, que não há teólogos com quem se não atrevesse a disputar sobre a verdade destas grandezas. Fica-se tão espantada, que basta uma mercê destas para mudar toda uma alma e fazê-la não amar nada a não ser a Quem vê que, sem nenhum trabalho seu, a tornou capaz de tão grandes bens e lhe comunica segredos e trata com ela com tanta amizade e amor, que se não podem descrever. Porque Deus faz algumas mercês que trazem consigo suspeita, por serem de tanta admiração e feitas a quem tão pouco as tem merecido, que se não houver fé mui viva, não se poderão acreditar. E assim penso dizer algumas das que o Senhor me tem feito a mim, se não me mandarem outra coisa. A não ser certas visões que podem aproveitar para alguma coisa, ou para que a alma a quem o Senhor as der não se espante parecendo-lhe impossível, como me acontecia a mim, ou para lhe declarar o modo e caminho por onde o Senhor me tem levado, que é o que me mandam escrever» .
«A Pessoa do Filho tomou carne humana»
Nas suas confidências sobre a sua experiência e conhecimento da Santíssima Trindade, Teresa acentua, repetidas vezes, a relação entre a Trindade e o mistério da Encarnação do Verbo de Deus.
«Enquanto isto não acontece, enquanto não nos mostrar o que nos basta, enquanto não pudermos beber e saciar-nos daquela fonte de vida que é Ele mesmo, enquanto caminhamos na fé, como peregrinos, longe d’Ele, enquanto temos fome e sede de justiça e anelamos com ardor inefável contemplar a beleza de Cristo na forma de Deus, celebramos com devoção o nascimento de Cristo na forma de servo. (...) Se não estamos ainda preparados para o banquete do nosso Pai, reconheçamos o presépio do nosso Senhor Jesus Cristo» .
O mistério da Encarnação – do «nascimento de Cristo na forma de servo» – é um «mistério de fé» da Igreja na «Sagrada Humanidade» do Senhor, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, contemplado pela «Mãe de Deus» e, na luz do Espírito Santo, pelos Apóstolos.
«Parece-me a mim que, se eles tivessem então a fé que tiveram depois da vinda do Espírito Santo e cressem que o Senhor era Deus e Homem, não lhes seria impedimento, para a mais alta contemplação, o pensar na Sagrada Humanidade; pois isto não foi dito à Mãe de Deus, ainda que o amasse mais que todos (os Apóstolos)» .
Um dia, no mosteiro da Encarnação, Santa Teresa de Jesus foi surpreendida por um menino: “Como te chamas?”.
O menino, porém, em vez de lhe responder, devolveu-lhe a pergunta: “E tu, quem és?”
– «Eu sou Teresa de Jesus!”.
Então o Menino, com um sorriso, esclareceu: “Eu sou Jesus de Teresa!”.
«Jesus de Teresa», «Teresa de Jesus, porque traz, como São Paulo, o nome de «Jesus» no seu coração e na sua boca (V 22, 7). E «a boca fala da abundância do coração». Compôs «vilancicos» e, qual «anjo», «anuncia» aos pastores a boa notícia do «nascimento». A identidade teológica do recém-nascido – «olhai que vos nasce um Cordeiro / Filho de Deus soberano!» – é «boa nova» para toda a Igreja, que o «há-de guardar» por causa do «lobo», os inimigos de Jesus.
«Ah pastores que velais
Por guardar vosso rebanho!
Olhai que vos nasce um Cordeiro
Filho de Deus soberano!
Vem pobre e desprezado.
Começai já a guardá-Lo
Que o lobo há-de levá-Lo
Sem que o tenhais gozado» .
A Encarnação é obra do amor do Pai à humanidade: o Filho de Deus soberano é o «Cordeiro» que se oferece ao Pai «para tirar o pecado do mundo».
«Dá-nos o Pai
Seu único Filho;
Hoje vem ao mundo
Em pobre cortelho.
Oh grande regozijo,
Que já o homem é Deus!
Não há que temer:
Morramos os dois» .
«Pareçamo-nos em alguma coisa com o nosso Rei, que não teve casa a não ser o presépio de Belém, onde nasceu, e a cruz onde morreu» . «O justo Simeão também não via do glorioso Menino pobrezinho, mais do que as faixas em que o levavam envolto e a pouca gente que ia com Ele na procissão, que mais pudera julgá-lo filho de gente pobre, que filho do Pai celeste; mas o mesmo Menino deu-se-lhe a conhecer» .
«Minha fé, eu o vi nascido
E uma mui linda pastora.
Pois se é Deus, como quis
Estar com gente tão pobre?
Não vês que é Omnipotente?» .
«Teresa não contempla a Jesus por partes: antes da encarnação, como menino ou adolescente em Nazaré, nas suas viagens apostólicas por Judeia e Galileia, crucificado no Calvário, ressuscitado. É toda a Humanidade de Cristo que irrompe no seu ser, por meio dos mistérios da infância ou no mistério da cruz ou na sua carne ressuscitada» .
«O Verbo se fez carne» (Jo 1, 14). «Hoje, nasceu o nosso Salvador» (Lc 2, 11). O mistério da Encarnação – «Deus fazer-se Homem» – é o «acontecimento soteriológico» da humanidade.
«E pensava eu se a Esposa pedia esta mesma mercê que Cristo depois nos fez. Também tenho pensado se pedia aquela união tão grande, como foi Deus fazer-se Homem, aquela amizade que trocou com o género humano. Porque, claro está, que o beijo é sinal de paz e de grande amizade entre duas pessoas» .
A maior manifestação do amor de Deus por nós é a Encarnação do seu Filho que se prolonga na Eucaristia . A encarnação do Filho, a sua Humanidade, «modifica» a Trindade.
«Estando eu uma vez com esta presença das três Pessoas que trago na alma, era tanta a luz, que não se podia duvidar estar ali Deus vivo e verdadeiro, e, ali, se me davam a entender coisas que depois não saberia dizer. Entre elas era como havia a Pessoa do Filho tomado carne humana e não as demais. Não saberei, como digo, dizer coisa alguma disto que ouvi, pois passam-se algumas tão no secreto da alma, que parece que o entendimento entende como uma pessoa que, dormindo ou meio adormecida, julga entender o que se diz. Eu estava pensando quão duro era este viver que nos priva de estar sempre assim naquela admirável companhia e disse interiormente: Senhor, dai-me algum meio para eu poder aguentar esta vida. Disse-me: “Pensa, filha, que depois de acabada não me podes servir como agora; e come por amor de Mim e dorme por amor de Mim, e tudo o que fizeres seja por Mim, como se tu não vivesses já, senão Eu, que isto é o que dizia São Paulo”» .
Do modo semelhante, a experiência trinitária torna-se nela uma antecipação da glória celeste. A Trindade anima, ao mesmo tempo, o seu desejo de gozar plenamente de Deus no céu e o desejo de o servir na terra.
«Tem tanta força este render-se à vontade divina que não se quer a morte nem a vida, a não ser, por pouco tempo, quando deseja ver a Deus; mas logo se lhe representa com tanta força estar presentes estas três Pessoas, que com isto se remediou a pena desta ausência e fica o desejo de viver, se Ele quer, para mais O servir e, se pudesse, contribuir por sua intercessão sequer ao menos uma alma O amasse mais e O louvasse. Pois ainda mesmo que por pouco tempo, isto parece importar mais do que estar na glória» .
Deus é «bem-aventurado», porque se conhece, ama e goza a si mesmo. Teresa deseja ser «bem-aventurada», «conaturalizar-se com a vida de Deus», «entrar no seu descanso», «entranhar-se com o Sumo Bem», e «entender o que Ele entende, amar o que Ele ama, e gozar o que Ele goza».
«Ele é bem-aventurado porque Se conhece e ama e goza de Si mesmo, sem ser possível outra coisa; não tem, nem pode ter, nem fora perfeição em Deus poder ter liberdade para olvidar-se de Si mesmo e deixar de Se amar. Então, alma minha, entrarás em teu descanso, quando te entranhares neste Sumo Bem, entenderes o que ele entende, amares o que Ele ama e gozares o que ele goza. Assim que vires perdida a tua mutável vontade, então não mais, não mais mudança! A graça de Deus pôde tanto, que te fez participante de Sua divina natureza; e com tanta perfeição, que já não possas nem desejes poder-te esquecer do Sumo Bem, nem deixar de O gozar, juntamente com o Seu amor» .
Teresa, numa reminiscência bíblica e sálmica, deseja que a sua alma esteja inscrita no livro da Vida (Ap 19, 9; 21, 27). Por isso, não deve estar triste, nem se perturbar, mas esperar em Deus. Confessa-Lhe os seus pecados e as Suas misericórdias (Sl 41, 6. 9). Como Maria, entoa um cântico de louvor a Deus, seu Salvador. Um dia, no céu, poderá cantar a sua glória (Sl 41, 3; 29, 13). Até lá, a sua fortaleza estará na esperança e no silêncio (Is 30 15). Deseja viver e morrer na pretensão e espera da vida eterna. Neste ínterim, espera que a sua esperança não seja confundida (Sl 30, 2). Conclui com uma última súplica a Deus: «Não me desampares, Senhor, porque em Ti espero».
«Bem-aventurados os que estão inscritos no livro desta Vida! Mas tu, alma minha, se o estás, porque estás triste e me conturbas? Espera em Deus que ainda agora confessarei a Ele os meus pecados e as Suas misericórdias, e, de tudo junto, farei um cântico de louvor com suspiros perpétuos ao meu Salvador e meu Deus. Poderá ser que venha algum dia em que Lhe cante a minha glória e não seja compungida minha consciência, onde já cessaram todos os suspiros e medos. Mas, entretanto, na esperança e no silêncio estará a minha fortaleza. Mais quero viver e morrer a pretender e esperar a vida eterna, que possuir todas as criaturas e todos os seus bens que hão-de acabar. Não me desampares, Senhor, porque em Ti espero; não seja confundida a minha esperança. Sirva-Te eu sempre e faz de mim o que quiseres».
P. Manuel Reis
Video
Ficheiro
Teresa_SSTrindadeEncarnacaoEucaristia_parte4.pdf ![]()
2013-11-05
