Santa Teresa de Jesus
PARA VÓS NASCI
V Centenrio
do Nascimento de Santa Teresa
1515-2015
Teresa de Jesus e a Eucaristia (9ª parte)
Dom, sacrifício, benefício
Na sua oração de acção de graças, de oferecimento e de intercessão, reúne a doutrina eucarística protestante do «benefício» com a doutrina eucarística católica do «sacrifício» : o dom de Deus, recebido no corpo e sangue de Cristo, deve ser novamente oferecido em sacrifício, em nome de Cristo, ao Pai dos Céus pela remissão dos pecados. Numa época em que a Igreja estava dividida precisamente pela fé eucarística, fala pelo Filho, reza ao Pai para que o Senhor do Sacramento não seja tão maltratado.
«Visto que, fazendo aos pecadores tão grande benefício como este, nenhuma coisa Lhe ficou por fazer, que queira a Sua piedade e se sirva de pôr remédio para que não seja tão maltratado. E, pois, Seu santo Filho nos dá um meio tão bom para que O possamos oferecer em sacrifício muitas vezes, valha-nos tão precioso dom para que não vá avante tão grandíssimo mal e desacatos como se fazem nos lugares onde havia este Santíssimo Sacramento entre os luteranos, destruídas as igrejas, perdidos tantos sacerdotes, tirados os Sacramentos. Pois, que é isto, meu Senhor e meu Deus! Ou dai fim ao mundo ou ponde remédio a tão gravísssimos males; não há coração que o sofra, ainda dos que somos maus. Suplico-Vos, Pai Eterno, não queirais mais sofrê-lo: atalhai este fogo, Senhor, pois o podeis, se quiserdes. Vede que ainda está no mundo o Vosso Filho; por respeito para com Ele, cessem coisas tão feias e abomináveis e sujas; por Sua formosura e limpeza, não merece estar onde há coisas semelhantes. Não o façais por amor de nós, Senhor, que não o merecemos: fazei-o por amor do Vosso Filho. Suplicar-Vos que não esteja connosco, não ousamos pedir: que seria de nós? Se alguma coisa Vos aplaca, é termos cá tal penhor. E pois algum meio há-de haver, Senhor meu, ponha-o a Vossa majestade. Ó meu Deus! quem pudera importunar-Vos muito, e ter-Vos servido muito para poder-Vos pedir tão grande mercê em paga de meus serviços, pois não deixais nenhum sem paga! Mas nada tenho feito por Vós, Senhor, antes sou eu porventura quem Vos tenho irritado de modo a que por meus pecados sobrevenham tantos males. Pois que hei-de fazer, Criador meu, senão apresentar-Vos este Pão sacratíssimo, e, ainda que no-lo destes, tornar-Vo-lo a dar e suplico-Vos pelos méritos do Vosso Filho, me façais esta mercê, pois Ele por tantos modos a tem merecido? Fazei, Senhor, fazei que se sossegue este mar; não ande sempre em tamanha tempestade a nave da Igreja! E salvai-nos, Senhor meu, que perecemos!» .
É uma formidável oração ao Pai por Cristo e pela Igreja. Este «pequeno tratado» sobre a Eucaristia, como dom de Deus e nosso sacrifício, torna-se num «pequeno tratado» sobre a Igreja, cujo centro é a Eucaristia . Diz aos luteranos do seu tempo que a Eucaristia é acima de tudo um dom que o Pai dos céus nos concede, não para nos apropriarmos dele, mas para o voltarmos a oferecer como dom de Cristo, que associa ao seu sacrifício a oferta da Sua Igreja. Damos a Deus o mesmo dom que Deus nos dá. Na sua dor mística pelos grandes males da Igreja, reza ao Pai por ela. Nela, Cristo sacramentado, sofre a profanação do sacrifício e dos sacramentos. Parece incompreensível que o Pai tenha permitido ao Filho permanecer connosco como «pão», sujeito ao atropelo das mãos dos homens, mas se assim não fosse, o mundo não poderia subsistir. A Eucaristia é o «antídoto» contra os «males da Eucaristia», que, no tempo de Teresa, são os «gravíssimos males» da Igreja. É necessário «oferecer o Pão sacratíssimo» e «suplicar pelos seus méritos» que se «sossegue este mar». Que pelo seu «ficar connosco» se redimam e se salvem os que o expulsam de si, traem e desprezam.
«A Eucaristia é o coração da Igreja. Teresa está convencida de que os acontecimentos da história – como os vaivéns da barca de Genesaré – a Igreja corre o risco de se afundar e perecer (CV 35, 5), mas se algo a salva é ter em si mesma por prenda a Cristo na Eucaristia. Aí surge uma das mais patéticas orações de Teresa: “Pai Eterno…, olhai que ainda está no mundo o vosso Filho… Suplicar-vos que não esteja connosco não vo-lo ousamos pedir: que seria de nós?, pois se algo vos aplaca é ter aqui tal prenda” (CV 35, 4). Quer dizer, para Teresa, nos bens e nos males, o mistério da Igreja reside na presença de Cristo nela. Presença que tem o seu eixo central na Eucaristia» .
A Eucaristia é a nossa acção de graças à Trindade: «Celebrando a Eucaristia na qual “se torna presente o triunfo e a vitória da sua morte”, e dando graças “a Deus pelo seu dom inefável” (2 Co 9, 15) em Cristo Jesus “para louvor da Sua glória” (Ef 1, 12), pela virtude do Espírito Santo» . Na missa prestamos culto à Santíssima Trindade: «Existe uma íntima ligação entre este altíssimo mistério e o Santo Sacrifício, que foi instituído conforme o decreto das Três Divinas Pessoas, serve para a sua glória e abre a porta para a participação da torrente eterna da vida trinitária» . São João, o discípulo a quem Jesus amava e que penetrou de modo tão extraordinário nos segredos do seu coração, apresenta a Eucaristia como o dom e a prova suprema do amor aos seus discípulos (Jo 13, 1). O ícone de Rublev representa a Santíssima Trindade sentada à mesa da Eucaristia. A Eucaristia é um banquete que antecipa a glória celeste, porque «desde já, nos une à Igreja do Céu, à Santíssima Virgem e a todos os santos» . Teresa estava convencida que o lugar mais apropriado para encontrar o Senhor e a Trindade é o altar e o sacrário – o Santíssimo Sacramento –, manifestações do «grande amor» do Pai e do Filho. Por isso, reza, com assombro, na Eucaristia, o sacramento do amor, ao Pai Eterno e roga por Cristo.
P. Manuel Reis
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Ficheiro
Teresa_SSTrindadeEncarnacaoEucaristia_parte9.pdf ![]()
2013-12-18
