Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Teresa de Jesus e a Eucaristia (5ª parte)
A devoção da Santa à Eucaristia está ligada ao seu amor à Sagrada Humanidade de Cristo. Uma das razões pelas quais abandonou a doutrina dos que negavam o valor da Humanidade de Cristo na contemplação mística foi porque diminuía a sua devoção ao Santíssimo Sacramento. Por isso, considerava esse caminho perigoso (6 M 7, 14). Ela identifica o «Santíssimo Sacramento» com «Cristo ressuscitado», com o «Cristo vivo»: «Quem nos impede de estar com Ele depois de ressuscitado, pois tão perto O temos no Sacramento, onde já está glorificado?» (V 22, 6).
O mistério da Eucaristia torna-se presente em Teresa em dois aspectos fundamentais: o da experiência e o da catequese prática, em vista da piedade eucarística das suas carmelitas e dos seus leitores. À sua experiência do mistério precedeu um laborioso curriculum informativo, condicionado pela teologia e a liturgia eclesial do momento tridentino em que ela vive.
Formação eucarística
No que se refere à sua formação eucarística, recebeu uma elementar iniciação familiar, normal na Igreja pré-tridentina: missa dominical, comunhão da família na liturgia pascal e em momentos familiares especiais, procissões populares, solenidade popular e grandes representações por ocasião da festa do Corpus Christi. Contudo, parece que a Eucaristia não teve importância decisiva na infância e adolescência de Teresa. Sabemos muito pouco da prática da comunhão sacramental na sua vida familiar . Não há nenhuma referência à data da sua primeira comunhão. Este acontecimento não consta das nítidas recordações que ela tem da sua infância. Nada sabemos sobre a sua catequese de infância. No relato de Vida, há que percorrer muitas páginas para chegar a uma primeira menção do Sacramento da Eucaristia e da Penitência: «Em todos eles [anos], a não ser acabando de comungar, jamais ousei ter oração sem um livro» (V 4, 9). «Começando pois a confessar-me com este que digo» (V 5, 4). «Logo quis confessar-me. Comunguei com muitas lágrimas… nunca, depois que comecei a comungar, deixei coisa por confessar que eu pensasse ser pecado, embora fosse venial» (V 5, 10). A confissão e a comunhão depois do seu colapso de 15 de Agosto, aos 24 anos: «Comecei a fazer devoções de Missas» (V 6, 6). «Depois que frequento mais amiúde a comunhão» (V 7, 11). «Também a terá [vanglória] de ouvir missa com devoção» (V 7, 21).
No mosteiro da Encarnação, viveu a piedade eucarística normal de uma comunidade religiosa de então. Segundo a Regra do Carmo, a celebração da Missa era o acto comunitário por excelência, que reunia «pela manhã cada dia» os eremitas dispersos pela montanha do Carmelo. Na Encarnação, a comunidade participava cada manhã na celebração da Missa. Por outro lado, são poucas as datas em que se permite a cada religiosa a comunhão. Nas Constituições do tempo, a «terceira rubrica», que tratava «das confissões e comunhão das irmãs», prescrevia: «Comungarão regularmente no primeiro domingo de Advento, e na natividade de nosso Senhor, e no primeiro domingo da Quaresma, e na quinta-feira da Ceia, e no dia de Páscoa seguinte, e no dia da Ascensão, e na Páscoa do Espírito Santo, e no dia do Corpus Christi, na festa de Todos os Santos, e nas festas de Nossa Senhora, e no dia em que recebem o hábito, e no dai em que fazem a profissão… Mas se nosso Senhor der devoção ao convento, ou à maior parte, de querer comungar mais amiúde, podê-lo-ão fazer com o conselho do confessor e a licença da prioresa» . Estamos longe da comunhão frequente.
Nos seus anos de baixa espiritual, a sua comunhão eucarística sofreu novas mínguas. Não se manteve fiel à comunhão dominical, se é que anteriormente a tinha praticado. Recorda-nos que depois da crise de quatro dias do grande «paroxismo» (estado de coma) do mês de Agosto de 1539, «comungou com muitas lágrimas» (V 5, 10). Na enfermaria conventual optou por «comungar e confessar-me muito mais amiúde, e a desejá-lo» (V 6, 4). Com a morte do pai, a 24 de Dezembro de 1543, propôs-se fazer uma mudança de vida, e acolhe o conselho do confessor e volta a «comungar de quinze em quinze dias» (V 7, 17). A comunhão vai tornar-se o momento mais intenso da sua oração: «Quando comungava, como sabia de certeza que o Senhor estava ali dentro de mim, punha-me a Seus pés, parecendo-me que não eram de rejeitar as minhas lágrimas» (V 9, 2). Este tímido reflorescimento da sua piedade eucarística alentará a sua vida espiritual nos duros anos de luta, entre os 29 e os 39 anos. Na Encarnação, um grupo de devotas da Eucaristia, formam a «Companhia do Corpus…», com regulamento e práticas próprias. Teresa faz parte dela. Sementeira profunda que produzirá delicados frutos na posterior piedade eucarística da Santa.
D. Alonso, entre os «bons livros» da sua pequena biblioteca familiar, tinha um «Tratado da missa», possivelmente o «Tratado da excelência do sacrifício da lei evangélica», de frei Diego de Guzmán. Pode ter sido para ela uma boa iniciação catequética e espiritual sobre a missa. Mais tarde, quando fundadora, tinha o seu pequeno missal em castelhano para acompanhar a celebração da missa. A «Imitação de Cristo», ou «Contemptus mundi», que ela leu, influenciou a sua piedade eucarística, embora ela nunca se refira ao famoso «livro quarto: do Sacramento do Altar», deixando reminiscência nos capítulos do Caminho sobre a Eucaristia. Será um dos livros fundamentais da biblioteca de cada Carmelo (Const 2, 7). Teve um precioso manual de formação eucarística na «Vita Christi cartuxano», escrita pelo cartuxo Landolfo de Saxónia e traduzida pelo franciscano Ambrósio Montesino, que ela incluiu na lista dos livros nas suas Constituições (2, 7). É provável que as páginas deste livro estejam na base do seu relato da Relação 26, onde refere que há «mais de trinta anos» pratica uma íntima liturgia eucarística na festa do domingo de Ramos, ou seja, nas dificuldades dos seus 25 anos.
P. Manuel Reis
Video
Ficheiro
Teresa_SSTrindadeEncarnacaoEucaristia_parte5.pdf ![]()
2013-11-12
